Purê de batata

 A batata, coitada,
nasceu para a terra:
humilde, redonda,
um pensamento pálido
sem ambição de céu.
Mas eu,
que também nasci para alguma terra
e vivo perguntando demais,
decidi esmagá-la
ato grave, doméstico,
feito com garfo
e certa melancolia.
E ela cedeu.
Como cedem as horas,
os planos,
as frases que a gente não diz
por educação
ou por cansaço.
No prato,
vira nuvem de amido:
consolo branco,
silêncio com manteiga,
um afeto sem discurso.
Eu como
e finjo que é só almoço,
mas sei:
há uma filosofia inteira
nessa massa mansa
que não reage.
O mundo lá fora
ferve sua panela de ruídos.
Aqui dentro,
o purê esfria
com a paciência
de quem aprendeu
a não pedir explicação.
E no fim,
quando raspo o prato,
fica apenas
o brilho raso
da porcelana:
a prova de que o cotidiano
também devora a gente,
com garfo
e certa melancolia.

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