Não me pergunte o que aconteceu.
O que aconteceu já virou camada, está abaixo do que você vê, abaixo do que eu mostro, abaixo até do que eu sei que guardo.
Pergunte o que ficou.
Ficou uma forma diferente de segurar o copo. Ficou o jeito que o corpo desvia de certos ângulos de luz, como se a luz tivesse bordas e eu soubesse onde cortam.
Isso não é lembrança.
Lembrança é consciente, tem endereço. Isso é outra coisa.
É o que a pressão de milhões de anos faz com o calcário: não destrói.
Transforma.
E o calcário não sabe que carrega o formato exato de tudo que o comprimiu.
Eu sei.
Essa é a diferença entre mim e a pedra.
Eu sei que sou o sedimento de algo que não consigo mais nomear, porque o nome também virou camada, e camada não tem voz.
Tem peso.
Carrego.
Não porque escolhi.
Porque é assim que a geologia funciona:
o que foi pressão suficiente não passa.
Fica.
Comentários
Belíssimo versejar, Kleber.