O ÚLTIMO TOQUE
Não há mapa para o lugar onde te toquei pela última vez. Só a pele lembra, essa traidora geografia que insiste em não esquecer a latitude de tua mão sobre meu ombro, em pleno inverno de nós dois.
Guardo o silêncio como quem guarda água num copo rachado, não por utilidade, mas pela beleza do que não se derrama. Tu partiste e eu aprendi a habitar a casa vazia como quem habita um poema, palavra por palavra, ausência por ausência.
Dizem que o tempo cura. Mentira. O tempo apenas apodera os objetos: a xícara que tu seguraste, a porta que tu fechaste, o espelho que refletiu nosso riso e agora só reflete a parede.
Mas há uma geografia secreta que ninguém invade: o toque. Ele não morre. Dorme nos dedos como fogo adormecido, acorda à noite em forma de arrepio, de súbito calor no peito, de vontade absurda de estender a mão e encontrar nada. Só o ar. Só o ar que tu respiraste.
E é nesse nada que eu te encontro. Não como saudade, que é coisa pequena demais. Mas como território. Como nação sem fronteiras. Como a única revolução que ainda me resta: lembrar-te, inteira, quando o mundo inteiro me pede para esquecer.
Comentários
Notável inspiração. Aplausos
Nossa! Quanta beleza há em seus versos, Kleber. Parabéns!
DESTACADO
Uauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu, que lindeza!!
Sempre te aplaudo, Kleber
Meu abraço