Título: Essa cidade lê?
Me disseram que, para eu ser um escritor, alguém precisaria pagar pela minha escrita. Não importa o valor, contanto que eu tenha sido pago.
Eu sempre quis ser escritor.
Decidi anunciar meu trabalho. Fiz cartazes e placas e espalhei por toda a cidade, cada um mostrando coisas diferentes que escrevi, tudo assinado com meu nome.
Em uma placa em frente a prefeitura deixei um poetrix:
“Paraná, meu pé vermeio!
A piazada pançuda
Ri e rola em teu chão.”
Ao ler, toda a piazada ria de se jogar no chão.
Deixei no pátio da escola que eu estudei um cartaz enorme com a frase:
“Se você quer dominar o mundo, leia um livro; do contrário, você será dominado”
Todos, alunos e professores, correram para a biblioteca.
Num cartaz em frente a um salão de beleza escrevi uma reflexão:
“Acho engraçado o dia dos namorados cair justo no inverno. Sinto falta de um homem ao meu lado para me aquecer nesse clima gelado. Se fosse no verão, que falta me faria um namorado?”
As mulheres olhavam umas para as outras, cochichavam e depois riam.
Até mesmo no mural da igreja coloquei um pensamento:
“Como é simples o seu amor! Como não ver e não ter temor, quando ofereceu suas mãos e as pregou na cruz, o Rei Jesus, em meu lugar pra me salvar?”
“Glória e aleluia” diziam os fiéis que por ali passavam.
Escrevi um conto na porta de um banheiro público e aforismos nos bancos de um ônibus; choravam ao ler. Pus bilhetes de bom dia nas mesas da lanchonete e cartas de amantes nas mesas do bar da esquina; fiz a alegria de muitos assim.
Risquei cantigas nas calçadas da praça e críticas sociais nos muros. Distribuí panfletos contando sobre a vida dos patos no zoológico e fixei uma placa com o resumo no lago. Fiz chover biscoitos da sorte pela cidade e post-its com frases motivacionais.
A cidade estava eufórica! Mas, uma semana se passou e ninguém me procurou para escrever. Meu sonho é ser escritor. Será que sou tão ruim assim? Ninguém pagaria por um texto meu?
Fiz tudo de novo.
Pendurei no portão do cemitério um cartaz com o recado:
“Dizem que na madrugada, quando o relógio bate às três, levantam-se caveiras e reis.”
Acho que vi as próprias caveiras lendo esse.
Num outdoor em frente a casa da minha ex escrevi um acróstico:
“S ete horas da manhã,
A cordo e me levanto.
U m bocejo, me espreguiço.
D ou bom dia e percebo,
A gora tão sozinho,
D e você eu sinto falta
E me falta meu benzinho.”
Ela me mandou uma mensagem me chamando de panaca.
Na entrada da cidade levantei uma placa que estava escrito:
“Marmeleiro, terra do marmelo,
A qual marmelo só tem no nome.
É pura marmelada!”
Foram mais de mil buzinas que a placa recebeu.
Na porta de uma cartomante colei um feitiço para encontrar o amor verdadeiro e na entrada do bordel um feitiço de invisibilidade; os clientes me agradeceram. Escondi um conto erótico no banheiro da mecânica e outro na gaveta do caixa do supermercado; de repente o fluxo nos banheiros aumentou.
Espalhei receitas que inventei na entrada dos restaurantes, pendurei cartas de amor nas portas dos vizinhos, entreguei currículos nas caixas de correio e contratei um avião que levava uma faixa com meu nome e o contato.
Há cinco anos eu continuo fazendo a mesma coisa. Ser escritor é só o que eu quero. No meu corpo tatuei minha autobiografia e fiz da cidade meu portfólio. Ninguém me deu um único centavo. Aceitei meu fardo de escritor que vale nada.
Em compensação tive o que muitos escritores ansiavam receber: sorrisos, lágrimas, elogios, xingões, suspiros e espantos. Meu pagamento foram os corações da cidade. Eu ainda não sou escritor, mas com certeza sou eu quem mantém vivas as letras desse povo.