CONTABILIDADE DO VERÃO

 

 

Chegas, e o ventilador desiste de mim.

O calor, que era do tempo,

passa a ser da tua boca

e eu, homem de cálculos modestos,

perco a conta dos botões.

 

Teu ombro tem a temperatura exata

das coisas que não deviam estar ao alcance.

Minha mão, que jurava juízo,

vai ao seu encontro com a pressa

de quem esqueceu a própria assinatura.

 

Preciso ser preciso:

o que há entre a tua nuca e o meu fôlego

não cabe em nenhuma lei, só em um tremor.

Respiras, e a casa inteira

muda de pulso, como se o relógio

tivesse sido avisado.

 

Dizem que a razão guarda as chaves.

Pois guardou-as tão bem

que nem ela sabe mais em que gaveta,

e a noite, cúmplice sem diploma,

apaga a luz por conta própria,

discreta como um funcionário

que viu demais e não viu nada.

 

Amanhã haverá café, bom-dia, algum assunto.

Fingiremos a vida em ordem alfabética.

Mas a pele, essa arquivista indiscreta,

já catalogou tudo

sob a letra que nunca se diz.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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