O anoitecer, às margens do Rio Formoso

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O anoitecer, às margens do Rio Formoso

Anoiteceu.

O ar úmido se fazia ainda mais tépido com as chuvas de janeiro. No entanto, a brisa leve e discreta que balançava as folhas das bananeiras arrefecia o calor.

Estava no Coribe, no sudoeste da Bahia. Muito distante das praias litorâneas e dos agitos de seus universais turistas. Estava sim numa residência rural humilde, mas, por força do progresso, já contemplada pela luz da energia elétrica. No entanto, bastou-me sair porta afora e caminhar algumas dezenas de metros para defrontar-me com a escuridão. Porque dei as costas às tênues lâmpadas da casinha de blocos do Tonho da Bastiana.

Voltei-me primeiro a leste, perscrutando em minha imaginação o Velho Chico – talvez a uns 50 quilômetros de distância – largo, sinuoso, profundo e certamente silencioso ao fim da tarde, na altura de Bom Jesus da Lapa. Predominavam montes escarpados e íngremes, com a vegetação da caatinga baiana e, mais acima, platôs de pedra esbranquiçados com o clarão do luar.

Voltei-me ao sul e sabia que lá adiante se encontravam as Minas Gerais, o passaporte de travessia necessária dos meus antepassados que, fugindo às agruras do sertão das espinhentas palmas mirradas pela seca do Caculé e Lagoa Real, migravam em busca do Eldorado paulista, cruzando as serras e despenhadeiros desde Montes Claros e por todo o chão mineiro.

Suspirei, mas então voltei-me a oeste. Duas centenas de metros adiante do caminho de relvas, ornado pelas sensitivas pétalas da maria-fecha-a-porta, estava o Rio Formoso. De correntezas caudalosas, ruidoso e festivo, fustigando as pedras nas corredeiras e formando lagos onde se refletia toda a luminosidade da noite do oeste baiano. Arrepiei-me e ergui os olhos, instintivamente.

Ah, pensei, não existe céu tão estrelado quanto esse do sertão baiano. Os cientistas falam em números exorbitantes de constelações, estrelas, cometas, planetas, meteoros e corpos celestes sem fim, mas o que estava ali diante de mim, tão pertinho, parecia bem mais que isso. Nunca vi tanta estrela, algumas cintilantes, a disputar-me a preferência, outras discretas, distantes, misteriosas.

O clarão das galáxias se fazia tão acentuado que, vez ou outra, e certamente de forma inadvertida, fazia esconder-se, tímida e recatada, muita estrela desprevenida. Nesse misto de contemplação e enlevo, ouvi notas maviosas do canto de algum sabiá-laranjeira, possivelmente no alto de uma Barriguda, a mística paineira branca que sobressalta o matuto baiano. Devia estar, talvez, treinando o canto madrugador de atração de sua parceira.

Suspirei de novo. Lá adiante, fumando placidamente, estava o meu amigo Tonho da Bastiana, o dono desse pedacinho de terra, regado com águas do Formoso e cultivado com bananeiras, mamão e palmas - o sustento da família. O cigarro de palha incandescia, às suas tragadas. Senti inveja, ainda que sadia, desse meu amigo que não migrou para São Paulo e se tornou dono desse céu tão lindo e iluminado.

 

 

pedro avellar – junho de 2022

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Pedro Avellar

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Comentários

  • Gestores

    Muito bonito. De onde moro não vejo estrelas a não ser se subisse no telhado.

  • Belíssimo texto, Pedro!

    Parabéns.

    Abraços 

  • Gestores

    Que delícia de leitura! Fiz uma viagem a tempos tão distantes e saudosos de minha infância!

    Obrigada Pedro por esta oportunidade! Parabéns por teu belo texto!

    DESTACADO!

    • Muitíssimo obrigado, Angélica. Estive naquele lugar da Bahia duas vezes, a última há 20 anos. O "Tonho" que eu cito ainda mora no mesmo lugar, segundo me informou um amigo.

      Grande abraço!

  • Relato comovente. Parabéns pela expressão literária

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