Poesias

HERMETISMO

HERMETISMO

                              à Angélica, cuja amizade motivou este texto

Vejo frutas de cera na mesa,
E me vem nos ares aroma de manga 
Do quintal da velha casa da infância
Para sempre liberta da canga do tempo.
Não há engano: quintessencial,
Impõe-se no meu pensamento
O etéreo mundo abstrato e real.
Reconheço de amarelo mais intenso
O girassol enxertado em saudade
E me deslumbra a platina da lua do céu
Pois, cá dentro, outra lua meu olhar ilumina.
Por isso, Vida, acolhe-me em tua corola
De eterno pólen paternal de belezas
Gerando em cada folha, florete, flor
Transmutação de cor e perfume.
Não seja a rica matéria pesada 
Jazida de estrangeiros contornos
Vassalos de cinco sentidos,
Mas tangível expressão concreta
De muitos estilhaços de luz
Do alheio e pertencido Espírito 
Que vibra o sopro em tudo que é vivo.

(E. Rofatto)

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E. Rofatto

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Comentários

  • Homenagem belíssima, Edvaldo! Parabéns aos dois poetas! Bjs

    • Grato, Marso! Homenagem merecidíssima: a Angélica, como também você e outros amigos aqui da Casa, presenteiam-me com estímulos para escrever!

  • Edvaldo querido, primeiro muito obrigada por seu carinho e dedicatória... sinto-me honrada por tal. 

    Teu texto é belíssimo e digno de todos os aplausos. A junção entre as  relações íntimas e misteriosas,

     entre o Universo visível e o invisível é sensacional. Depois que fiz a primeira leitura, voltei calmamente, 

    linha por linha, verso a verso, sentindo cada sensação que tuas palavras despertam. Um misto de carne 

    e alma, que se desvencilham e se reconstroem na transmutação do universo!! Uau!! Aflorou minha veia

    filosófica!! rsrsrsrsrsr... Obrigada querido!!! 

    • Sou eu quem deve lhe agradecer muito, Angélica! Foi a partir de uma conversa nossa que me veio o desejo de escrever alguma coisa a respeito da interligação de tudo, pois que há uma só origem comum (tudo neste mundo é criatura). Daí interseccionarem-se o visível e o invisível, a carne e a alma, como você bem assinalou. Que aflorou a sua veia filosófica, não resta dúvida: lisonjeou-me o seu comentário mesclando física e metafísica com base no meu texto. Sem dúvida, os amigos são um presente trazendo outro presente: a você devo a inspiração para esse texto! Obrigado, minha amiga!

  • Adm

    Que beleza de poema! O lirismo é tão presente que se sente ao se passar de um vocábulo para o outro.
    O aprendizado se dá na observação de tudo o que acontece na nossa vida. Por isto observar é importante. É na dualidade do "girassol enxertado de saudade" que sofro e que sou feliz. Sofro porque gostaria de voltar a viver o que vivi e sou feliz porque vivi o que hoje me traz saudade. Dois polos que harmonizam num mesmo ser. O poema tem um ritmo no inicio centrado nas lembranças antigas vai refletindo sobre o fluxo do tempo que vai se esgotando e as compensações que vão chegando. Nossa! Se falei besteira, perdão. Divino poema!

    Destacado!

    • Grato, Edith! Penso exatamente como você afirmou a respeito do girassol:  alegria e tristeza são as duas faces, indissociáveis, de uma só moeda! Na alegria do encontro já está a tristeza da partida, a qual, por sua vez, já carrega prenúncio de saudade a resgatar a alegria perdida! Desse modo, o fluxo temporal também é alternante... E, na saudade, filtra-se a essencialidade de tudo - e passamos a perceber que nada se perde efetivamente: a fruta de cera me põe na mente a fruta do quintal, logo tudo é passível de espelhamento. Tudo é manifestação do Criador! Mas é a idade que traz a percepção de que tudo é uno. Você, Edith, uma intérprete com olhos (e coração) de águia!

  • Palavras vivas que se fazem das instancias as verdadeira maravilha de uma bela escrita

    • Grato, José Carlos! Visita e comentário expressam a generosidade com que você se faz presente!

  • Penitente indumentária no dialogo da sua obra estimado poeta Edvaldo ! Por isso vamos dar a palavra ao amado poeta e ouvi-lo sempre. O grande Rui Barbosa usava exageradamente hermetismo de linguagem. Na verdade eu preciso me aprofundar no tema hermetismo, nunca é tarde para se aprender algo de real interesse. Minha alma se alimenta dos saberes grandiosos, e de seu magnífico poema. Mikasa Sukasa sempre!

    • Grato, Sam!

      O hermetismo é um tema interessante, de que gosto muito: "tudo está em tudo, pois assim como é em cima no céu é embaixo na terra", é uma das máximas desse conhecimento - que eu tentei trazer um pouco para o texto. Ele teve o sentido ampliado para significações difíceis na linguagem, de que o Rui Barbosa, como você bem lembrou, é um grande exemplo.

      Ah, não posso deixar de dizer, que, quanto à "Kasa", éramos fãs desse programa: nos reuníamos todos para vê-lo!

      Obrigado também por me trazer esta lembrança!

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