Novos Contos de Natal da Matilde – 2019
 
15 - Mistério de Natal
 
Matilde acorda com a felicidade ainda estampada no rosto, desce as escadas a correr, vai até junto do avô e diz-lhe:
- Bom dia avô, obrigado pela linda história que me contaste ontem à noite.
- Gostaste mesmo de verdade?
- Sim, hoje quero que me contes uma daquelas tuas histórias com moral no fim.
À noite, logo após o jantar, enquanto Bela lia junto à lareira, a pequenita aninhou-se no colo do avô e este não tardou.
 
Era uma vez uma mulher muito pobre, ela era tão pobre, tão pobre, que para poder dar de comer aos seus dois filhos, muitas das vezes ficava ela sem comer. Mas aquela mulher tinha tanto de pobreza como de alegria, é verdade, ela levava os seus dias a sorrir, nunca ninguém na aldeia a vira com uma cara triste e também nunca ninguém ouvira da sua boca qualquer lamento pela vida de pobreza que levava.
Um dia, o padre da aldeia resolveu investigar como é que era possível que alguém que nem tinha de comer, conseguia levar uma vida de resignação tão forte e com uma alegria que surpreendia a todos. Assim procurou uma forma de se cruzar com a mulher:
- Olha lá minha filha, está a aproximar-se o Natal e eu gostava de ter uma conversa contigo. Importas-te de ir comigo até à igreja?
- É claro que não me importo nada, Sr. prior. Só lhe peço que não me demore muito, tenho os miúdos sozinhos em casa.
- Podes ficar tranquila, será uma conversa rápida.
Caminharam, lado a lado, até à igreja e, uma vez aí entrados, disse-lhe o padre:
- Minha filha, não queres aproveitar para te confessares?
- Ora Sr. Prior, se eu me pusesse a confessar nunca mais saíamos daqui, tantas são as cabeçadas que tenho dado na vida.
- Qual quê minha filha, também não deves ter tantos pecados assim como isso, vejo-te sempre a sorrir.
O padre sabia como conduzir a conversa para o caminho que mais lhe convinha para atingir os seus objectivos.
- Então Sr. Prior, o que é que uma coisa tem a ver com a outra?
- Então minha filha, quem tem a consciência pesada de pecados não consegue levar uma vida tão risonha como tu levas, ainda por cima com todas as dificuldades com que vives, isso só pode ser conseguido com a ajuda de Deus.
O padre foi insistindo e o tempo foi passando, sem que qualquer um deles tivesse ao certo a noção de como este voava. Os filhos começaram a estranhar a demora da mãe e resolveram ir à sua procura, perguntaram a duas ou três pessoas da aldeia, mas ninguém vira a sua mãe, até que um velho homem lhes disse que a vira passar na companhia do padre. Resolveram ir até à igreja. Empurraram a porta devagarinho e foram entrando, deixaram os seus olhinhos habituarem-se à penumbra que se instalara no interior e percorreram-no com o olhar. Descortinaram a mãe junto ao confessionário e combinaram não a interromper, caminharam em bicos dos pés e aproximaram-se o mais que puderam:
- Mas então, se tu nem tens comida que chegue para ti e para os teus filhos, como é que consegues andar sempre a sorrir?
- É precisamente por não lhes poder dar a vida que eu tanto desejava dar-lhes, é que eu ando sempre a sorrir, pelo menos dou-lhes a minha felicidade. Quando me deito, a sós comigo, então sim, liberto toda a minha dor e todo o meu sofrimento.
Os filhos estão perplexos, então tudo o que a mãe lhes contava não passava de simples histórias que ela inventava para lhes fazer crer que havia comida com fartura para todos e que ela levava a vida com que sempre sonhara. Decidiram retirar-se.
A mãe assustou-se, quando se apercebeu do tempo que entretanto passar, pediu desculpas ao padre e correu para casa. Os filhos tinham decidido não lhe dizer nada.
Na manhã do dia seguinte, os garotos deixaram sair a mãe e resolveram pôr o seu plano em marcha, saíram de casa, correram e …
- … Mas o que é isto? O que significa tudo isto?
- Minha senhora, permita que me apresente, eu sou um homem muito rico, mas também um homem muito agradecido. Posso contar-lhe uma pequena história, real?
- Sim pode, é claro que pode, mas eu gostava que me explicasse o que é isto tudo.
- Quando ouvir a minha história, compreenderá.
A mulher sentou-se num dos bancos, quase a ameaçar partir-se, que existiam na sua humilde casa e ofereceu a cadeira melhor ao ilustre desconhecido, este sentou-se, cruzou as pernas, entrelaçou as mãos e começou:
- Há muitos anos atrás, numa noite de consoada, eu e a minha esposa tivemos uma terrível discussão por causa de ela ter gasto dinheiro numa prenda para oferecer ao filho de um empregado nosso, então a minha esposa resolveu ir para casa dos meus sogros, levou o nosso filho com ela enquanto eu fiquei em casa a deliciar-me com o banquete que ela preparara para nós. Estava uma tempestade terrível, mas eu só me preocupava com o dinheiro que ela gastara, nem me dei ao trabalho de a tentar convencer a ficar, foi só no dia seguinte, quando vi surgir o meu sogro que percebi toda a tragédia, a minha esposa e o meu filho não tinham chegado ao seu destino. Entrei em pânico, compreendi a gravidade dos meus actos. Procurei-os por todo o lado, mas nada, parecia que a terra os tinha engolido. Começava a perder a esperança de os encontrar com vida quando os vi aparecer à minha porta, vinham muito maltratados, minha esposa mal conseguia caminhar e o meu filho era transportado ao colo de um velho homem. Tinham sido atingidos por uma árvore que a tempestade derrubara, e fora aquele velho homem que, ao ouvir os seus gritos, os fora socorrer, lutou quase toda a noite para os retirar de debaixo da árvore, abdicando da sua própria noite de consoada junto da mulher e dos filhos. Jurei nesse mesmo dia que, todos os Natais, iria de aldeia em aldeia a oferecer um Natal melhor a quem precisasse, não queria mais saber de dinheiro.
- Sim, mas o que é que isso tem a ver com tudo isto?
- Hoje de manhã cheguei a esta aldeia e fui falar com o Sr. Prior, para ele me indicar quem mais precisava da minha ajuda, foi nessa altura os seus filhos apareceram na igreja, parece que iam falar com ele. Indicou-mos de imediato. Perguntei-lhes o que mais desejavam como prenda de Natal. Sabe qual foi a resposta deles?
- Não senhor.
- Que a melhor prenda era poderem realizar o sonho da mãe. Contaram-me a conversa que ouviram entre a senhora e o Sr. Prior. Compreende agora?
- Vocês ouviram a minha confissão?
- Sim mãe, ouvimos, mas…
O ilustre desconhecido olhou-os nos olhos e fez-lhe um sinal para que parassem.
Nessa noite, enquanto a mãe meditava em tudo o que se passava e se convencia, cada vez mais, de que reconhecera Jesus no rosto daquele homem, os filhos interrogavam-se um ao outro:
- Mano, como é que aquele homem adivinhou os nossos desejos? E como é que ele soube que nós ouvimos a confissão da mãe?
Nenhum dos dois conseguiu encontrar resposta para as suas dúvidas. Deitaram a cabeça sobre a almofada, aconchegaram a roupa e adormeceram.
 
Moral: “O coração das crianças é a maior fonte amor, por vezes os adultos é que a contaminam ”
 
 
Francis D’Homem Martinho
15/12/2019
 
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