Eu te observo a dormir, amada;
e dormes lindamente!
Respiração tranquila,
lábios semicerrados.
Sonhas, amada,
Pois sorrir…?
Assis Silva
Apaixonou-se sexta-feira à noite.
Namorou no sábado.
No domingo se casou.
Segunda-feira veio o divórcio.
Terça-feira morreu de amor!
Um tiro só: do lado direito para o esquerdo,
no pé do ouvido.
Acreditou, deveras, num amor para a vida inteira
mesmo sendo um curto período, de poucos dias.
Assis Silva
O galo dá seus primeiros cantos,
A saracura responde na mata ciliar.
Os dedos da mão fogem pelos buracos da rede; os dos pés, pelo lençol
(que também fora feito de rede)!
Desperto, olho para fora, mas fora já estou.
Um vento gelado me faz tremer de frio,
Um relâmpago corta o céu escuro.
A chuva cai e afoga o canto do galo e da saracura.
Para quem pouco tem,
até a chuva trata com desdém.
Meu sono e sossego foram enxaguados!
A poesia tem que ser parida quando ela quer, e não quando o poeta tiver tempo. Pensei este texto dias atrás, mas não escrevi, relutei, nem era sobre isso, embora os versos teimassem em sussurrar. E por ter passado da hora de nascer, não nasceu como na ideia primeira.
Silêncio
O silêncio da tua voz perfurou as veias mais remotas
e importantes do meu coração
E ele sangrou, ficou pálido...
A omissão das tuas palavras estourou seus tímpanos
e ele ficou surdo.
Em vão seus olhos lhe procuravam, mas você se escondeu.
Enquanto seus passos seguiam em direção aos teus
Os teus fugiam dos dele...
E a esmo, num deserto de sentimentos, desfaleceu.
Agora, sob uma nuvem sombria
Dentro deste túmulo frio
Tu descansas, foste sem se despedir.
Descanse em paz, amada;
Enquanto este silêncio ensurdecedor me atormenta o peito.
Assis Silva
Meu avô era do tempo em que os momentos
não eram “guardados” em fotografias
nem em telefones “inteligentes” (Smartphones).
Era do tempo de sentar e prosear e contar “memografias”.
E hoje quando queremos mostrar ele às pessoas
Não mostramos fotos nem vídeos
Contamos suas histórias e presepadas
De anos idos tão bem vividos.
Assis Silva
Tenho visto, ultimamente, muita gente — transvestida de um moralismo farisaico — preocupada com a família, ou melhor, com a educação familiar das crianças. Criticam novelas, filmes, livros que apresentem conteúdos homoafetivos. Será que a essência da educação familiar das crianças é essa? A educação de uma criança, disse um educador, começa muitos anos antes dela nascer, ou seja, com a educação de seus pais. Não seria a melhor educação o exemplo dado pelos adultos que a cercam no dia a dia? Opção sexual é terra alheia que ninguém vai. (Assis Silva)
Assis Silva
Ainda era cedo quando ela chegou.
A aurora ainda reinava
quando ela escancarou a porta sem licença.
Não estávamos preparados para tal experiência
Além de cedo, éramos imaturos.
Uma paixão avassaladora nos tomou por inteiro
Rompeu a aurora da maturidade
Deixando-nos atordoados, encandeados.
A paixão chegou cedo demais
O amor se foi cedo de menos.
Talvez se fosse a essa altura do dia
Neste momento da vida
Casaríamos.
E você se foi, Maria, para o nunca mais
E eu parti, Maria, com os cacos
que sobraram do coração na mão.
E como o tempo tudo cura, Maria,
meu coração se regenerou.
Espera-te um dia!
Assis Silva
Um distinto senhor chegou em um desses estabelecimentos americanos de Fast Food e solicitou a atendente:
— Por obséquio, senhorita, gostaria de um café amargo e ruim. Disse em tom de brincadeira.
— Ah, já sei o que o senhor quer: um café amargo, preto e ruim.
No outro dia, o senhor voltou ao mesmo estabelecimento e fez o mesmo pedido, mas dessa vez um jovem lhe atendeu:
— Meu jovem, por gentileza, gostaria de um café amargo e ruim.
— O senhor quer um café amargo, ruim e preto? — fez a pergunta em tom de brincadeira.
No outro dia voltou no mesmo estabelecimento e repetiu o pedido.
— Quero um café ruim e amargo. Era um terceiro atendente.
A resposta foi a mesma:
— Já sei o que o senhor quer: um café preto, forte, amargo e ruim.
Interessante como o preto está associado a coisa ruim. O adjetivo preto acrescentado pelos atendentes não era somente por causa da cor do café, mas por causa da palavra ruim dita pelo senhor.
Assis Silva
Sinto-me embriagado pelos sonhos
Bêbado pelo futuro
Tropeçando nas coisas do ontem
E deitado em um presente
que perfura minha epiderme
causando agressão em meu interior.
Estou infeccionado de futilizas
Com náusea desse tempo que nunca passa!
Assis Silva