Dizem que o tempo cura.

Ninguém especifica a dosagem,

nem o horário,

nem se é antes ou depois das refeições.

 

Eu tomei o tempo religiosamente,

todos os dias, na medida certa,

e continuo aqui,

tão curado quanto uma ferida

que aprendeu a se vestir bem

para sair de casa.

 

Há uma elegância cruel

em seguir em frente:

ninguém aplaude,

ninguém nota o esforço

de parecer inteiro

numa manhã qualquer de terça,

como se levantar da cama

fosse um ato menor

e não uma pequena guerra

vencida em silêncio.

 

Sou grato, aliás,

a dor teve a decência

de não me atrapalhar o trabalho,

de esperar a noite,

de bater à porta só depois

que todos já foram embora

e eu não preciso mais

fingir nada para ninguém.

 

Ela é educada assim.

Pontual, discreta,

do tipo que nunca grita,

só senta na cadeira ao lado

e fica.

 

Preciso ser preciso:

não estou reclamando.

Estou apenas registrando,

com a frieza de quem lê um extrato bancário,

que perdi mais do que ganhei

e que a vida, generosa,

me deixou continuar

mesmo assim,

 

o que, convenhamos,

é o tipo de piada

que só o tempo tem coragem

de contar duas vezes.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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