Chegas, e o ventilador desiste de mim.
O calor, que era do tempo,
passa a ser da tua boca
e eu, homem de cálculos modestos,
perco a conta dos botões.
Teu ombro tem a temperatura exata
das coisas que não deviam estar ao alcance.
Minha mão, que jurava juízo,
vai ao seu encontro com a pressa
de quem esqueceu a própria assinatura.
Preciso ser preciso:
o que há entre a tua nuca e o meu fôlego
não cabe em nenhuma lei, só em um tremor.
Respiras, e a casa inteira
muda de pulso, como se o relógio
tivesse sido avisado.
Dizem que a razão guarda as chaves.
Pois guardou-as tão bem
que nem ela sabe mais em que gaveta,
e a noite, cúmplice sem diploma,
apaga a luz por conta própria,
discreta como um funcionário
que viu demais e não viu nada.
Amanhã haverá café, bom-dia, algum assunto.
Fingiremos a vida em ordem alfabética.
Mas a pele, essa arquivista indiscreta,
já catalogou tudo
sob a letra que nunca se diz.
Comentários
Saudações poéticas, Kleber.
Bacana, caro poeta. Saudações e meu abraço
Ave, poeta Kleber! dez pra ti, ab