Dizem que o tempo cura.
Ninguém especifica a dosagem,
nem o horário,
nem se é antes ou depois das refeições.
Eu tomei o tempo religiosamente,
todos os dias, na medida certa,
e continuo aqui,
tão curado quanto uma ferida
que aprendeu a se vestir bem
para sair de casa.
Há uma elegância cruel
em seguir em frente:
ninguém aplaude,
ninguém nota o esforço
de parecer inteiro
numa manhã qualquer de terça,
como se levantar da cama
fosse um ato menor
e não uma pequena guerra
vencida em silêncio.
Sou grato, aliás,
a dor teve a decência
de não me atrapalhar o trabalho,
de esperar a noite,
de bater à porta só depois
que todos já foram embora
e eu não preciso mais
fingir nada para ninguém.
Ela é educada assim.
Pontual, discreta,
do tipo que nunca grita,
só senta na cadeira ao lado
e fica.
Preciso ser preciso:
não estou reclamando.
Estou apenas registrando,
com a frieza de quem lê um extrato bancário,
que perdi mais do que ganhei
e que a vida, generosa,
me deixou continuar
mesmo assim,
o que, convenhamos,
é o tipo de piada
que só o tempo tem coragem
de contar duas vezes.
Comentários
Maravilhoso escrito, como sempre!
Parabéns.