Fim da quaresma
(José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador
Lentamente a noite chega na “Quinta-feira Santa”. É noite, é vento soprando e balançando os cabelos da morena que vai apressadamente para casa. Na mão direita, segura firmemente a pequena sacola de plástico com o emblema do supermercado onde ela comprou o bom e saboroso pedaço de bacalhau e o peixe de preferência. Também, Dona Maria, assim chamada a varredeira de rua lotada na prefeitura municipal, caminha apressadamente carregando algumas sacolas com produtos que foram comprados no mesmo supermercado onde a moça comprou. Provavelmente, deverá ser peixe, bacalhau, batatas e outros componentes para a bela bacalhoada que será servida na Sexta-Feira da Paixão.
Seu Eduardo, o ancião de mais de oitenta anos, se preparara para sair da residência. Está impaciente e a cada minuto olha as horas no lindo e exuberante relógio de bolso, que recebeu de presente do filho que reside na Itália. Pega a bengala e diz para a esposa que irá para igreja, mas antes precisa ir à casa do compadre Júlio, que também se prepara para saída misteriosa. No fundo da rua, a bem humorada Valéria, senhora alta, corpulenta, que usa ouro nos dentes e o lindo lenço sobre os alvos cabelos e se veste com o vestido preto mascarado da cor rosa, também se despede da filha dizendo que irá à missa, pois precisa chegar cedo para encontrar o bom e confortável lugar no salão da igreja. Pedro, Eduardo e Fernanda fazem o mesmo e bem vestidos se dizem ir à missa, mas logo se reúnem perto da praça do cemitério e entram na perua do Manoel, outro de mais de oitenta anos de idade, que também disse para a família que iria à igreja.
Já dentro do veículo, seguem eles pela estrada de terra, passando por quatro mata-burros e sobem na direção da serra. Não falam nada entre si. Somente se comunicam uns com os outros por meio de pensamentos e alguns gestos alheios ao conhecimento humano. Na clareira no meio da serra, o veículo entra pela estrada cheia de buracos e grandes e altas árvores que mal se diferenciam os trechos da estrada e debaixo da maior e escura árvore, a perua para e os faróis são desligados. As portas de abrem e todos os ocupantes descem sem conversarem e sem olharem uns para os outros. O forte clarão se forma e relâmpagos são vistos, mas não são luzes naturais e nem mesmo fenomenais. A forte luz que brilhava não parecia ser deste mundo. Em cores vermelhas, azuis, amarelas e verdes, ela encobria a todos os que ali estavam. Eduardo, Valéria, Pedro e os demais foram encobertos pelo clarão e logo se ressurgiram de formas bem diferentes, bem horripilantes que assustavam quem ali estivesse ou passasse por perto. Quinzinho, o velho mateiro, que sempre andava pelas matas à procura de raízes, plantas medicinais, flores exóticas e outros produtos da flora estava ali por perto e viu tudo, sem pregar os olhos um segundo sequer. Viu ele criaturas peludas, sem formas oficiais e sinistras. De tanto medo, largou os achados e saiu correndo mata afora e se escondeu na copa de alguma árvore e lá permaneceu.
Assim, a clareira foi recompondo, mas ao alto parecia vir algo diferente acima daquele grupo e até mesmo iluminou Quinzinho, que permanecia trêmulo e medroso nos galhos da árvore. Algo que dissipava forte calor, com luzes mais fortes e brilhos diferentes de tudo conhecido.
Não era Eduardo que falava, mas um verdadeiro monstro, com mais de dois metros de altura, peludo desde a cabeça até a ponta dos dedos, olhos vermelhos bem fortes, nariz grande, boca imensa e dentro dela se viam longos e apontados dentes bem níveos. As mãos eram cheias de pelos, com longos e afinados dedos e se viam grandes e poderosas unhas que mais se pareciam agulhas afiadas e preparadas para quaisquer ataques e as pontas eram vermelhas como o sol no final do dia. Valéria não era reconhecida. Sua altura era ainda maior. Os braços se alongaram e as pernas também. Não se viam unhas, mas um agrupamento de matéria grossa, negra e calcificada como a forma do casco de algum animal tal como burro ou mula. Não se via a cabeça, mas algo em forma de chaminé e dele saiam lavaredas de fogo na altura de três a quatro metros e voz era desfocada semelhante a megafone e oca. Os homens se transforam nas figuras semelhantes à de Eduardo e as mulheres tais como Valéria, mas as figuras de Eduardo e Valéria se destacavam e, possivelmente, eram os chefes de todos os que ali estavam.
Então, a figura de Eduardo foi logo dizendo:
- Acalmem-se nobres amigos. Hoje é o último dia da quaresma. Temos nossa reunião anual e a prestação de contas destes quarenta dias que saímos e assustamos as pessoas. Lembrem-se que estamos sendo vigiados pelos amigos lá do alto. Eles estão presentes aqui e não gostam de mentiras. Quem mentir não mais se reunirá no próximo ano. Irá embora para sempre no decorrer deste ano até o dia em que reuniremos novamente.
Foi silêncio total. A forte luz brilhava mais forte sobre eles e viu-se algo descendo sobre a luz. Figura sinistra, que parecia ter chifres, vestido de roupas vermelhas ou coisa semelhante. Foi logo dizendo com voz firme que mais se parecia o som do mais estrondoso e barulhento trovão.
- Pedro! É a sua vez de prestar contas...
Meio caindo, mas com voz forte, ele disse:
- Nesta quaresma não foi de grande sucesso como esperava.
- Tentei assustar a Gabriela, a filha da Matilde. Ela está traindo o marido com o padeiro Pedro. Fui várias vezes no lugar onde os dois se encontram. Fiz barulho, gritei, aproximei deles, mostrei meus fortes e brancos dentes, olhei com os olhos bem vermelhos para os dois, mas tudo foi em vão. O amor dos dois é bem forte e me ignoraram. Voltei para casa triste e nem mesmo assustei os meninos que estavam fazendo algazarras nas bem equipadas bicicletas.
Furioso, a criatura não gostou do depoimento de Pedro e fala:
- Foi seu último ano. Já sabe o que acontecerá.
- Vamos, Júlio, falar um pouco de você.
Júlio se levanta apressado, mas dá uma pequena desequilibrada e cai. Logo, se levanta novamente e fala:
- Não fiz nada. Nem mesmo saí nas noites de sexta-feira. Fiquei internado no hospital por diversas vezes. Tomei soro e sangue na veia. Não aguentei. Na última sexta-feira, tentei sair, porém faltou-me energia e nem de casa consegui. Hoje eu vim porque era obrigado e o compadre Eduardo ficou insistindo comigo. Não tenho mais forças e sei o que acontecerá comigo.
A figura sinistra não achou bom o relato de Júlio. Fechou a cara e soprou-lhe algo parecendo fogo e logo o pobre coitado foi desfigurado e voltou à condição natural, mas desacordado próximo à segunda árvore ali perto.
Pedro falou a mesma coisa de Júlio. Foi, também, desfigurado e ficou desacordado perto do companheiro.
Fernanda foi logo dizendo, mesmo sem ser chamada.
- Fiz tudo o que diz o manual de “Mula”. Sai correndo pelas ruas, assustei os varredores da prefeitura, quebrei as cercas da fazenda do Altair e misturei gado, bezerros, porcos, galinhas e angolas. Pus fogo no pasto e tomei um tiro na nádega direita. No outro dia fui ao hospital e lá encontrei o danado. Ele me olhou com cara ruim e ainda bem que não sabe que fui eu. Se descobrisse, seria morta ali mesmo.
A figura sinistra olhou e logo o sorriso saiu.
- Muito bem! Muito bem!
- Será coroada a rainha do próximo ano, porque a Valéria sairá de cena neste ano. Fale, Valéria, o que fez?
Valéria, meio trêmula, com medo e com a voz fraca disse:
- Perdão, meu superior, perdão! Vossa Alteza! Neste ano não fiz nada. Recordei de minha bravura, de minha esperteza em correr pelas ruas, em morder nas mulheres, em espantar cavalos e povos e admiro muito minha amiga que me substituirá na próxima temporada.
Continuando, foi falando:
- Minha filha me deu de presente um lindo aparelho celular. Ela mesma colocou internet em minha casa e me ensinou a mexer no aparelho. Estou viciada em ouvir música, em ler as fofocas que são publicadas, em olhar o “facebook” e estou participando ativamente das missas. Estou redimida e cumpri meu tempo como “Mula sem cabeça”. Só quero agora é rezar e mexer no celular.
A figura não gostou quando Valéria disse que se redimiu e queria somente rezar. Fez careta e o encanto de Valéria sumiu, porém, a fé forte dela não abalou e ela foi encostada no canto junto aos colegas desacordados. Ela ficou firme e tirou da bolsa o celular e foi verificar as notícias do watzap e do facebook.
Assim a figura foi interrogando todos que ali estavam.
Quinzinho, escondido nos galhos da árvore, via e assistia tudo o que acontecia. Quis tirar o celular do bolso para filmar, mas a figura sinistra disse:
- Tem alguém nos espiando e pela lei terei que matá-lo ou morder nele para fazer parte de nossa seita.
Ouvindo aquelas palavras, Quinzinho não deu outra chance. Imediatamente desceu da árvore e saiu correndo e caindo pela floresta. Sua iluminação era a luz da lua cheia que brilhava no céu. Em pouco tempo estava em casa e dizia para a esposa para não abrir a porta para ninguém, principalmente para Valéria, Eduardo e os que estavam naquela reunião. Arranhões e espinhos eram vistos nos braços e pernas dele. No outro dia, quando amanheceu e o sol estava forte, com muita luz, ele foi ao hospital para fazer curativos e sempre olhando para os lados para não ver os participantes da reunião.
Todos foram interrogados pela figura sinistra.
Quando o dia estava quase amanhecendo e as luzes da cidade começavam a ser apagadas, tudo voltou ao normal. Os que estavam desacordados se acordaram e ninguém estava mais com trajes e formas estranhas do normal. Eles, com fortes dores de cabeça, tiveram forças para entrarem no veículo e nada comentavam entre si. Um a um chegou em casa e alguns familiares já estavam preocupados.
Os dias foram passando. As pessoas que foram apontadas como ineficazes pela figura sinistra morreram no decorrer do ano. Daquela turma, duas ou três permaneceram vivas e com mais disposição para viver.
Valéria, com muita fé e temente a Deus, permaneceu viva e mudou para outra cidade maior e ficou ali cuidando da netinha e sempre fuçando no celular.
Assim, a próxima quaresma terá pouco lobisomem e pouca mula sem a cabeça, porque os que descumpriram as promessas foram eliminados e os que permaneceram terão longos caminhos e muitas prestações de contas com a criatura sinistra.
Comentários
Qie belo texto, José Carlos
Lí-te com atenção e te aplaudo!