MATINÊ

 

31040412094?profile=RESIZE_710x

MATINÊ

 Era o tempo dos Beatles, quando as canções pareciam capazes de reorganizar o mundo e a juventude aprendia a sonhar ao som de um refrão. As músicas atravessavam as janelas abertas, misturavam-se ao calor do verão e davam a impressão de que algo importante estava sempre prestes a acontecer. Era também o tempo do cinema como rito — salas escuras, filas nas calçadas, vidas suspensas por duas horas, enquanto o mundo lá fora aguardava em silêncio.

 Adamastor vivia esse tempo sem saber que ele passaria. Já se afastava da infância, mas ainda não alcançara a adolescência. Havia nele uma expectativa difusa, uma curiosidade sem nome. Gostava das músicas que tocavam no rádio, das matinês barulhentas e das férias longas, intermináveis, que começavam em dezembro e só terminavam quando o verão já se despedia.

 A cidade, com seus pouco mais de sessenta mil habitantes, parecia maior naquela época: as ruas cheias, o comércio em festa, o Natal anunciando promessas que ninguém sabia explicar, mas que todos sentiam.

 Naquele dia, entrou no Cine Arte para assistir a A Noviça Rebelde. A sessão já havia começado. O escuro o acolheu como um segredo antigo. Sentou-se sem olhar, guiado apenas pelo tato, pelo farfalhar dos corpos e pela pressa juvenil de não perder nada do que estava na tela.
Pouco a pouco, à medida que os olhos se habituaram à penumbra, percebeu quem estava ao seu lado. Maria Isabel.

 Estudavam no mesmo colégio. Moravam no mesmo bairro. Cruzavam-se havia anos sem jamais se deterem um no outro — rostos familiares, porém anônimos, como tantos que fazem parte da paisagem cotidiana. Ainda assim, ali, lado a lado, era como se se reconhecessem pela primeira vez, arrancados da rotina por uma coincidência que não foge de qualquer explicação.

 Ela tinha olhos claros, quase luminosos na sombra, e um silêncio delicado, atento. Ele trazia um romantismo tímido, trazido dos livros e dos filmes, mas nunca exercitado na vida real. Ambos carregavam sentimentos que ainda não sabiam usar. Talvez por isso se entendessem tão bem sem palavras.

 Enquanto a música ecoava na tela e as imagens se sucediam, Adamastor deixou a mão deslizar lentamente pelo braço da poltrona. Tocou a de Isabel com a cautela de quem toca algo sagrado ou proibido. Os dedos se entrelaçaram — inseguros no início, depois firmes, como se soubessem exatamente onde estar, como se aquele gesto tivesse sido ensaiado em silêncio por muito tempo.

 Não trocaram olhares.

 Não disseram nada.

 Mas, sem saber quem se inclinou primeiro, rolou um beijo — breve, hesitante, como se o gesto tivesse nascido antes deles. Um toque de lábios quase por engano, quase por necessidade.

 O mundo pareceu suspender a respiração. A sala desapareceu, o filme tornou-se distante, e restou apenas aquele contato mínimo, absoluto.
 Uma corrente quente percorreu os dois. Isabel suspirou fundo, quase sem ar, como se o corpo precisasse reaprender a respirar. Adamastor sentiu o coração bater num lugar novo, desconhecido, como se aquele instante inaugurasse algo que não teria continuidade — e, ainda assim, fosse suficiente.

 Quando a sessão terminou, levantaram-se devagar, ainda atordoados, como quem desperta de um sonho curto demais. Saíram por lados diferentes da sala, carregando consigo algo que não sabiam nomear e que não ousariam comentar com ninguém.
Nunca mais se encontraram — nem no bairro, nem no colégio, nem nas ruas cheias de outros Natais, nem em qualquer outra matinê do Cine Arte.

 O tempo passou, silencioso e inexorável.

 Hoje, mais de quarenta anos depois, Adamastor já não saberia reconhecer Maria Isabel, se a visse. Não saberia o som de sua voz, nem a cor exata de seus olhos, nem se ainda existiria algo em comum entre eles.

 Mas sabe que houve um instante em que tudo fez sentido. Um instante sem nome, sem promessa e sem futuro, mas pleno de uma verdade inexplicável.

Desde então, carrega a estranha certeza de que algumas histórias não acontecem para durar — acontecem apenas para existir.


Miniconto de Nelson de Medeiros.

Enviar-me um e-mail quando as pessoas deixarem os seus comentários –

Nelson de Medeiros

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Casa dos Poetas e da Poesia.

Join Casa dos Poetas e da Poesia

Comentários

  • Nelson

    lendo o seu mini conto

    eu relato que tinha uma namorada com a idade de 14 anos e ela 16 anos

    namoramos por tres meses, depois ela me deichou

    passaram quase 50 anos, numa tarde estava num consultorio medico e vi uma semhora que cujo os olhos emitiam um brilho muito forte

    o brilho igual no passado, perguntei voce se chama maria.

    ela respondeu sim, eu falei eu sou o davi que a 50 anos atras a gente namorou

    ela de mim não lembrou, mas eu lembrei dela

    lindo mini conto

    um abraço

  • Nobre poeta Nelson de Medeiros

    Que lembranças maravilhosas!

    Reportei-me ao passado onde fatos assim aconteciam nos cinemas da época.

    Essa geração não tem ideia do que andaram perdendo, era uma vida simples, mornas, mas que eram tão sentidas que ninguém esqueceria.

    Parabéns, obrigado por compartilhar essa beleza de texto.

    Feliz Natal e Ano Novo realmente novo.

    Abraços

This reply was deleted.
CPP