
Miniconto
MANSÃO DA TIJUCA:
Adamastor, meu amigo de longa data, era um sujeito de aparência simples, quase ingênua, mas dono de uma inteligência rara e desconcertante.
Acreditava nas pessoas, na ciência e até no amor — com uma fé que beirava o absurdo.
Vivia alheio ao mundo, como se caminhasse por uma realidade paralela, mas sua memória fotográfica o tornava uma testemunha precisa de tudo que o cercava.
Suas histórias, ora hilárias, ora extraordinárias, quase sempre desafiavam a lógica e carregavam um quê de mistério.
Hoje, penso, talvez fosse diagnosticado com autismo leve.
Nas aulas vagas — especialmente nas de Direito Internacional — Adamastor me contava episódios que, segundo ele, aconteciam de tempos em tempos.
Eu ouvia, fascinado, embora nem sempre compreendesse. Dizia que, em momentos cruciais, como nas provas finais, vozes sussurravam respostas em sua mente.
Nunca soube ao certo que tipo de perguntas recebiam esse auxílio invisível.
Nos conhecemos na Faculdade de Direito, no Rio de Janeiro, e dividíamos, com outros três estudantes, uma casa assobradada na Rua Mariz e Barros, entre a Praça da Bandeira e o Maracanã, às portas da Tijuca.
O casarão, antigo e imponente, ainda guardava vestígios de sua glória passada.
A fachada neoclássica, com paredes azuladas e colunas brancas, sustentava uma varanda que parecia observar o tempo com altivez.
As janelas largas, de madeira escura e venezianas, deixavam entrar a luz tropical, tornando o ambiente arejado e vivo.
O telhado colonial, com seus beirais generosos, protegia a casa das chuvas repentinas.
Logo na entrada, um jardim com três canteiros de rosas vermelhas era cuidado com devoção por Dona Justa, nossa cozinheira e arrumadeira.
Por dentro, o casarão era um relicário da Tijuca de outrora: pisos de madeira de lei, móveis antigos e um lustre modesto pendendo do teto.
A casa exalava tradição e elegância, como se cada parede guardasse segredos de décadas passadas.
Dividíamos despesas e histórias em torno de uma mesa robusta na cozinha, feita de madeira tão espessa que parecia ter atravessado séculos.
Às sextas-feiras, ali se reuniam nossas ideias — futebol, política, religião, viagens interplanetárias e processos jurídicos famosos.
Mas o que realmente fascinava Adamastor era uma pergunta que, à época, ganhava força entre os estudantes mais inquietos:
“Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos?”
Certo dia, Adamastor nos convidou para participar de uma experiência que, segundo ele, seria inolvidável.
No dia aprazado, surgiu com um tabuleiro redondo de madeira, circundado por todas as letras do alfabeto.
No centro, uma seta também de madeira, encrustada, serviria como ponte entre os vivos e os espíritos, apontando respostas a qualquer pergunta feita pelos participantes.
Todos o encararam com um misto de incredulidade e curiosidade.
Eu, de pronto, recusei. Disse que aquilo não era brincadeira. Mas Adamastor, com sua insistência gentil e aquele olhar de quem realmente acreditava no que dizia, acabou por me convencer.
Lá fora, a tempestade rugia com fúria ancestral. Relâmpagos incendiavam a escuridão com fulgor incandescente, rasgando os céus em mil pedaços como espadas satânicas. Os trovões ressoavam em cadência febril, alucinante, como o batuque de uma orgia de dementes. A terra tremia sob o ribombar dos céus, como se recebesse vergastadas vindas do próprio inferno.
Não era, evidentemente, o momento mais adequado para uma experiência desse jaez. Ainda assim, todos os apetrechos foram dispostos sobre a vetusta mesa da cozinha. A energia elétrica havia sido cortada — certamente pela tempestade — e nos encontrávamos sob a luz trêmula de três lampiões, que lançavam sombras dançantes pelas paredes.
O entusiasmo de Adamastor era contagiante. Ele vivia dizendo que recebia intuições, mensagens que lhe eram transmitidas diretamente à mente.
E, diante da coragem dos demais — ou da inconsequência — comecei a suspeitar que tudo não passava de uma farsa.
Mais uma encenação, talvez, um tipo de “bullying” disfarçado, como tantos outros que ele aceitava com ingenuidade.
Adamastor, afinal, era quase simplório, sem maldade alguma, e acreditava em tudo.
Depois de uma invocação por parte de um deles, solicitando que algum espírito amigo se manifestasse e dissesse alguma coisa, sem que ninguém tocasse na seta, ela sozinha se moveu, e, buscou as letras formando a seguinte frase:
—“Idiotas, o inferno espera por vocês”. —
Como nada daquilo estava previsto pelos poltrões, houve, por parte deles, uma debandada geral.
Logo em seguida a luz voltou, e, nunca mais se falou daquela misteriosa e intrigante experiência que, com certeza dera errado.
A grande ampulheta do tempo se encheu e se esvaziou inúmeras vezes.
Formamo-nos, e cada um voltou para sua terra, seguindo o próprio caminho.
Nunca mais nos reunimos naquela mansão, nem voltamos a falar da misteriosa experiência.
Anos depois, ao recordar aquela noite, uma lembrança me inquietou: durante toda a sessão, Adamastor não parecera surpreso com nenhuma das respostas do tabuleiro. Ao contrário, enquanto os demais fugiam apavorados, ele permanecera imóvel, contemplando a seta com um sorriso enigmático.
Talvez fosse apenas impressão minha. Afinal, Adamastor sempre fora um sujeito singular.
Mas há uma coisa que nunca consegui compreender: naquela noite, quando a seta se moveu, ninguém havia colocado as mãos sobre ela. Ninguém, exceto...
Não. É melhor deixar essa história como está.
Nelson de Medeiros Teixeira
Nota do autor: Esta história é verdadeira, embora temperada com boas doses de ficção.