Deu bug no peito.
Não é metáfora: travou mesmo.
Eu ia sentir uma coisa simples,
dessas que cabem no corpo
sem pedir explicação,
mas o sistema do dia
atualizou sem avisar
e agora tudo abre
na tela errada.
A alegria aparece
sem o arquivo.
A tristeza carrega
em círculo, em círculo,
como se o choro
dependesse de internet.
Tento reiniciar:
um café,
uma caminhada,
duas mensagens enviadas
com o cuidado de quem encosta
num vidro quebrado.
Nada.
O coração dá “erro inesperado”
justo quando alguém pergunta:
— você está bem?
Respondo:
— estou.
Porque “estou” é uma palavra curta
e o mundo gosta de frases
que não dão trabalho.
Por dentro, porém,
o peito abre uma janela
com excesso de memória:
nome antigo,
riso guardado,
um domingo que não terminou.
E eu, usuário de mim,
aceito os termos
sem ler,
como sempre.
À noite, o silêncio manda
notificações que não aparecem.
Eu sinto vibrar no escuro
uma ausência
com som de chamada perdida.
Talvez seja só cansaço,
digo.
Talvez passe.
Mas o bug tem seu orgulho:
ele não quer cura,
quer atenção.
Então deixo o peito travar,
faço espaço para o defeito
como quem aprende
que ser humano
é funcionar errado
com insistência.
E no meio do erro,
por um instante,
uma luz pequena acende:
o coração, mesmo bugado,
ainda tenta.
Comentários
Encantada com tanta beleza..... Parabéns,Kebler!
Um abraço
Vertiginoso poema em sua essência criadora. Parabens
Que lindo , poeta!!
Parabéns!!
Kleber
um versar interessante
reflexivo
um abraço
Ave, poeta! Boa tarde! Que Apolo, do Monte Parnaso, lhe cubra de glorias por este belíssimo poema revestido de crônica moderna, pois o poeta assegura ao leitor um misto de versos e estrofes com temática atual. O final com o “bug” ficou espetacular! Parabéns, nobre poeta. 1 abraço.