Estratigrafia

 

Não me pergunte o que aconteceu.

 

O que aconteceu já virou camada, está abaixo do que você vê, abaixo do que eu mostro, abaixo até do que eu sei que guardo.

 

Pergunte o que ficou.

 

Ficou uma forma diferente de segurar o copo. Ficou o jeito que o corpo desvia de certos ângulos de luz, como se a luz tivesse bordas e eu soubesse onde cortam.

 

Isso não é lembrança.

 

Lembrança é consciente, tem endereço. Isso é outra coisa.

 

É o que a pressão de milhões de anos faz com o calcário: não destrói.

 

Transforma.

 

E o calcário não sabe que carrega o formato exato de tudo que o comprimiu.

 

Eu sei.

 

Essa é a diferença entre mim e a pedra.

 

Eu sei que sou o sedimento de algo que não consigo mais nomear, porque o nome também virou camada, e camada não tem voz.

 

Tem peso.

 

Carrego.

 

Não porque escolhi.

 

Porque é assim que a geologia funciona:

 

o que foi pressão suficiente não passa.

 

Fica.

 

 

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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