A alma hoje atende com hora marcada
atrás de um vidro fosco, meio manchado.
Trouxe o meu peito numa pasta timbrada,
com o inventário do que foi sonhado.
Você me pede certidões de pureza,
um alvará para poder me querer.
Mas o amor não cabe na mesa,
nem em planilhas de "como fazer".
O sentimento virou repartição:
tem guichê de espera e senha vencida.
Paguei as taxas da desilusão
pra ter o carimbo de entrada na vida.
É o tédio do ferro, o giz no cimento,
a paixão sob o peso do código civil.
Estamos perdendo tanto momento
em processos lentos, num vácuo sutil.
Mas se você rasgar o contrato agora
e assinar o vazio com o resto do giz,
a gente joga o arquivo lá fora
e tenta, por erro, ser quase feliz.
Kleber Luís Antônio Pinheiro
@frag.mentosdoinvisivel
Comentários
Kleber
a felicidade esta acima de papeis ou paredes
e sim dentro de cada pessoa
um abraço
Lindo demais! Parabéns.
Fiquei a me certificar de que não há outro meio de acessar a felicidade a não ser pelo imprevisto, pelo descuido, pela espontaneidade - o resto é cálculo e buricracia, como você disse. Cabe na empresa, não cabe no coração.
Adorei o seu poema! A burocracia do afeto. Prabéns!