Tapera
J. A. Medeiros da Luz
Depauperada tapera, com a sua carnadura
Desfibrada por décadas tentaculares do passado,
Agora reverbera, estala, sob o sol a pino.
Tênues fitilhos de vento se entrelaçam
Com as gavinhas e inflorescências
De colônia de vistosas, ridentes trepadeiras
Que hoje lhe engrinaldam a pobre carcaça,
Agrisalhado fóssil mineral.
Quantas vidas, emoções, dramas terão visto,
Naqueloutras vetustas eras rutilantes,
Sua argamassa, seus tijolos, seu madeirame?!
Quando a molecada, no terreiro ao redor,
Delimitado por cercas de taboca seca,
Corria descalça e brincante e insciente do futuro;
Quando, às janelas, se debruçavam
Moças suspirosas com as faces
— Bochechas de chocolate e romã.
Mas nesta atmosfera, neste halo
Entremesclado de tempo e pó e nostalgia,
Flutua mesmo um quê do sortilégio
Surdido dos seres eternos,
Um quê daquela magia sutil dos lacrimais
A escorregar-se, a colear, por entre as rugas
Do terreno alcatifado de folhas úmidas de sombra!
E o transeunte, apurando ouvidos,
Por essas trilhas desfrequentadas há de ouvir,
No romper da alva, no lusco-fusco do finar do dia,
Uns risos amigos com proseio manso, um olor de café...
Provando cabalmente que a vida
Essa que já passou — Deus meu! — não passa.
Ouro Preto, 2025 – agosto, 20.
[© J. A. M. Luz]
Comentários
Belo poema caro amigo das letras. Sinta-se reverenciado. Abraços
Cara Lilian:
Obrigado pela visita e comentário. Apesar de meu Pégasus pessoal estar com asa deficitária de rêmiges e penugens, espinhela caída e ferraduras gastas, vez ou outra ainda arrisco um passeio etéreo pelos páramos da Poesia. Sem contar a barafunda dos afazeres — que, alías, tem me dificultado as visitas à nossa casa virtual.
Abraço; j. a.
Parabéns pelo seu texto! É belo com uma linguagem rebuscada! Adorei!
1Obrigado pelo comentário generoso, cara Editt.
Meu velho pai dizia, com um ar irônico e sem explicitar a fonte original, que tinha por certa aquela sentença implacável: "Cultura é tudo que nos fica depois que esquecemos tudo".
Com efeito, após escrevinhar esse poema de versos brancos e de pés quebrados, senti uma familiaridade mais que esperada com o tema. É mesmo verdade que , em minha infância no interior do Planalto Central, topei com muitas tigueras [tigüeras] vegetais, aqueles restos ressequidos de milharais, e, em analogia, tugúrios derruídos em fazendas velhuscas: as impressionantes taperas. Mesmo, hoje, no meu caminho diuturno do trabalho para casa, bordejando a Lagoa do Gambá, vejo uma ou outra ruína de habitações, recados semiocultos do Brasil Colônia.
Mas, ao reler o dito poema, aflorou-me à memória o texto, em prosa magistral, do gaúcho Alcides Maya, "Tapera", de 1911; já no prenúncio do modernismo (confrontem-se: Euclides da Cunha, Lobato, Hugo de Carvalho Ramos, Valdomiro Silveira, Coelho Neto...). No caso específico, um texto com aquela atmosfera nostálgica de tempos que não vivemos. Revi os dados e pinço aqui um dos parágrafos do A. Maya:
"Às vezes, a coloração de alguma aurora, quando o estio fulgura no firmamento ou a primavera esplende nos campos, ilumina os destroços mudos no longe indeciso dos panoramas amplos. E há como uma ressurreição: despertam legenda e sonho; tremulam de novo os palas no horizonte; condensam-se na espira eurrítimica dos fogões os vapores pampeanos; vai recomeçar a vida... // Brumas, brumas efêmeras, em combinações de íris, que se dissipam apenas o sol ascende esbraseado no espaço, impondo, na realidade do dia, a miséria da ruína..."
Por óbvio, é escusado repisar aquilo de que o texto literário tem a duplicidade do discurso denotativo e do discurso conotativo. Nossas experiências pessoais, sempre acabam, metáforas sub-reptícias, como sombras discretas do dizer. Junto com o motivo aparente do relato, sempre subjaz a extrapolação para o microcosmo: nossos velhos sonhos e anelos, não ditos — e, por vezes, nunca ditos —, são também arremedos de taperas, pousadas à margem do caminho.
Um abraço do J. A.
J.A. Me encantei com a leitura deste texto. Uma obra admirável!
DESTACADO
Parabéns e um abraço
Cara Márcia:
Sensibilizado me sinto por sua gentil cortesia do destaque a esse tonto carneiro desgarrado da grei, teimante em procurar umas touceirinhas de capim-meloso neste deserto superpovoado de nosso mundo presente.
Aceite um abração do J. A.
O tempo passa e tudo envelhece, a cidade, as pessoas....
E o tempo que passou, que não passa....como que enganasse a gente.
Sobra ainda pequenas ações ou costumes que se mantém, como passar um cafezinho cheio de odor a visitar os locais por perto.
Abraços fraternos prezado Poeta J A M da Luz por Belo Poema de muitas reflexões acerca da vida e do tempo que a consome.
Caro Antonio Domingos:
Muito agradecido pela visita ao (empoeirado) sotãozinho do Jota e pelo comentário pertinente, no aventar dos desdobramentos existenciais e de bem colocar o dilema do tempo, que vem verrumando o cérebro do ser humano há milênios.
Abraço do J. A.
Agradeço eu seu comentário neste precioso retorno para mim.
Sou de pouca cultura mas sou esforçado.
Abraços fraternos prezado Poeta e esteja bem sempre