Êxtase
Deixa-me dizer o que teus olhos fazem à luz: roubam-lhe o ofício, tornam-na desnecessária, pois onde tu estás o dia já nasceu antes que o sol se lembre de nascer.
Toco teu nome como quem toca uma pétala que ainda não sabe se é carne ou milagre, e cada sílaba tua se desfaz em minha boca num sabor que nenhuma língua soube nomear.
Se a beleza é verdade, como disseram os antigos, então tu és a coisa mais honesta que existe. Não mentes ao florir, não finges quando ardes, és inteira no instante, como a rosa que não guarda para amanhã a beleza de agora.
Quero morrer mil pequenas mortes nesse abraço, não a morte que apaga, mas aquela que transforma, a que o verão conhece quando se entrega à noite, sabendo que outra manhã talvez seja mais bela por ter atravessado a escuridão contigo.
Deixa que eu me perca em teu perfume como o poeta se perde na palavra exata: sem resistência, sem defesa, sem regresso, apenas entrega, apenas o corpo ardendo em silêncio diante daquilo que não se explica, apenas se contempla.
Serás, enquanto eu respirar, minha certeza neste mundo que desconfia de tudo o que é eterno.
E se um dia a carne terminar e somente o verso permanecer, que não escrevam grandes coisas sobre nós.
Que digam apenas:
eles se amaram.
E amaram como quem contempla a beleza sabendo, desde o primeiro instante, que algumas verdades não foram feitas para serem compreendidas,
mas vividas.
Comentários
Que deslumbre de declaração!!!
Há leitores que apenas passam os olhos pelas palavras. Há outros que acendem uma casa dentro delas. Seu comentário fez do poema um lugar novamente habitado. Obrigado por emprestar sua sensibilidade ao silêncio que escrevi. Afinal, é o leitor quem termina o verso que o poeta apenas começou.