As cidades, essas senhoras cansadas,
vivem trocando de roupa no espelho do tempo.
O que ontem eram torres e altas sacadas,
hoje são apenas o lugar onde descansa o vento.
Dizem que são ruínas... Mas eu não creio.
Ruína é o coração que não sabe guardar um grão de luz.
O escombro é só o poema que parou pelo meio,
uma infância que de repente ficou adulta e nos conduz.
Nas frestas dos muros, a erva-doce insiste em nascer.
Onde houve teto, agora existe o céu inteiro.
É preciso uma certa arquitetura do esquecer
para que a alma possa morar no que é passageiro.
Não chores pelo que caiu, ó poeta de plantão!
Pois o que desmorona liberta o olhar do que era preso.
Ruína é apenas a casa abrindo a sua própria mão
para deixar o sol entrar sem pedir licença ou peso.
Kleber Luís Antônio Pinheiro
Comentários
Está aí um passeio que não curto muito, em ruínas, sei que tem todo peso histórico, mas me passa uma sensação deprimente. Vale sua inspiração. Abraços
Aplausos! Até ruina dá poesia! Adorei!