Há um lugar onde o frio
não é ausência de calor,
mas silêncio levado
à sua última consequência.
Ali,
até a memória desaprende
o caminho de volta.
As pedras esquecem
que um dia foram montanhas.
Os rios deixam de sonhar
com a foz.
O vento passa
sem mover uma folha,
como quem respeita
o repouso das coisas
que já disseram tudo.
Procuro esse inverno
não para morrer,
mas para descobrir
o que permanece
quando o coração
abandona o excesso.
Talvez amar
seja isso:
reduzir o ruído da alma
até que reste
apenas o essencial.
E, no centro
desse frio impossível,
encontrar um pequeno clarão
que nenhuma geada alcança.
Porque o verdadeiro
zero absoluto
não congela a vida.
Congela apenas
tudo aquilo
que nunca foi amor.
Comentários
Que bonito, Poeta Kleber. Sou mesmo sua fã, não tem jeito.