Carro plasmado de neblinas
J. A. Medeiros da Luz
Desde o romper da aurora,
Na estrada, a custo carroçável,
Desta velhusca rede neural, microvoltaica,
Palavras — tardas, rudes, resilientes e bovinas —
Tracionam, sob cangalhas de aroeira,
O carro de bois, em cantilena dolente e ininterrupta,
A carretar, em seu bojo, aquele ouro
De centenas de espigas granadas de sonhos.
Morcego e Paladino!
Cascavel e Tarumã!
Eia, aguentem firme, vamos!
Que já não tarda o noitejar.
E lá se vão!
Lá se esfuma, por fim, a comitiva
Na poeira das sendas e veredas.
Sabe-se lá onde há de parar o frete,
E que paiol há de estocar a carga,
Tão zelosamente conduzida,
Por brejos, areais, gargantas e cerrados
Tracionada, sem descanso, sem descanso,
Pela incansável tropa das palavras
— Esses colossos de vigor e de neblina.
Goiânia, 2025 – setembro, 19.
[© J. A. M. Luz]
Comentários
Notável, caro poeta. Expressão poética com estilo!
Cara srta. Lilian: obrigado pela visita. Esse sortilégio que as palavras proferidas com enlevo catalizam nos faz esquecer da pequenina magnitude do ser humano; repentinamente, num surto alucinatório, nos vemos pares de harpias e condores, sendo nós outros, em verdade, somente galinholas de voo curto, à orla dos brejões... Essa é a magia da poesia.
Abraço; j. a.
Belo texto,J.A!
Um abraço
Obrigado muito, cara Márcia pela visita e generosidade.
Desde moleque, impressina-me sobremodo aquela potência pacienciosa dos bois de carro! Nada os estaca no viajar constante e monótono, carreando gêneros. São titãs impassíveis, tardos, filosóficos.
E, vai daí que, mais tarde, descobri, maravilhado, que as equações e as palavras são bois virtuais tão poderosos quanto o Brioso, o Pintado, o Barroso e tantos bovinos sem nome que maceram os pedrouços dos caminhos.
Abraço; J. A.
Lindos versos, que aplaudo de pé!
Abraço
Obrigado, amável Ciducha, pela visita e comento.
Ah, esta grande e enfeitiçadora peregrinada da existência, com seu comboio de esperanças, que, como os velhos tropeiros, temos que bem conduzir, naquela meta irrecusável de perseguirmos a seta do tempo! No feltro espesso da capa de viagem vai se aderindo a poeira de nossos trilheiros e vão rolando, lacrimais efêmeros, as bátegas geladas dos aguaceiros — mas nada nos detém; até porque na algibeira interna conduzimos a fotografia de nosso bem-querer.
Abraço do J. A.
Comadres e compadres:
Estando a visitar, num pulinho de dois dias, a metrópole de meus dias primaveris, eis que no pátio do IFG, após visita rápida a velhos amigos e durante espera no pátio profuso em árvores frondosas, catalisadoras de lembranças, ocorre-me, da leitura — totalmente errônea e subitânea — de uma nesga visível de escrita sobre uma das paredes, ocorre-me (repito) um embrião de frase, que amadureceu para o segundo verso desse poemeto de eixo um tantinho fora dos mancais… Em coisa de trinta segundos, floresceu, no neocórtex, o cerne da mensagem que agora estampo com o polimento e o verniz da empreita premeditada, passadas quatro horas, recheadas de outras pendências triviais. E por um triz, depois de corrida em carro de aluguel, não me esquecia completamente do “ectoplasma literário” que tamborilava informe e evanescente sobre o tampo da escrivaninha do subconsciente, esse simbionte para lá de estranho que nos habita — ou coabita?
Abraço do J. A., esse tropeiro virtual.