Não vou chorar como choram os outros
com sal comum, com água pobre.
Vou chorar como chora o mar quando se retira
e deixa na areia o formato de tudo que levou.
Você foi embora e o meu corpo aprendeu
a fome que não é de pão:
a fome de uma voz específica,
de um jeito único de dizer meu nome,
que ninguém mais no mundo,
em nenhuma língua,
saberá repetir.
Toco as coisas que você tocou
como quem procura calor
numa pedra que o sol já esqueceu.
E há uma violência nisso, devo dizer:
o luto não é doce, é faminto,
é um animal que dorme no meu peito
e acorda com fome de você
em toda hora errada do dia.
Eu queria escrever sobre flores,
sobre a primavera que insiste lá fora,
mas a verdade é mais simples e mais bruta:
morri um pouco quando você morreu,
e essa parte de mim
não vai ressuscitar com a chuva,
não vai brotar em nenhuma árvore.
Permanece enterrada em mim, ainda viva,
esperando, não sei o quê.
Talvez apenas esperando,
que também é uma forma
de continuar amando.
Comentários
Caro poeta Kleber
Um poema muitio bem elaborado, com versos que o completam.
Parabéns!
Abraços
Um texto forte e muito sensível. Gostei especialmente das imagens do mar, da fome e do luto, que dão corpo a uma dor difícil de explicar. Uma leitura que transmite muito sentimento. Parabéns, Kleber!