Posts de FRANCISCO JOSÉ TÁVORA (72)

INVENCIONICE

 

Acordei mais nostálgico que o usual

Recordei minha infância, pedaços dela

Lembrei como lamentava a sorte das galinhas no quintal

Que coisa mais tola, ter pena de galinha, que já tem muita pena

Este sentimento era aumentado em datas especiais

Véspera de natal, carnaval, sete de setembro

Ia ao quintal  e via as galinhas indiferentes ao que ocorria no mundo

 fora do seu mundo

Pensei: como é ruim ser galinha

Não veste roupa nova, não ganha presente, não vai a festa, não....

Hoje penso diferente

Não é de todo ruim ser galinha ou qualquer outro animal

Há algumas vantagens, até

Não têm sentimento

Assim, estão imunes aos sofrimentos da alma

Não sentem falta de alguém que gostariam próximo

Não ficam triste

Não têm preocupações

Não têm obrigações a não ser aquelas já demarcadas no genoma

Que as orientam na sobrevivência e reprodução

 

Amanheci com inveja dos bichos

Que não pensam

Que não sentem

Que não sofrem

Não gostaria de ser uma galinha

Talvez um bicho mais garboso

Com certeza do sexo masculino

Já que estou satisfeito com minha sexualidade

 

Tentei, debalde,  imaginar-me um animal insensível

Tentei despojar-me de qualquer sentimento

Do amor ao ódio

Mas eles estão impregnados em mim

Não se livra deles facilmente

Esta é a carga que tenho que carregar

O meu calvário

O preço que pago por minha existência

F.J.TÁVORA

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GOTA DE ORVALHO

Uma gota de orvalho

Balouça frágil, insegura

Sobre a pétala de uma  flor

Oscila mas tenta manter-se

Em instável equilíbrio

Pra permanecer altaneira

Dançando com muita graça

Qual bailarina charmosa

Resiste por algum tempo

Mas depois de luta ingente

Despenca para o vazio

Desfaz-se em mil fragmentos

Findando seu existir

Como se sido tivesse

Imolada a um deus pagão

Ávido por seu sacrifício

A espalhar sua fragrância

A espargir o seu frescor

Qual lágrima de jovem donzela

Abandonada na flor da idade

Por seu primeiro e único amor

F J TÁVORA

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SEM JUÍZO

Sensata paixão?

Como pode?

A minha é toda ousadia

Desatino, loucura, emoção

Na cama, no bosque, na praia

No barco, no trem, no avião

No banco do carro

andando na contra mão

Na  cozinha e no saguão

No elevador,  na escada

Deslizando no  corrimão

Com ela sou todo tesão

F.J.TÁVORA

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NÚMERO DOZE

Seja noite, seja dia

Seja começo ou fim

O número doze é cabalístico

Não se livra dele assim

 

Doze são:

os Césares romanos

as tribos de Israel

os filhos de Abraão

os deuses do Olimpo

os signos do Zodíaco

os apóstolos de Cristo

os meses do ano

 

Também doze são

As badaladas do relógio

A nos alertar do tempo

De um mundo sem portão

Sem ordem, sem direção

Que teima em pregar peças

Não poupa criança ou ancião

 

O som revela preciso

Nossa angústia, escravidão

Pois o tempo é nosso algoz

Vindita dos deuses malditos

Pra castigar a ousadia

Da nossa rebelião

Ao não mais querer ser seu súdito

Mas amigo,  filho  e  irmão

 

O que revelam  as badaladas?

Seja dia, seja noite

Não importa as circunstâncias

Seremos vítimas do tempo

Escravos de seu compasso

A dirigir nossas vidas

A regular nossos passos

 

Mas, nem tudo está perdido

Haverá de sobrar  tempo

Para fugir do torpe cárcere

E grande  amor desfrutar

Sem restrições, sem limites

Desafiando os deuses

Fazendo o tempo  parar

F.J.TÁVORA

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TOQUE

Preliminares de mútua entrega

de corpos, almas, vontades e desejos

Tudo bem  começa com ternura e meiguice

Evolui célere até atingir a explosão do desatino

Ao final, um lindo testemunho do casal saciado

Não  sabem  onde começam e terminam

seus corpos e suas almas

fundidos no infinito imensurável de suas paixões

A lua, companheira dos amantes notívagos

desnuda a noite com sua luz prateada

para permitir que eles, exangues

possam ainda  continuar se amando,

com o carinho do toque de seus olhares

F.J.TÁVORA

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Velhos sem saída

 

A vida é assim, cruel, mas temos que nos habituar a ela.

No início, quando chegamos a este mundo imprevisível, inescrutável,  nos primeiros passos,  temos uma plenitude  de ganhos. Ganhamos  de pronto,  avós, pais, irmãos,  tios e primos.

 A seguir vêm os  colegas, amigos e por aí vai.  Assim, seguimos num crescendo continuado até atingir o apogeu na meia idade quando o ciclo se renova e já temos uma nova família constituída.

Ao avançar na estrada da vida começamos a  contabilizar  perdas. Os avós, geralmente os primeiros, depois os pais, tios e por fim os contemporâneos de nossa idade próxima. O pior às vezes acontece quando a ordem é invertida e dolorosamente os filhos nos deixam precocemente. O que fazer quando isso acontece? Resignar-se e seguir a vida, com a pressa habitual da velhice, valorizando o restante do tempo que o destino  determinou.

No outono de nossas vidas não é tão fácil recordar apenas os bons momentos. O grande problema são as perdas acumuladas que são irrecuperáveis. Como o futuro pouco lhes promete, os velhos muito se apegam ao presente, pois este representa tudo que lhes sobra da  existência percorrida.

 Para o pessimista, o passado apenas o atormenta. De um lado pela sensação de perda das boas coisas acontecidas. De outro, dos fracassos acumulados que tanto sofrimento causaram. 

Para o otimista, ao contrário, o passado pode ser usado a seu favor. Os ganhos se transformam em  saudade e as decepções e frustrações  em   esquecimento.

F.J.TÁVORA

 

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PECAR

Pecar não é boa coisa

Pregam  as religiões

Acho que elas estão certas

Quem sou eu pra dizer não

 

Quando caio em tentação

Procuro me controlar

Nem sempre tenho sucesso

Fico com muito pesar

 

Passo a ser um fingidor

Jurando não mais pecar

Sabendo não ser verdade

O que acabei de jurar

 

Das coisas boas da vida

A  melhor mesmo é pecar

Com mulher desassombrada

Ávida por namorar

 

Dá amor durante o dia

Dá amor de madrugada

Na ausência do namorado

Até pro vizinho ela  dá

 

 Pecar com mulher de outro

Que só pensa em fornicar

E na hora da escapada

não para de rebolar

 

Tem as que alugam o corpo

Querem mesmo é faturar

Não veem nisso pecado

Adoram negociar

 

Não tem idade concreta

Pra começar a namorar

Donzela ou mulher madura

O que importa é querer dar

 

Pecadores renitentes

Libertinos empedernidos

Pra eles todos os pecados

São muito bem acolhidos

 

Não tenho medo de inferno

Sou um cara destemido

acho que os meus pecados

Já nasceram absolvidos

 

Termino esses singelos versos

Sem medo de revelar

Circunspecto e mui solene

Quem pensa que eu não vou pecar?

F.J.TÁVORA

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AQUELA MENINA

 

Era o tempo distante

A paisagem diferente

Do  torrão onde nasceu

Era quase um ser errante

 

Enfrentando luta ingente

Distante de sua gente

Dos amigos e parentes

Sentia-se muito carente

 

A mente cheia de sonhos

Buscando novos momentos

Mas a alma em desamparo

A alimentar seu lamento

 

Eis que surge em sua vida

Pra calar todo o seu pranto

Com olhos verdes brilhantes

muita meiguice e encanto

 

Mulher ainda menina

Vitimou-lhe com seus caprichos

Num jogo dissimulado

Nas teias de seu feitiço

 

Hoje ainda paira dúvida

Sobre aquela ocasião

Se o acaso do destino

Ou feliz condenação

 

Se sortilégio de um mago

Que acendeu sua paixão

Só tinha a agradecer

Com grande sofreguidão

 

Sem forças pra resistir

Tamanha obstinação

Rendeu-se àquela menina

Em passiva escravidão

 

F.J.TÁVORA

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BASTANTE

 

Quis ser

soldado mas não era corajoso o bastante

agricultor mas não era perseverante o bastante

professor mas não era altruísta o bastante

aluno mas não estudava o bastante

pastor mas não era convincente o bastante

amigo mas não era generoso o bastante

político mas não era dissimulado o bastante

padre mas não era virtuoso o bastante

herói mas não era destemido o bastante

cientista mas não era curioso o bastante

escritor mas não era erudito o bastante

artista mas não era talentoso o bastante

adulto mas não cheguei a crescer o bastante

 poeta mas não sabia fingir o bastante

 

O que  restou?

Apenas  um ser humano

Incapaz de ser alguma coisa

o bastante

 

F.J.TÁVORA

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ESCOLHAS

 

Como pode, como fica

Que destino, que desdita

Sonhando com Maria

Estando acordado

Enfeitiçado

nos braços de Sofia

 

Como fica, como pode

Que maldade, que traição

O pensamento no João

Estando abraçada

Deslumbrada

Na cama com Tião

 

F.J.Távora

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DESASSOMBRADA

Revelaste que me amavas

Mas cedo o amor acabou

Rompeste nossas amarras

Teu coração me abandonou

Fiquei tonto, abobalhado

Busquei motivo, razão

Inúteis meus devaneios

Decifrar-te é impossível

Já que és diferenciada

És eterna e finita

Tangível e abstrata

Mas de uma coisa estou certo

És mulher desassombrada

F.J.Távora

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DEPENDÊNCIA

O que seria do sol

Se não houvesse o céu  para iluminar

 

O que seria do céu

Se não houvesse as estrelas para embelezar

 

O que seria das estrelas

Se não houvesse a lua para lhes acompanhar

 

O que seria da lua

Se não houvesse  românticos para fazer sonhar

 

O que seria dos românticos

Se não houvesse o amor a lhes enfeitiçar

 

O que seria do amor

Se não houvesse apaixonados para escravizar

 

O que seria dos apaixonados

Se não houvesse os poetas para o amor anunciar

 

O que seria dos poetas

Se não houvesse alegrias e tristezas para versejar

 

O que seria das alegrias e tristezas

Se não houvesse os deuses para vaticinar

 

O que seria dos deuses

Se não houvesse a humanidade  para os adorar

F.J.TÁVORA

 

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DURA VIDA

 

Nascer

 é o milagre da vida

É o despertar da existência

É  começar a morrer

 

Viver

 é seguir morrendo

Caminhando enquanto houver tempo

Sonhando, amando, sofrendo

Externando sentimentos

Juras, alegrias, lamentos

 

Morrer

 é viver para sempre

Na eternidade do pensamento

viajor de todos mundos

De todos os cosmos

De todos os tempos

Na lembrança e na saudade

Daqueles ainda vivendo

F.J.TÁVORA

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CPP