CONCRETO E CHUVA
A chuva chega sem bater na porta,
lava o asfalto, lava o meu lugar.
Não pergunta o peso que eu transporto,
só sabe que aqui ninguém vê o mar.
Os prédios velhos resistem ao tempo,
guardando as marcas gastas do sinal.
Eu penso em tudo que já foi momento
e hoje é só fumaça de um final.
Não sei se a cidade apaga ou se ela escreve,
se cura ou se reabre o que ficou.
Só sei que ela grita rápido e breve
levando um pouco do que me sobrou.
As sirenes cantam frases que eu entendo,
um alfabeto feito de partida.
Eu fico ali, na esquina, resistindo,
feito um farol aceso numa avenida.
Talvez São Paulo seja um espelho
do que a gente não conta pra ninguém.
A chuva cai e me dá um conselho:
ninguém retém aquilo que não tem.
Deixo meus passos ecoarem no viaduto,
deixo o vento desarrumar meu jeito quieto.
Não é tristeza, é só um retrato bruto
de quem aprendeu a viver incompleto.
Comentários
Maravilhosoooo!! Parabéns!