Dolo

                                                                                                          DOLO

             A primeira vez que olhou aquela mulher soube que seria ela. Mas de si mesmo ele deixou de saber.

            Falavam pouco, mal se cumprimentavam durante o expediente no escritório e, fora dele, nunca se tinham visto. Mas os dias foram passando, e passou também a indiferença dela. Agora já era simpática e, quando conversavam, ela lhe sorria.

            Pensou que a felicidade lhe chegaria abraçada com o amor. Era muito jovem para aceitar que até os mais fortes braços um dia pendem cansados, inertes. Ficam esquecidos cada um de um lado. Sem se esbarrarem.

            Ele tinha pouco mais que 16 anos.

            Ela já beirava os trinta. Era casada.

            Porque nunca vira o marido, ele não se doía com esse vértice. Seus olhos passeavam pelas curvas sem intuir as arestas. Só via como era linda. Linda! Qualquer ângulo que houvesse seria atenuado por alguma mirabolante geometria. Por que uma terceira área com pontiaguda potência a ferir suscetibilidades? Ademais, se o interesse dele tinha um quê de platônico, o peso das renúncias seria sustentado por uma decisão forte como as omoplatas do filósofo.

            Mais dias cruzaram olhares e sorrisos. Por que a vida não tinha sido sempre assim? Tudo o que ele vivera até então desfazia-se: era dissipação de neblina ao calor do sol. E ela parecia gostar de ver o efeito da luz ardente sobre a alvura fria.         

            Se ela estava feliz, ele ficava feliz também, sem pensar nos três ângulos ponta-de-agulha. Difícil entender? Talvez por isso mesmo ele se deu ao sentimento sem fazer perguntas, sem buscar respostas. Tão vulnerável na sua inocência e tão veemente na sua verdade. Foi assim que ele soube que a amava de um jeito diferente.

            – Eu gosto de você.

            – Também gosto de você.

            – Não, você não está entendendo. Eu gosto de poucas pessoas. Mas eu gosto muito mesmo de você.

            Desde então, ele entendeu que só amizade já não lhe bastava. Queria mais que olhares, risos e conversas. Sonhava uma desconhecida alegria.

            Mas era tão diferente dos seus amigos! Queria que o desejo lhe nascesse na alma e depois estremecesse no corpo. Os amigos troçavam dele. Escolheu perder os amigos.

            Quis vencer os anos e se fazer mais maduro naquela tarde. Quebrou a casca da maturidade antes do prazo normalmente exigido. E o que escorreu era sofrimento. Nunca mais teria guarida dentro de si.

            Ele ficou sem entender o que havia acontecido de fato. Mas soube definitivamente que não haveria outra como ela, que lhe sorriu no espelho, enquanto se despia para fazê-lo vitorioso e derrotado ao mesmo tempo.

            Depois do sexo, não a viu de novo. Ela demitira-se sob a alegação de acompanhar os interesses profissionais do marido.

            Ele virou um sentimento encalhado na escuridão de um peito vazio de ressonância. E o deserto se estendeu mais e mais pelos seus dias, sem a luz dela. Questionou o que sentia, e nenhuma conclusão o socorreu. Nem a poesia. Como chegar a termo sobre "uma ferida que dói e não se sente", sobre "um contentamento descontente"?

            Quem sabe da brevidade dos abraços e, mais que isso, sabe da distância entre almas que nunca se abraçam, entende de melancolia e, à pergunta do poeta ("Mas, como causar pode, a seu favor, / Nos coraçõs humanos amizade, / Se tão contrário a si é o mesmo amor?), já respondeu no olhar ensombrecido.

            Nem sempre as palavras conseguem dizer tudo.

 (E. Rofatto)

Eu fui um tolo ao querer você (música)

 

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E. Rofatto

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Comentários

  • Edvaldo

    o amor é complicado

    pois desperta um sentimento grande de um lado mas pode não ser despertado do outro lado

    e assim alguem fica ferido sem ter cura

    um versar que fala das possibilidades de acontecimentos na vida que pode acontecer a qualquer momento e em qualquer lugar

    um abraço

  • O tempo foi passando e as motivações também..Assim tão jovem vê -se diante de mulher mais madura...Na sequência da aplacada relação o Amor repentino que se quer promissor é estancado pelo afastamento da mulher, que segue outros caminhos..Depois do sexo que não se repetiria as frustrações e reflexões e desejos são enterrados..nos direcionamentos da vida que segue.

    Como diz o Poeta Nem as palavras conseguem dizer tudo, quando imaginações, anseios, paixão e Amor não são bem traduzidos e entendidos.

    Parabéns por beleza de Poesia, um maravilhoso texto de muitos entremeios poéticos e num balançar de emoções.

    Abraços fraternos prezado Poeta Edvaldo Rofatto..

    Sempre uma honra ler-te..

    Espero ter avaliado com alguma correção suas muitas mensagens nesta Poesia 

  • Uauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, que lindeza Edvaldo!

    Encantada te aplaudo de pé!!

    Abraço

  • Edvaldo, belíssimo texto!
    Profundo e sensível, o texto trata o amor como experiência inaugural e ferida permanente. A inocência e a dor mostram como certos encontros, embora breves, deixam marcas emocionais em quem se entrega ao amor.

    Parabéns.
    Um abraço

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CPP