Posts de FRANCISCO JOSÉ TÁVORA (100)

VIAJANTE

 

 

 

Sou em teu corpo viajante

A explorar secretas trilhas

Montanhas, planaltos, planícies

Deslizo inflamado meus lábios

Exploro com avidez os teus picos

Sugo o orvalho de teus vales

Exploro  as campinas do teu regaço

Flutuo no remanso de teus lagos

Mergulho nas águas de teus rios

 

F J TÁVORA

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MENTE INFANTIL

 

Criatura eu vou te dizer

O que eu mais quero fazer

É comer bolo e tapioca

Sorvete de sapoti da fazenda

Pular, dançar e correr

Da manhã ao anoitecer

E depois dormir profundamente

Até o dia amanhecer

 

Adoro o meu colégio

Que me ensina a aprender

Ler estória, poesia

Ciência, esporte e lazer

Depois eu volto pra casa

Antes de brincar faço o dever

Então fico muito cansada

E vou pra cama adormecer

 

Vou revelar uma coisa

Pra você me entender

Adoro minha família

Meus primos e meu irmãozinho

Meu pai que é  especial

Minha mãe que é um amor

Mas há alguém que eu gosto muito

É o poeta meu avô

 

F J TÁVORA

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CICLOS

 

O tempo correu

A vida seguiu

Até que um dia

Fui chamado de vovô

Por um menininho tranquilo

Que me despertou muito amor

 

Depois a vida escorreu

Pelos ralos da existência

As coisas foram mudando

O menininho cresceu

Virou homem

Amadureceu

 

Restou a nostalgia

Da cumplicidade nunca esquecida

De um menininho encantador

Que embora adulto, persista

Como uma eterna criança

No coração do avô

 

F J TÁVORA

 

 

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ARRITMIA

 

Por causa da arritmia

O sangue não carece  de  pressa

Seque sereno tranquilo

Mas as vezes ele tropeça

 

Então o coração reclama

Por vezes para, descansa

Outras desiste e se entrega

É o fim que está chegando

 

Não será um mau negócio

Ir-se assim  de supetão

Pior é negociar com a morte

Um final a prestação

 

Pra quem  na vida  labutou

Não deixa de ser um regalo

Uma oferenda, um mimo  raro

Partir desta sem  dor, sem  trauma

 

F J TÁVORA

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ABANDONO

 

Tristeza invade minha alma

Repleta de  grande dor

Depois que tu me deixaste

Minha vida  amofinou

 

As desventuras da vida

Maltrataram meu coração

Mas dentro dele ainda pulsa

A força de uma paixão

 

Em minha solidão imagino

Se  teu amor acabou

Pois  o meu ainda é mais forte

Mais que quando começou

 

Hoje sou um morto vivo

Um corpo vagando perdido

Pra voltar a ser humano

Careço das pazes contigo

 

Sou um ente tresloucado

Preso nas teias da solidão

Para acalmar minha alma

Rogo tua compreensão

 

Antes do derradeiro suspiro

Tenho  fé que ainda consigo

Espero  mais uma chance

pra viver minha sina contigo

 

F  J TÁVORA

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OS SEMEADORES DO CAMPO DE MILHO

OS SEMEADORES DO CAMPO  DE MILHO

 

Seu Cosme obtinha parte do sustento da família com a exploração de sua propriedade, denominada "Caranguejo", situada à margem do rio Jaguaribe. Tinha família grande composta de dez filhos, sendo oito mulheres e dois homens. No sertão do Ceará, no início do passado século,  a presença de filho homem era de extrema importância para o auxílio  nas  lides do campo. O desequilíbrio entre os sexos no caso do Seu Cosme  era ainda agravado pelo fato dos cinco primeiros filhos serem do sexo feminino, que contribuíam apenas com as tarefas do lar. Em consequência, seu filho mais velho Almir, o primeiro homem depois das cinco mulheres, cedo foi convocado para auxiliar o pai nas atividades do campo. Com apenas doze anos de idade teve que se submeter ao rigor e disciplina do pai e ajudá-lo nos trabalhos de amanho da terra e cuidados  com os animais domésticos da fazenda.

Seu Cosme era rigoroso e disciplinado em sua rotina de trabalho. Não costumava levar farnel com merenda quando se dirigia ao roçado para mais um duro dia de trabalho. Saía cedo da manhã logo após o raiar do sol e retornava no início da tarde já passada a hora do almoço. Antes da partida era servido por sua esposa um farto  desjejum, constituído de frutos da terra nordestina, a saber: cuscuz, manteiga de garrafa, macaxeira, queijo coalho, coalhada, café e leite. A coalhada e o café eram adoçados com rapadura raspada. Durante a safra do milho, no inverno, havia a pamonha e a canjica. Os produtos feitos de trigo não cabiam em sua mesa pois  eram limitados às famílias de maior posse.

O inverno (quadra chuvosa) havia começado e era época de plantar. O terreno  estava já limpo e preparado para receber as sementes. Seu Cosme havia levado semente  suficiente para o plantio do roçado de milho, cerca de três tarefas ou aproximadamente um hectare. Havia chovido na semana anterior e o solo estava úmido, o que facilitaria a tarefa de abertura das covas para abrigar as sementes. A umidade do solo seria também de extrema importância para a rápida germinação das sementes. A atividade de plantio era dividida entre pai e filho. O pai ia na frente abrindo as covas, enfileiradas, com sua enxada. O menino o seguia depositando nas covas abertas três a quatro sementes, em seguida enterrando-as com o auxílio dos pequenos pés. Laboravam, pai e filho, homem e menino, em perfeita sintonia. Pouco conversavam, tão concentrados estavam cada um em sua tarefa. Era um trabalho tedioso, cansativo, principalmente para a criança que tinha que caminhar encurvada para deixar cair com precisão, no centro da cova, as sementes removidas do bornal que conduzia a tiracolo. Com o passar das horas o cansaço aumentava, a temperatura subia pela inclemência do sol, a fome apertava e se instalava no organismo da criança ainda pouco afeita à dureza do regime de trabalho do pai.

Diante de tamanha provação o pequeno Almir fez de suas fraquezas força, criou coragem e pediu ao pai para voltarem para casa. Externou que estava com muita fome, além de extenuado. O pai replicou que voltariam sim, após terminarem o plantio da semente levada, suficiente para a gleba preparada. Faltava pouco dissera ele, cerca de um quinto da área.

Na fileira seguinte o menino decidiu abreviar seu padecimento. Ao invés de três a quatro, deixou cair dez a quinze sementes. Na seguinte elevou o ritmo para vinte a trinta. Mesmo assim ainda sobrava semente no bornal. Já extenuado decidiu extrapolar o racional e passou a lançar em cada  cova aberta sua pequena mão cheia de sementes de milho. Assim procedendo logo esvaziou o bornal por completo.

Com indisfarçável alegria informou ao pai que a tarefa havia sido completada. A última semente tinha sido sepultada na cova e, pensou, com ela suas desditas. Agora podia retornar para casa, para a água fria do pote da cozinha e para o  almoço, frugal é bem verdade, mas de bom tamanho  para saciar sua fome.

Seu Cosme estranhou o fato de as sementes não terem sido suficientes para o plantio de toda a terra preparada. Era um agricultor experiente, bastante meticuloso e não costumava falhar em suas previsões. Mas, acabou rendendo-se aos fatos. As  sementes tinham acabado. Nada mais havia a fazer no momento. Teriam que voltar ao campo no dia seguinte para terminar o plantio, cerca de um quinto da terra preparada. Assim, no dia seguinte voltaram ao campo e em pouco tempo completaram o trabalho interrompido.  

Após uma semana, ao retornar com o filho ao campo para inspecionar a germinação, ficou visível a traquinagem de seu ajudante. As covas das duas últimas fileiras plantadas revelavam tufos de plantas emergindo do solo a denunciar a travessura do pequeno Almir que ao se ver denunciado, desnudado em sua esperteza, ficou desconsolado, à espera de uma rigorosa punição do pai. Seu Cosme falou: "então é isso seu bandido; e você com aquela história de que a semente tinha acabado e não fora suficiente para  completar o plantio da área preparada".

O problema foi sanado após algum trabalho com o desbaste das plantas excedentes que contou, inclusive, com a prestimosa e diligente ajuda do  filho.   

Desta vez Almir escapou de uma rígida punição tendo sido  apenas repreendido. Certamente seu Cosme reconheceu o rigor de seu regime de trabalho e a fragilidade do filho, apenas uma criança. Apesar de externar aborrecimento com a repreensão, deve ter sorrido intimamente, talvez até envaidecido da adulta  esperteza associada à pueril  ingenuidade revelados pelo filho. Afinal, não passava de uma criança forçosa e prematuramente introduzida no mundo e nas  responsabilidades dos adultos.

F J TÁVORA

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JOVEM

 

A espontaneidade de teu riso, franco

faz-me também sorrir

Tens corpo esbelto com ondulações harmoniosas

pele sedosa, contornos ousados

externas as  formas esplendorosas da juventude

 

Fico embevecido, deslumbrado com tua  beleza.

Quero fazer aflorar tua feminilidade latente

A ti muito não peço,  apenas retalhos de teu tempo

Faria deles obras primas mais  belas

que as telas renascentistas

 

Contrariaria as leis da natureza

Ao teu lado faria os segundos se eternizarem

Para poder cuidar do jardim do teu regaço

Colonizar os vales de tua sensualidade

Afogar-me no remanso dos lagos de teus amavios

 

  F J TÁVORA

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NÃO MAIS HÁ

 

 

Não mais há

Inundação e tragédias nos bairros periféricos de minha cidade

Operação da polícia em busca de criminosos denunciados

Ação de procuradores contra políticos e empresários endinheirados

Perdão a criminosos delatores, com autoridades mancomunados

Acerto de contas entre gangues de bairros de minha cidade

Chacinas protagonizadas por justiceiros remunerados

Fugas em massa de presídios de segurança máxima

Gravações revelando conversas de criminosos desassombrados

Incêndio em ônibus patrocinado por bandidos encarcerados

Estupros coletivos realizados por menores desalmados

Menores assassinos apreendidos e logo a seguir libertados

Notícias de crimes praticados por religiosos pedófilos tarados

Explosão de bancos nas madrugadas de pequenas cidades

Assalto a aposentados ao sair do banco com seus ínfimos salários

Policiais, procuradores e juízes abusando de autoridade

Políticos pedindo votos ainda que encarcerados

Filas em hospitais públicos com pacientes desenganados

 

MAS

 

Foi apenas um sonho

O pesadelo voltou

Depois que o mundo acordou

A vida real continua

O novo ainda não chegou

 

Apesar da assustadora realidade

A paz ainda virá

A lua permanece linda

As estrelas continuam a brilhar

Os pássaros ainda estão a cantar

 

As crianças riem e brincam

Em algazarra sem par

Os poetas fazem versos sem parar

E eu em minha ingênua e doce ilusão

Espero a vida melhorar

E um resplandecente futuro chegar

 

F J TÁVORA

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PERSONAGEM

 

 

As personagens que crio

Na prosa e na poesia

Eu o faço ao meu talante

Nelas insiro defeitos

E  virtudes que desejo

São minhas as criações

Tudo posso e tudo faço

Isento de qualquer embaraço

As obrigo a  obedecer

Não lhes permito escolher

Elas fazem o meu querer

Não lhes cedo muito espaço

 Mas apesar de mandão

Não deixo de me render

Aos desvãos do coração

 

F J TÁVORA

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PARCIAL

 

Está sendo parcial

Quem  busca na poesia

Enlevar a sua alma

Fazendo a apologia

Apenas das  alegrias

Esquecendo os  desacertos

E  descaminhos da vida

 

Não custa nada lembrar

que uma boa poesia

pra ser bem elaborada

e muito bem acolhida

deve ter muita alegria

ou  tristeza  desmedida

 

O poeta se motiva

com ardor e euforia

Coragem e muita ousadia

Sentimento e emoção

Pois para um bom versejar

Não cabe acomodação

 

F J TÁVORA

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ALMAS UNIDAS

 

Estava  eu a procurar-te

nas trilhas de meu destino

Acabei por encontrar-te

nos sonhos de meus desatinos

 

Ao imaginar-me refém das lembranças

Abrigadas  em  sublime pensamento

Viajor de todos os sonhos

De todos os mares e continentes

 

A proclamar em melodioso canto

A presença  de tua distância

A buscar  com impávido destemor

      O caminho de um abrigo acolhedor      

 

 

A sugerir entregas, abandonos

Quem sabe, assim, os deuses permitam

que de nossos  corpos  nos apossemos

Vez que de nossas  almas donos já somos

 

F J TÁVORA

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QUISERA VIR A SER

 

Lúdico como uma criança

ao combinar bloquinhos coloridos

na edificação de sonhos, palácios e catedrais

 

Sublime como um artista

Ao associar cores e tintas

e criar lindas aquarelas

 

Meticuloso como uma artesã

a tricotar suas linhas coloridas

formando  belos bordados

 

Brilhante como um compositor

usando a  pauta e o pentagrama

Para escrever  lindas canções

 

Talentoso como um escultor

que cinzela  com maestria

figuras com beleza e ousadia

 

Perseverante como um professor

ao dedicar toda uma  vida

na educação da cidadania

 

Sincero como um poeta

Ao fingir mentiras

Nas verdades que revela

 

F  J TÁVORA

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A MUDINHA DO CINE DIOGUINHO

 

O destino não fora nada generoso com ela. Nasceu em uma família de agricultores pobres no sertão  do Ceará,  em fazenda distante da sede do município. Não dispunham de  energia elétrica, água encanada e esgoto em sua modesta morada com paredes de taipa e piso de barro batido.  Viviam praticamente isolados do mundo. Tanto ela como os irmãos não tinham acesso a qualquer tipo de educação. Seus pais eram analfabetos e esta sina continuaria com os filhos.   O pai era vaqueiro e encarregado de fazenda visitada poucas vezes ao ano pelo dono que residia na capital.

Foi trazida ao mundo, como seus irmãos, pelas mãos de  uma parteira, pois não havia nas cercanias hospital ou posto de saúde. Foi derradeira de uma dúzia de filhos que seus pais botaram no mundo, tendo sobrevivido apenas a metade. A outra metade findou-se pelo caminho, ainda crianças, vítimas de doenças endêmicas e desnutrição.

O seu futuro, como de resto o futuro dos irmãos, não era nada promissor. Os meninos cedo ajudariam o pai nas duras lides do campo. As meninas auxiliariam a mãe  nas tarefas domésticas. Se tivessem sorte poderiam ser aceitas na casa do patrão ou de seus familiares e amigos, na capital, para trabalhar como empregada doméstica. Esse foi o sonho acalentado pela mãe.  Para facilitar ofereceu a filha aos patrões como afilhada.

A jovem cresceu dentro da normalidade das crianças do sertão. Parecia ser uma garota normal, esperta, cumpridora de suas obrigações.  Mas, já passados quatro anos de seu nascimento, não emitia qualquer tipo de som. A mãe ficou preocupada, pois sua filha com a mudez dificilmente seria aceita  para trabalhar na casa da madrinha.

A família passou a chamá-la de Mudinha. Ela era capaz de ouvir e entender as pessoas. O problema residia  na impossibilidade de articular  e emitir qualquer tipo de som.

Quando já atingira a adolescência, em uma das vindas dos patrões à fazenda, a menina foi aceita na casa grande para  um teste, e ficou  patente sua utilidade. Ela era esperta e trabalhadora. Estava sempre de bom humor e disponível para as tarefas domésticas. Demonstrava ter boa índole.    

Diante de seu desempenho a madrinha resolveu levá-la para  uma temporada em sua casa na capital.

Mudinha adorou a  mudança de ares. Trabalhava muito. Era quase uma escrava. Acordava cedo e recolhia-se tarde.  Cumpria com abnegação todas as tarefas sempre sorridente.

A casa de seus patrões ficava próxima a uma grande praça onde funcionava um cinema de bairro denominado Cine Dioguinho. Era muito frequentado principalmente por jovens residentes   nas cercanias da praça.

Uma colega com o consentimento da madrinha, levou Mudinha para assistir um filme. A jovem, adentrada nos seus dezesseis anos, ficou deslumbrada com o que viu. Vivia muito solitária com sua labuta e seu silêncio. A madrinha não permitia saídas à noite pois temia que ela viesse a ser enganada e explorada devido à sua ingenuidade. Afinal não passava de um ser simplório não afeito  aos modernismos e espertezas das pessoas da capital.

Mudinha ficou contente e passou a frequentar o cinema com regularidade na companhia de sua amiga. Com o passar do tempo  a madrinha permitiu que ela frequentasse o cinema mesmo  desacompanhada.

Mudinha chegava cedo, bem antes das luzes serem apagadas  e sentava-se próxima à tela de projeção. Ficava fascinada principalmente com os filmes de romance e as comédias brasileiras muito populares na época.

Os frequentadores do cinema eram conhecidos pois em geral moravam no mesmo bairro. Havia certo preconceito com Mudinha por ser ela Muda e empregada doméstica. Assim, apesar de rodeada de pessoas ela  se sentia  isolada e solitária.

Certo dia, um rapaz sorrateiramente sentou ao seu lado depois que as luzes tinham apagado. Ao longo da  projeção  passou a explorar com suas mãos o corpo de Mudinha. Começou alisando suas coxas. Ela, surpresa, permitiu a ousadia. O jovem foi além e  colocou o braço sobre seus ombros para acariciar seus seios. Mais surpresa ficou a jovem, mas extasiada permitiu os carinhos do rapaz. Ficou estática, excitada. Os carinhos  continuaram até  pouco tempo antes do final do filme. O jovem, antes das luzes serem ligadas evadiu-se rapidamente do local. Afinal, era um jovem de "família" aproveitando-se de uma empregada doméstica e por cima muda.

Mudinha ficou impressionada com o ocorrido. Permaneceu durante toda a semana ansiosa para assistir o novo filme, na esperança de que seu admirador retornasse com os carinhos. Esperava no próximo encontro, quem sabe, uma declaração de amor do furtivo rapaz. Talvez um beijo revelador. Mudinha, na sua ingenuidade apaixonara-se.

O tempo passou rápido. Na semana seguinte, antes do início da sessão estava ela já sentada a postos. Como das outras vezes ninguém atreveu-se a sentar ao seu lado. Logo que as luzes  foram apagadas, não um mas dois jovens "de família",  ansiosos, ocuparam os assentos vazios que a ladeavam. Sem perda de  tempo cada  um cuidou de se apossar de seu butim. O da esquerda explorou os seios depois de libertar os botões da blusa, cárceres de sua cobiça. O da direita  levantou sua saia e fartou-se com denodo com as partes mais íntimas da jovem. Ela ficou surpresa, estática, apesar da tentativa dos jovens de  trazer suas mãos  para também participarem da festa. Ela negava-se a acariciar, em resposta, o sexo hirto dos seus algozes . Manteve os braços firmemente cruzados. Permaneceu durante todo o tempo em conduta passiva.

A notícia do comportamento da Mudinha espalhou-se rapidamente como fogo em palha. A partir daí ela sempre tinha  companhia  para explorar seus encantos secretos. Havia uma disputa entre eles pelo corpo da jovem.  Ficavam de prontidão, como se na largada de uma corrida  aguardando o apagar das luzes na tentativa de ocupação dos dois assentos sempre vazios que a ladeavam.

O comportamento dos rapazes revelava a face cruel da hipocrisia humana. Por serem "de família",  não queriam mostrar suas faces até que as luzes fossem apagadas e o escuro escondesse do público a volúpia de seus vis desejos.

Havia na turma um magricela viciado no onanismo que  usava com frequência a imagem da  Muda  em suas fantasias solitárias. Ansiava em fartar-se não em fantasias virtuais como já fazia mas ao vivo como seus colegas  sortudos. Por diversas vezes  tinha  tentado, debalde, sentar ao lado da Muda. Apesar dos insucessos persistiu tentando. Por diversas vezes perdera por pouco para colegas mais rápidos e afoitos. Finalmente seu dia chegou. Fora bafejado pela sorte e conseguiu sentar-se ao lado da Muda. Sem perda de tempo ele introduziu a mão sob a saia de sua presa e partiu  célere na direção da confluência das coxas. Para surpresa sua, mudinha rapidamente segurou seu punho e com firmeza  o afastou de seu corpo.  O jovem, indignado com a atitude da Muda retornou com mais vigor e novamente invadiu sua intimidade. Mais uma vez  Mudinha rechaçou o atrevimento removendo com mais firmeza a  inoportuna mão de seu insólito  agressor. Revoltado e quase em desespero, sem entender  as razões do comportamento inesperado da Muda e também sem querer aceitar passivamente sua recusa, o rapaz fez mais uma desesperada incursão. Diante de tamanha insistência a Muda crispou o braço do magricela com  determinação e firmeza afastando-o de seu corpo. Em seguida, de inopino, apesar de muda, emitiu  um som tão alto, tenebroso e estridente, do tipo AAAHH UUGGH HHHAAA AUUUU, que afugentou o agressor com a rapidez de um raio para não  ser  flagrado  com a interrupção da  projeção.

O jovem magricela não bem entendeu o motivo da  indignação da  Mudinha ao seu assédio. Afinal, ela nunca tinha negado antes o seu corpo às incursões libidinosas de todos os colegas que o haviam antecedido. Não imaginava ele que por decisão unilateral da Muda a farra tinha chegado ao fim. Seu novo comportamento resultara de profunda catarse. Passadas várias semanas após o primeiro assédio, Mudinha, na solidão de sua tipoia, antes da chegada do sono reparador das canseiras do trabalho, refletiu sobre os últimos acontecimentos de sua vida. Ao sonhar com suas primeiras experiências amorosas, ela imaginara tudo muito diferente. Se os entreveros ocorridos no escurinho do cinema satisfaziam as urgências de seu corpo, sua alma naufragava no sofrimento e na desilusão. Seria ela diferente? Não seria a ela permitido sonhar com um amor sincero e exclusivo que poderia ser desfrutado às claras e não apenas na escuridão de uma sala de cinema? Sentia-se abusada por um grupelho de  jovens pretensiosos que por serem "de família" entendiam poder tirar proveito de seu corpo, sem se preocupar com seus sentimentos.

Depois de muito refletir, desiludida, decidiu encerrar os encontros  promíscuos com os jovens sem face. Decidira que seu corpo não mais estaria disponível à exploração  hipócrita dos jovens "de família" do bairro.  Magricela fora o primeiro a receber o recado e perceber a mudança.

F J TÁVORA

 

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LAMBUZADO

 

Depois de tanto lambuzado

loucura e muito prazer

o amor que não havia

pode até aparecer

E depois que ele chegar

o esfregado e a loucura

continuam até esgotar

as forças da natureza

de uma jovem  a se entreter

Tendo o corpo como cálice

pra meus fluidos receber

 

F J TÁVORA

 

 

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FINDADO AMOR?

 

Lamento imaginares

que nosso amor terminou

como um fugaz pensamento

que num átimo o tempo levou

 

Quem sabe não está ele

Ausente mas renitente

Náufrago das saudades

em um coração ainda candente

 

Apenas seguiu a sina

Do implacável destino

Que decidiu nos separar

E aumentar meu desatino

 

F J TÁVORA

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PARADOXO

 

 

 

Privado da visão

Encarcerado em  uma vida sem luz

Ele pode ver mais do mundo

Que um outro com vista perfeita

 

É que apesar da deficiência

Ele vê com os olhos da alma

E viaja através das imagens que cria

 

O outro, embora sem restrições

Pode estar refém da rotina e da monotonia

De uma vida sem perspectiva, vazia

 

O primeiro embora não possa ver

Idealiza as belas imagens que concebe

O outro, embora possa ver

Não percebe as lindas imagens que vê

 

E a vida prossegue

Com mais um de seus paradoxos

Enquanto um enxerga o que não pode ver

O outro é incapaz de enxergar o que vê

 

F J TÁVORA

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VELHO TAMARINDO

 

Ao passar ao largo da antiga escola

Diviso a silhueta da centenária árvore

A abrigar em sua frondosa copa

Os sonhos dos jovens de hoje

Como  fizera com os de outrora

Nos   anos de minha mocidade

 

Sobrevivente de um passado  distante

Imerso no território enevoado da velhice

Lembranças acordam em minha mente

Repasso   desejos, esperanças, sonhos

Alguns realizados, outros nem tanto

Qual miragens desbotadas

Pelo perverso algoz chamado  tempo

 

A velha árvore acende-me a saudade

Faz-me retornar ao princípio

onde tudo era presente

e o tempo  não havia  ainda  envelhecido

Faz-me lembrar das juras e promessas

feitas sob o abrigo de sua protetora sombra

ao som do farfalhar de sua acolhedora  copa

 

F J TÁVORA

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CINQUENTA CRUZEIROS DE PENTE

 

Era manhã de sábado e Almir, como era costume seu, dirigiu-se ao centro da cidade com o objetivo de adquirir na banca do Neco o bilhete da Loteria do Estado que deveria correr ao final do dia. Acalentava o sonho de oferecer mais conforto a sua família com o prêmio que imaginava ganhar. O apertado salário de servidor público estadual  de nível médio, era suficiente apenas para as necessidades  essenciais da família constituída de oito filhos todos menores com diferenças de idade de um  a dois anos. Uma verdadeira escadinha de oito degraus. A compra religiosa do bilhete da loteria semanalmente era , com exceção do cigarro, seu único vício. Depositava muita esperança em solver seus problemas materiais mais urgentes com o bilhete semanal e a ajuda de seu Deus e seus  Santos onde buscava amparo através da debulha diária de seu terço e de suas  rezas.

No retorno à  casa depois da aquisição de mais um bilhete, lembrou que necessitava comprar um pente, pois havia perdido o seu. Era comum naquele tempo os homens conduzirem no bolso do paletó ou da camisa um pente para manter o cabelo alinhado e bem penteado. O pente como o lenço eram itens sempre presentes, fazendo parte obrigatória da indumentária de jovens ou adultos, independentemente de classe social.

Almir procurou um ambulante dentre vários que faziam ponto nas ruas do centro da cidade. Facilmente localizou um garoto na calçada fronteiriça a tradicional  Farmácia Osvaldo Cruz, com uma pequena caixa repleta de pentes para venda. Era mais um dos inúmeros  jovens menores de idade que buscavam com trabalho honesto um complemento  financeiro para a família.

O jovem  ambulante cobrava um cruzeiro por unidade. Almir pretendia adquirir apenas um pente, porém não dispunha de dinheiro trocado. Com uma cédula de cinquenta cruzeiros na mão indagou se o garoto dispunha de troco para a compra de uma única unidade. O  vendedor pensou um pouco e depois pediu que Almir ficasse segurando a caixa com seus produtos como garantia enquanto ele iria trocar o dinheiro.  Seria rápido, assegurou. Almir concordou e quedou-se próximo ao balcão da farmácia, onde depositou a caixa com os pentes e passou tranquilamente a ler seu jornal,  esperando o retorno do ambulante. Após longa espera Almir, já impaciente e visivelmente preocupado, colocou o   balconista da farmácia a par do ocorrido e indagou  se ele  conhecia o  jovem vendedor de pentes que estava demorando muito a retornar. O balconista falou que  o conhecia apenas de vista pois ele fazia ponto em frente ao estabelecimento farmacêutico.  Depois de matutar por alguns segundos sugeriu que Almir contasse o número de pentes presentes na pequena caixa deixada como garantia. Para surpresa de ambos, verificaram que havia  exatos cinquenta pentes que a um cruzeiro cada totalizariam cinquenta cruzeiros, o valor da cédula que o garoto levara para trocar. O balconista, com um olhar maroto mas sem expressar externamente um riso de mofa na face em respeito ao ingênuo interlocutor,  foi peremptório e solene  ao afirmar: "espero  estar enganado mas penso que o senhor acaba de realizar uma compra de cinquenta pentes".  Sem esperança de voltar a ver tão cedo o pequeno ambulante, Almir sentiu-se ludibriado mas não totalmente roubado, pois tinha em mão  exatos cinquenta pentes.  Fora apenas vítima de uma compra forçada fruto da esperteza do pequeno marreteiro. Não guardou rancor, ao contrário, ao chegar em casa relatou o fato às gargalhadas  elogiando a esperteza do garoto que a continuar nesse diapasão deveria  transformar-se em excelente comerciante ou, quem sabe, em sagaz político. Houve uma farta distribuição de pentes para familiares  e amigos que riam a valer ao tomar conhecimento da inusitada história.

 

F J TÁVORA

 

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CPP