Posts de FRANCISCO JOSÉ TÁVORA (89)

PARCIAL

 

Está sendo parcial

Quem  busca na poesia

Enlevar a sua alma

Fazendo a apologia

Apenas das  alegrias

Esquecendo os  desacertos

E  descaminhos da vida

 

Não custa nada lembrar

que uma boa poesia

pra ser bem elaborada

e muito bem acolhida

deve ter muita alegria

ou  tristeza  desmedida

 

O poeta se motiva

com ardor e euforia

Coragem e muita ousadia

Sentimento e emoção

Pois para um bom versejar

Não cabe acomodação

 

F J TÁVORA

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ALMAS UNIDAS

 

Estava  eu a procurar-te

nas trilhas de meu destino

Acabei por encontrar-te

nos sonhos de meus desatinos

 

Ao imaginar-me refém das lembranças

Abrigadas  em  sublime pensamento

Viajor de todos os sonhos

De todos os mares e continentes

 

A proclamar em melodioso canto

A presença  de tua distância

A buscar  com impávido destemor

      O caminho de um abrigo acolhedor      

 

 

A sugerir entregas, abandonos

Quem sabe, assim, os deuses permitam

que de nossos  corpos  nos apossemos

Vez que de nossas  almas donos já somos

 

F J TÁVORA

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QUISERA VIR A SER

 

Lúdico como uma criança

ao combinar bloquinhos coloridos

na edificação de sonhos, palácios e catedrais

 

Sublime como um artista

Ao associar cores e tintas

e criar lindas aquarelas

 

Meticuloso como uma artesã

a tricotar suas linhas coloridas

formando  belos bordados

 

Brilhante como um compositor

usando a  pauta e o pentagrama

Para escrever  lindas canções

 

Talentoso como um escultor

que cinzela  com maestria

figuras com beleza e ousadia

 

Perseverante como um professor

ao dedicar toda uma  vida

na educação da cidadania

 

Sincero como um poeta

Ao fingir mentiras

Nas verdades que revela

 

F  J TÁVORA

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A MUDINHA DO CINE DIOGUINHO

 

O destino não fora nada generoso com ela. Nasceu em uma família de agricultores pobres no sertão  do Ceará,  em fazenda distante da sede do município. Não dispunham de  energia elétrica, água encanada e esgoto em sua modesta morada com paredes de taipa e piso de barro batido.  Viviam praticamente isolados do mundo. Tanto ela como os irmãos não tinham acesso a qualquer tipo de educação. Seus pais eram analfabetos e esta sina continuaria com os filhos.   O pai era vaqueiro e encarregado de fazenda visitada poucas vezes ao ano pelo dono que residia na capital.

Foi trazida ao mundo, como seus irmãos, pelas mãos de  uma parteira, pois não havia nas cercanias hospital ou posto de saúde. Foi derradeira de uma dúzia de filhos que seus pais botaram no mundo, tendo sobrevivido apenas a metade. A outra metade findou-se pelo caminho, ainda crianças, vítimas de doenças endêmicas e desnutrição.

O seu futuro, como de resto o futuro dos irmãos, não era nada promissor. Os meninos cedo ajudariam o pai nas duras lides do campo. As meninas auxiliariam a mãe  nas tarefas domésticas. Se tivessem sorte poderiam ser aceitas na casa do patrão ou de seus familiares e amigos, na capital, para trabalhar como empregada doméstica. Esse foi o sonho acalentado pela mãe.  Para facilitar ofereceu a filha aos patrões como afilhada.

A jovem cresceu dentro da normalidade das crianças do sertão. Parecia ser uma garota normal, esperta, cumpridora de suas obrigações.  Mas, já passados quatro anos de seu nascimento, não emitia qualquer tipo de som. A mãe ficou preocupada, pois sua filha com a mudez dificilmente seria aceita  para trabalhar na casa da madrinha.

A família passou a chamá-la de Mudinha. Ela era capaz de ouvir e entender as pessoas. O problema residia  na impossibilidade de articular  e emitir qualquer tipo de som.

Quando já atingira a adolescência, em uma das vindas dos patrões à fazenda, a menina foi aceita na casa grande para  um teste, e ficou  patente sua utilidade. Ela era esperta e trabalhadora. Estava sempre de bom humor e disponível para as tarefas domésticas. Demonstrava ter boa índole.    

Diante de seu desempenho a madrinha resolveu levá-la para  uma temporada em sua casa na capital.

Mudinha adorou a  mudança de ares. Trabalhava muito. Era quase uma escrava. Acordava cedo e recolhia-se tarde.  Cumpria com abnegação todas as tarefas sempre sorridente.

A casa de seus patrões ficava próxima a uma grande praça onde funcionava um cinema de bairro denominado Cine Dioguinho. Era muito frequentado principalmente por jovens residentes   nas cercanias da praça.

Uma colega com o consentimento da madrinha, levou Mudinha para assistir um filme. A jovem, adentrada nos seus dezesseis anos, ficou deslumbrada com o que viu. Vivia muito solitária com sua labuta e seu silêncio. A madrinha não permitia saídas à noite pois temia que ela viesse a ser enganada e explorada devido à sua ingenuidade. Afinal não passava de um ser simplório não afeito  aos modernismos e espertezas das pessoas da capital.

Mudinha ficou contente e passou a frequentar o cinema com regularidade na companhia de sua amiga. Com o passar do tempo  a madrinha permitiu que ela frequentasse o cinema mesmo  desacompanhada.

Mudinha chegava cedo, bem antes das luzes serem apagadas  e sentava-se próxima à tela de projeção. Ficava fascinada principalmente com os filmes de romance e as comédias brasileiras muito populares na época.

Os frequentadores do cinema eram conhecidos pois em geral moravam no mesmo bairro. Havia certo preconceito com Mudinha por ser ela Muda e empregada doméstica. Assim, apesar de rodeada de pessoas ela  se sentia  isolada e solitária.

Certo dia, um rapaz sorrateiramente sentou ao seu lado depois que as luzes tinham apagado. Ao longo da  projeção  passou a explorar com suas mãos o corpo de Mudinha. Começou alisando suas coxas. Ela, surpresa, permitiu a ousadia. O jovem foi além e  colocou o braço sobre seus ombros para acariciar seus seios. Mais surpresa ficou a jovem, mas extasiada permitiu os carinhos do rapaz. Ficou estática, excitada. Os carinhos  continuaram até  pouco tempo antes do final do filme. O jovem, antes das luzes serem ligadas evadiu-se rapidamente do local. Afinal, era um jovem de "família" aproveitando-se de uma empregada doméstica e por cima muda.

Mudinha ficou impressionada com o ocorrido. Permaneceu durante toda a semana ansiosa para assistir o novo filme, na esperança de que seu admirador retornasse com os carinhos. Esperava no próximo encontro, quem sabe, uma declaração de amor do furtivo rapaz. Talvez um beijo revelador. Mudinha, na sua ingenuidade apaixonara-se.

O tempo passou rápido. Na semana seguinte, antes do início da sessão estava ela já sentada a postos. Como das outras vezes ninguém atreveu-se a sentar ao seu lado. Logo que as luzes  foram apagadas, não um mas dois jovens "de família",  ansiosos, ocuparam os assentos vazios que a ladeavam. Sem perda de  tempo cada  um cuidou de se apossar de seu butim. O da esquerda explorou os seios depois de libertar os botões da blusa, cárceres de sua cobiça. O da direita  levantou sua saia e fartou-se com denodo com as partes mais íntimas da jovem. Ela ficou surpresa, estática, apesar da tentativa dos jovens de  trazer suas mãos  para também participarem da festa. Ela negava-se a acariciar, em resposta, o sexo hirto dos seus algozes . Manteve os braços firmemente cruzados. Permaneceu durante todo o tempo em conduta passiva.

A notícia do comportamento da Mudinha espalhou-se rapidamente como fogo em palha. A partir daí ela sempre tinha  companhia  para explorar seus encantos secretos. Havia uma disputa entre eles pelo corpo da jovem.  Ficavam de prontidão, como se na largada de uma corrida  aguardando o apagar das luzes na tentativa de ocupação dos dois assentos sempre vazios que a ladeavam.

O comportamento dos rapazes revelava a face cruel da hipocrisia humana. Por serem "de família",  não queriam mostrar suas faces até que as luzes fossem apagadas e o escuro escondesse do público a volúpia de seus vis desejos.

Havia na turma um magricela viciado no onanismo que  usava com frequência a imagem da  Muda  em suas fantasias solitárias. Ansiava em fartar-se não em fantasias virtuais como já fazia mas ao vivo como seus colegas  sortudos. Por diversas vezes  tinha  tentado, debalde, sentar ao lado da Muda. Apesar dos insucessos persistiu tentando. Por diversas vezes perdera por pouco para colegas mais rápidos e afoitos. Finalmente seu dia chegou. Fora bafejado pela sorte e conseguiu sentar-se ao lado da Muda. Sem perda de tempo ele introduziu a mão sob a saia de sua presa e partiu  célere na direção da confluência das coxas. Para surpresa sua, mudinha rapidamente segurou seu punho e com firmeza  o afastou de seu corpo.  O jovem, indignado com a atitude da Muda retornou com mais vigor e novamente invadiu sua intimidade. Mais uma vez  Mudinha rechaçou o atrevimento removendo com mais firmeza a  inoportuna mão de seu insólito  agressor. Revoltado e quase em desespero, sem entender  as razões do comportamento inesperado da Muda e também sem querer aceitar passivamente sua recusa, o rapaz fez mais uma desesperada incursão. Diante de tamanha insistência a Muda crispou o braço do magricela com  determinação e firmeza afastando-o de seu corpo. Em seguida, de inopino, apesar de muda, emitiu  um som tão alto, tenebroso e estridente, do tipo AAAHH UUGGH HHHAAA AUUUU, que afugentou o agressor com a rapidez de um raio para não  ser  flagrado  com a interrupção da  projeção.

O jovem magricela não bem entendeu o motivo da  indignação da  Mudinha ao seu assédio. Afinal, ela nunca tinha negado antes o seu corpo às incursões libidinosas de todos os colegas que o haviam antecedido. Não imaginava ele que por decisão unilateral da Muda a farra tinha chegado ao fim. Seu novo comportamento resultara de profunda catarse. Passadas várias semanas após o primeiro assédio, Mudinha, na solidão de sua tipoia, antes da chegada do sono reparador das canseiras do trabalho, refletiu sobre os últimos acontecimentos de sua vida. Ao sonhar com suas primeiras experiências amorosas, ela imaginara tudo muito diferente. Se os entreveros ocorridos no escurinho do cinema satisfaziam as urgências de seu corpo, sua alma naufragava no sofrimento e na desilusão. Seria ela diferente? Não seria a ela permitido sonhar com um amor sincero e exclusivo que poderia ser desfrutado às claras e não apenas na escuridão de uma sala de cinema? Sentia-se abusada por um grupelho de  jovens pretensiosos que por serem "de família" entendiam poder tirar proveito de seu corpo, sem se preocupar com seus sentimentos.

Depois de muito refletir, desiludida, decidiu encerrar os encontros  promíscuos com os jovens sem face. Decidira que seu corpo não mais estaria disponível à exploração  hipócrita dos jovens "de família" do bairro.  Magricela fora o primeiro a receber o recado e perceber a mudança.

F J TÁVORA

 

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LAMBUZADO

 

Depois de tanto lambuzado

loucura e muito prazer

o amor que não havia

pode até aparecer

E depois que ele chegar

o esfregado e a loucura

continuam até esgotar

as forças da natureza

de uma jovem  a se entreter

Tendo o corpo como cálice

pra meus fluidos receber

 

F J TÁVORA

 

 

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FINDADO AMOR?

 

Lamento imaginares

que nosso amor terminou

como um fugaz pensamento

que num átimo o tempo levou

 

Quem sabe não está ele

Ausente mas renitente

Náufrago das saudades

em um coração ainda candente

 

Apenas seguiu a sina

Do implacável destino

Que decidiu nos separar

E aumentar meu desatino

 

F J TÁVORA

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PARADOXO

 

 

 

Privado da visão

Encarcerado em  uma vida sem luz

Ele pode ver mais do mundo

Que um outro com vista perfeita

 

É que apesar da deficiência

Ele vê com os olhos da alma

E viaja através das imagens que cria

 

O outro, embora sem restrições

Pode estar refém da rotina e da monotonia

De uma vida sem perspectiva, vazia

 

O primeiro embora não possa ver

Idealiza as belas imagens que concebe

O outro, embora possa ver

Não percebe as lindas imagens que vê

 

E a vida prossegue

Com mais um de seus paradoxos

Enquanto um enxerga o que não pode ver

O outro é incapaz de enxergar o que vê

 

F J TÁVORA

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VELHO TAMARINDO

 

Ao passar ao largo da antiga escola

Diviso a silhueta da centenária árvore

A abrigar em sua frondosa copa

Os sonhos dos jovens de hoje

Como  fizera com os de outrora

Nos   anos de minha mocidade

 

Sobrevivente de um passado  distante

Imerso no território enevoado da velhice

Lembranças acordam em minha mente

Repasso   desejos, esperanças, sonhos

Alguns realizados, outros nem tanto

Qual miragens desbotadas

Pelo perverso algoz chamado  tempo

 

A velha árvore acende-me a saudade

Faz-me retornar ao princípio

onde tudo era presente

e o tempo  não havia  ainda  envelhecido

Faz-me lembrar das juras e promessas

feitas sob o abrigo de sua protetora sombra

ao som do farfalhar de sua acolhedora  copa

 

F J TÁVORA

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CINQUENTA CRUZEIROS DE PENTE

 

Era manhã de sábado e Almir, como era costume seu, dirigiu-se ao centro da cidade com o objetivo de adquirir na banca do Neco o bilhete da Loteria do Estado que deveria correr ao final do dia. Acalentava o sonho de oferecer mais conforto a sua família com o prêmio que imaginava ganhar. O apertado salário de servidor público estadual  de nível médio, era suficiente apenas para as necessidades  essenciais da família constituída de oito filhos todos menores com diferenças de idade de um  a dois anos. Uma verdadeira escadinha de oito degraus. A compra religiosa do bilhete da loteria semanalmente era , com exceção do cigarro, seu único vício. Depositava muita esperança em solver seus problemas materiais mais urgentes com o bilhete semanal e a ajuda de seu Deus e seus  Santos onde buscava amparo através da debulha diária de seu terço e de suas  rezas.

No retorno à  casa depois da aquisição de mais um bilhete, lembrou que necessitava comprar um pente, pois havia perdido o seu. Era comum naquele tempo os homens conduzirem no bolso do paletó ou da camisa um pente para manter o cabelo alinhado e bem penteado. O pente como o lenço eram itens sempre presentes, fazendo parte obrigatória da indumentária de jovens ou adultos, independentemente de classe social.

Almir procurou um ambulante dentre vários que faziam ponto nas ruas do centro da cidade. Facilmente localizou um garoto na calçada fronteiriça a tradicional  Farmácia Osvaldo Cruz, com uma pequena caixa repleta de pentes para venda. Era mais um dos inúmeros  jovens menores de idade que buscavam com trabalho honesto um complemento  financeiro para a família.

O jovem  ambulante cobrava um cruzeiro por unidade. Almir pretendia adquirir apenas um pente, porém não dispunha de dinheiro trocado. Com uma cédula de cinquenta cruzeiros na mão indagou se o garoto dispunha de troco para a compra de uma única unidade. O  vendedor pensou um pouco e depois pediu que Almir ficasse segurando a caixa com seus produtos como garantia enquanto ele iria trocar o dinheiro.  Seria rápido, assegurou. Almir concordou e quedou-se próximo ao balcão da farmácia, onde depositou a caixa com os pentes e passou tranquilamente a ler seu jornal,  esperando o retorno do ambulante. Após longa espera Almir, já impaciente e visivelmente preocupado, colocou o   balconista da farmácia a par do ocorrido e indagou  se ele  conhecia o  jovem vendedor de pentes que estava demorando muito a retornar. O balconista falou que  o conhecia apenas de vista pois ele fazia ponto em frente ao estabelecimento farmacêutico.  Depois de matutar por alguns segundos sugeriu que Almir contasse o número de pentes presentes na pequena caixa deixada como garantia. Para surpresa de ambos, verificaram que havia  exatos cinquenta pentes que a um cruzeiro cada totalizariam cinquenta cruzeiros, o valor da cédula que o garoto levara para trocar. O balconista, com um olhar maroto mas sem expressar externamente um riso de mofa na face em respeito ao ingênuo interlocutor,  foi peremptório e solene  ao afirmar: "espero  estar enganado mas penso que o senhor acaba de realizar uma compra de cinquenta pentes".  Sem esperança de voltar a ver tão cedo o pequeno ambulante, Almir sentiu-se ludibriado mas não totalmente roubado, pois tinha em mão  exatos cinquenta pentes.  Fora apenas vítima de uma compra forçada fruto da esperteza do pequeno marreteiro. Não guardou rancor, ao contrário, ao chegar em casa relatou o fato às gargalhadas  elogiando a esperteza do garoto que a continuar nesse diapasão deveria  transformar-se em excelente comerciante ou, quem sabe, em sagaz político. Houve uma farta distribuição de pentes para familiares  e amigos que riam a valer ao tomar conhecimento da inusitada história.

 

F J TÁVORA

 

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DESVARIO

 

 

Um forte sentimento se apossou de mim

Uma angústia

Uma sensação de ausência

A percepção de um vazio

 

Procurei abstrair-me de tudo que me cerca

Situar-me no limiar do mundo

No limiar do tempo

Será que tempo tem começo ou fim?

E o mundo tem fim ou começo?

 

Agora  melhor entendo o desespero...

dos que antecipam o próprio fim

É que já perderam tudo,

a esperança, os sonhos, a alma

 

Gostaria de isolar-me de tudo e de todos

Padecer de um sono eterno

Embriagar-me e ficar entorpecido

Fugir da realidade

Ficar só, extinguir-me.

 

Mas, já não é mais preciso

Sinto-me mais só

Que toda a solidão do mundo

 

F J TÁVORA

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AMANTES

Ainda em minha mente

O perfeito encaixe dos corpos

Em completa união

Com movimentos ritmados

Cadenciados à exaustão

 

O suave roçar das peles

O partilhar das volúpias

Os espasmos e requebros

O multiplicar das carícias

A consumação das delícias

 

Os silêncios entrecortados

Por gemidos descontrolados

Revelando desejo, lascívia

De corpos tresloucados

Em esplendorosa harmonia

 

O enlace de pernas e braços

O sugar de bocas e lábios

O sorver dos humores que brotam

Na consumação dos orgasmos

A mitigar a sede dos corpos

 

O suor brilhante na pele

Os corpos exangues largados

A confiança no amor conquistado

As juras sem fim sussurradas

O prazer dos desejos gozados

F J TÁVORA

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EDITH

 

                     Faz parte da história, de todos bem conhecida, a saga dos nordestinos na conquista do Norte do país. Os cearenses, em especial, tiveram grande participação na ocupação da Amazônia. O povoamento ocorreu rotineiramente com fluxos regulares de migrantes ao longo do final do século dezenove e princípios  do século vinte. A migração era intensificada em períodos de seca aguda no Nordeste brasileiro. A família de meu pai, com origem em Jaguaribe, com fortes raízes telúricas, teve vários de seus membros envolvidos nesta epopeia.

                Monsenhor Fernandes Távora, padre culto, erudito, com doutorado em Teologia em Roma, figura de grande relevo na política cearense do século dezenove, terminou seus derradeiros anos de vida franciscanamente, como missionário subindo e descendo os cursos d´água tributários do grande rio, casando, batizando, confessando, enfim levando o conforto espiritual e religioso às populações ribeirinhas daquele imenso rincão, esquecido e abandonado, de nossa pátria. Meu avô paterno, ainda solteiro, serviu como  sacristão por um longo período ao lado do monsenhor, seu parente e tio de sua futura esposa, minha avó.

                 A principal atividade lá desenvolvida consistia no sangramento de majestosas seringueiras que forneciam seu precioso látex para o enriquecimento de ambiciosos empresários.

                Naqueles rincões inóspitos da Amazônia as populações recém chegadas estavam sujeitas ao sombrio designo da morte na forma de doenças comuns à região, com a malária e a hanseníase (à época denominada lepra) sendo as mais importantes, pelo grande número de vidas  ceifadas. Muitos cearenses ao retornarem, depois de longa temporada sem sucesso, aqui chegavam já infectados de doenças  endêmicas à região, embora os sintomas só viessem a se manifestar tempos depois.

                A irmã de meu pai,  Edith,  casou-se  com um conterrâneo que antes do consórcio tentara, debalde, a sorte no norte do país. O casal teve quatro filhos  todos do sexo masculino.

                Devido às dificuldades que o meio hostil impunha e à falta de perspectivas  daqueles que ganhavam a vida laborando a terra, seu marido buscou ajuda de meu pai para obter trabalho na capital. Veio morar em nossa casa enquanto arrumava emprego e condições para trazer mulher e filhos que ficaram aos cuidados de meu avô em Jaguaribe. Nesta época éramos nascidos  eu, ainda criança de colo, e meu irmão mais velho com pouco mais de ano de vida.

                Seu marido tinha uma ferida no tornozelo que nunca cicatrizava apesar dos ingentes cuidados de minha mãe, que fazia, pacientemente, as vezes de enfermeira no cuidar de sua enfermidade. Com o tempo mamãe desconfiou que o problema fosse mais sério, pois a lesão era indolor. Mamãe manipulava a ferida e ele estranhamente não reclamava qualquer tipo de dor ou desconforto. Papai ficou muito preocupado com a possibilidade de hanseníase. Se fossem verdadeiras suas suposições estaríamos todos correndo sérios riscos de contrair a doença. Principalmente minha mãe que cuidava do paciente sem preocupações maiores com assepsia e eu e meu irmão que costumávamos nos  enroscar nas pernas, braços e colo de seu cunhado.

                A doença era muito estigmatizada naquela época, tendo as pessoas o hábito de omitir ou mesmo esconder do público os parentes enfermos para evitar discriminação. Os doentes quando diagnosticados tinham que ser recolhidos a hospitais específicos (leprosários) onde ficavam isolados para cumprir longos e por vezes ineficazes períodos de tratamento.

                Papai pediu a ajuda de um médico seu amigo que discretamente nos visitou em nossa casa e com uma simples e rápida vista d'olhos facilmente diagnosticou a doença já em estádio avançado.

                Seu marido foi internado no  Leprosário, em Fortaleza, e lá permaneceu por longo período sem obter cura até seu falecimento.

                Contraíram a doença e apresentaram os sintomas  característicos primeiro seu filho mais velho e depois o segundo. Os outros dois não adquiriram a doença. Os filhos infectados foram internados no mesmo hospital, mas tiveram mais sorte que o pai,  pois depois de alguns anos de internamento ficaram curados definitivamente da terrível doença.

                Meu primo mais velho deu a meu pai muita preocupação, pois sempre que tinha uma folga do hospital telefonava solicitando dinheiro para se divertir nos lupanares da cidade. Meu pai evitava recebê-lo em seu local de trabalho. Temia vir a ter sua condição se saúde  descoberta e em consequência  sofrer alguma  discriminação. Combinava um local público, geralmente na praça do Ferreira situada no centro da cidade.

                Em alguns momentos, no final de semana, ele se dirigia ousadamente à nossa casa. Quando isso acontecia era reservadamente recebido apenas por papai e sua presença era restrita à sala de visita. Éramos, os filhos, terminantemente proibidos de aparecer na sala. 

                Fico a imaginar quantas prostitutas não vieram a ser contaminadas diretamente e quantos "clientes"  teriam posteriormente contraído a doença pela ação irresponsável e egoísta de meu primo.   Durante muito tempo sua figura ameaçadora  pairou sobre nossa família como uma espada de Dâmocles. Hoje vejo o quadro com um olhar diferente. Meu primo fora mais vítima que algoz. Era apenas um jovem recém saído da adolescência, extraído do seio de sua família e encarcerado num local hostil e sem um mínimo de afeto humano. Até os parentes mais próximos, no caso minha família,  o evitavam. Não deve ter sido fácil para ele e também  para  o irmão.

                Minha tia Edith não contraiu a doença. Era uma mulher de espírito forte, inquebrantável. Cedo resignara-se com as vicissitudes e revezes que o destino lhe reservara.

                Passou a vida esperando como a maioria das mulheres do seu tempo. Primeiro o noivo que viajara para o "inferno verde"  com promessa de voltar para levá-la consigo. Esperou uma segunda vez quando, já casados,  ele a deixou com os filhos e partiu em busca de dias melhores na capital. Na partida deve ter feito mil promessas de retornar já bem de vida para buscá-la. Mais uma vez seus sonhos foram frustrados.

                Acompanhou, à distância, a desdita do marido, seu  internamento  compulsório por atroz desígnio do destino. Findou, imagino,  por sentir-se aliviada, apesar da perda, quando  a vida do seu marido, desde sempre um eterno pesadelo, chegara ao final como uma dádiva, uma  libertação. Continuou esperando, desta vez pela cura e liberdade dos filhos, também vítimas, também condenados  pelo mesmo impiedoso e implacável destino.

                Os filhos, depois da cura, evadiram-se da terra natal.  Escolheram, na tentativa de obtenção de dias melhores, não o Norte como  o pai uma vez tentara, sem sucesso,  mas o Sul, novo eldorado dos desvalidos nordestinos. Não para o inferno verde opressor da Amazônia, mas para a selva de pedra intimidadora da pauliceia.

                Com o tempo e as decepções cansou de esperar. Resignou-se e passou a viver sua solidão,  a guardar o nada, pois foi o nada que o destino lhe reservou. 

                Durante um bom tempo ficou viúva de marido vivo.  Depois de sua  morte, ainda jovem,  permaneceu viúva por quase toda a vida. Já idosa, decidiu  casar com uma pessoa humilde que lhe fazia companhia e ajudava na faina diária de sua roça e de seus bichos.  Davam-se um ao outro tratamentos formais de DONA EDITH e MEU SENHOR. Os familiares ficaram "escandalizados" com sua atitude. Como pode uma "velha", já quase sem idade, viúva de muitos anos, decidir casar e por cima com uma pessoa simplória, inexpressiva, um seu serviçal?  Meu pai  tomou partido da irmã mais velha, argumentando ter ela todo o direito de buscar um pouco de lenitivo e apoio no companheiro escolhido para dividir seus derradeiros dias.

                Terminou sua vida só, embora na companhia do novo marido, perto de sua roça e de seus bichos.

F J TÁVORA

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LOIRINHA

Cabelos loiros rebeldes ao vento

Esvoaçantes em desalinho constante

Olhar distante, desafiante

Mui confiante em venturoso porvir

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Fiel às suas raízes telúricas

A observar com singular devoção

Na sinfonia da mãe natureza

Os sons rompendo o silêncio no campo

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No chilrear de pássaros formosos

No zumbir de abelhas operosas

No cantar de cigarras preguiçosas

No coaxar de batráquios feiosos

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A caminhar saltitante nas campinas floridas

A se banhar no açude das chuvas caídas

A desafiar a força das águas na bica

A passear na alameda dos bambus majestosos

A descansar na sombra dos bosques frondosos

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A conquistar o coração do avô enternecido

Com a alma alegre e o corpo sofrido

Feliz com a presença da neta querida

F.J.TÁVORA

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IMAGENS

 

Imagens

Exóticas

Lascivas

Devassas

Eróticas

 

Imagens

Candentes

Renitentes

Constantes

Persistentes

 

Imagens

amorosas

prazerosas

virtuosas

venturosas

 

Sagrada e profana

Singular e plural

Tangível e etérea

Efêmera e duradoura

Infinita, infinita...

 F J TÁVORA

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SUSSURRO DOS DEUSES

O que é a morte

Senão a ausência

De lembranças

De saudades

De esperanças

De vontades

 

De riso

De choro

De alegria

De tristeza

De movimentos

De sentimentos

 

É a quietude

A escuridão

O vazio

O fim

O nada

Pois nada é o que resta

Quando a chama apaga

 

O que é a vida

Senão o acaso

Do azar ou da sorte

Um fugaz momento

Um átimo

Um breve sussurro dos deuses

Entre dois inescrutáveis silêncios

Silêncio do que não terá sido antes

Silêncio do que não virá a ser depois

F J TÁVORA

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RETORNO

Hoje fiquei solertemente Dando mil voltas no pensamento A tua ausência se fez presença Mais machucando meus sentimentos Fiel ao amor jurei ser sempre Apesar do teu alheamento Quem sabe um dia pra sorte minha
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O EXEMPLO DAS ESTRELAS

Antes dos amores

Lembrados e esquecidos

Guardados e perdidos

Nascidos e morridos

Ao longo dos caminhos da vida

Havia estrelas no céu

E depois que eles passarem

Elas lá continuarão a brilhar

 

Mas a exemplo das estrelas

Há amores que nunca passam

Antes se tornam perenes

A alimentar as saudades

Acendendo as lembranças

Na alma dos amantes

De uma paixão que findou

Mas que o tempo não apagou

 

A perda de grandes amores

Fortaleceu o teu talento

E passou a alimentar

No teu mundo encantado

Repleto de nostalgia

O coração das pessoas

Que esquecem a dor na magia

De tuas lindas poesias

F J TÁVORA

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INVENCIONICE

 

Acordei mais nostálgico que o usual

Recordei minha infância, pedaços dela

Lembrei como lamentava a sorte das galinhas no quintal

Que coisa mais tola, ter pena de galinha, que já tem muita pena

Este sentimento era aumentado em datas especiais

Véspera de natal, carnaval, sete de setembro

Ia ao quintal  e via as galinhas indiferentes ao que ocorria no mundo

 fora do seu mundo

Pensei: como é ruim ser galinha

Não veste roupa nova, não ganha presente, não vai a festa, não....

Hoje penso diferente

Não é de todo ruim ser galinha ou qualquer outro animal

Há algumas vantagens, até

Não têm sentimento

Assim, estão imunes aos sofrimentos da alma

Não sentem falta de alguém que gostariam próximo

Não ficam triste

Não têm preocupações

Não têm obrigações a não ser aquelas já demarcadas no genoma

Que as orientam na sobrevivência e reprodução

 

Amanheci com inveja dos bichos

Que não pensam

Que não sentem

Que não sofrem

Não gostaria de ser uma galinha

Talvez um bicho mais garboso

Com certeza do sexo masculino

Já que estou satisfeito com minha sexualidade

 

Tentei, debalde,  imaginar-me um animal insensível

Tentei despojar-me de qualquer sentimento

Do amor ao ódio

Mas eles estão impregnados em mim

Não se livra deles facilmente

Esta é a carga que tenho que carregar

O meu calvário

O preço que pago por minha existência

F.J.TÁVORA

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GOTA DE ORVALHO

Uma gota de orvalho

Balouça frágil, insegura

Sobre a pétala de uma  flor

Oscila mas tenta manter-se

Em instável equilíbrio

Pra permanecer altaneira

Dançando com muita graça

Qual bailarina charmosa

Resiste por algum tempo

Mas depois de luta ingente

Despenca para o vazio

Desfaz-se em mil fragmentos

Findando seu existir

Como se sido tivesse

Imolada a um deus pagão

Ávido por seu sacrifício

A espalhar sua fragrância

A espargir o seu frescor

Qual lágrima de jovem donzela

Abandonada na flor da idade

Por seu primeiro e único amor

F J TÁVORA

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SEM JUÍZO

Sensata paixão?

Como pode?

A minha é toda ousadia

Desatino, loucura, emoção

Na cama, no bosque, na praia

No barco, no trem, no avião

No banco do carro

andando na contra mão

Na  cozinha e no saguão

No elevador,  na escada

Deslizando no  corrimão

Com ela sou todo tesão

F.J.TÁVORA

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CPP