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Petiscos

Petiscos

 (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

No bar da Lena

Tem petiscos

De torresmo

De coração

De alho

E também o bom baralho.

 

O João vai todos os dias

Comer angu

Com linguiça

E ficar de preguiça.

 

A Lena faz pastel

Que é repousado no papel

Toalha,

Vinho seco gelado

Até a pinguinha ardente.

 

Tem melado da fresca cana

Por nome de “Melado da Cabana”.

Até o mel com queijo

Acompanhado de amendoim do beijo.

 

O peixe frito na hora

Não deixa o freguês ir embora.

Com sal, sem sal,

Frito, cozido e cru.

No bar da Lena tem de tudo.

 

Só não tem o fiado

Este é danado.

Se vender, o João não paga

E arruma encrenca

 

 

                 

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Fim da quaresma

Fim da quaresma

 (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

                Lentamente a noite chega na “Quinta-feira Santa”. É noite, é vento soprando e balançando os cabelos da morena que vai apressadamente para casa. Na mão direita, segura firmemente a pequena sacola de plástico com o emblema do supermercado onde ela comprou o bom e saboroso pedaço de bacalhau e o peixe de preferência. Também, Dona Maria, assim chamada a varredeira de rua lotada na prefeitura municipal, caminha apressadamente carregando algumas sacolas com produtos que foram comprados no mesmo supermercado onde a moça comprou. Provavelmente, deverá ser peixe, bacalhau, batatas e outros componentes para a bela bacalhoada que será servida na Sexta-Feira da Paixão.

                Seu Eduardo, o ancião de mais de oitenta anos, se preparara para sair da residência. Está impaciente e a cada minuto olha as horas no lindo e exuberante relógio de bolso, que recebeu de presente do filho que reside na Itália. Pega a bengala e diz para a esposa que irá para igreja, mas antes precisa ir à casa do compadre Júlio, que também se prepara para saída misteriosa. No fundo da rua, a bem humorada Valéria, senhora alta, corpulenta, que usa ouro nos dentes e o lindo lenço sobre os alvos cabelos e se veste com o vestido preto mascarado da cor rosa, também se despede da filha dizendo que irá à missa, pois precisa chegar cedo para encontrar o bom e confortável lugar no salão da igreja. Pedro, Eduardo e Fernanda fazem o mesmo e bem vestidos se dizem ir à missa, mas logo se reúnem perto da praça do cemitério e entram na perua do Manoel, outro de mais de oitenta anos de idade, que também disse para a família que iria à igreja.

                Já dentro do veículo, seguem eles pela estrada de terra, passando por quatro mata-burros e sobem na direção da serra. Não falam nada entre si. Somente se comunicam uns com os outros por meio de pensamentos e alguns gestos alheios ao conhecimento humano. Na clareira no meio da serra, o veículo entra pela estrada cheia de buracos e grandes e altas árvores que mal se diferenciam os trechos da estrada e debaixo da maior e escura árvore, a perua para e os faróis são desligados. As portas de abrem e todos os ocupantes descem sem conversarem e sem olharem uns para os outros. O forte clarão se forma e relâmpagos são vistos, mas não são luzes naturais e nem mesmo fenomenais. A forte luz que brilhava não parecia ser deste mundo. Em cores vermelhas, azuis, amarelas e verdes, ela encobria a todos os que ali estavam. Eduardo, Valéria, Pedro e os demais foram encobertos pelo clarão e logo se ressurgiram de formas bem diferentes, bem horripilantes que assustavam quem ali estivesse ou passasse por perto. Quinzinho, o velho mateiro, que sempre andava pelas matas à procura de raízes, plantas medicinais, flores exóticas e outros produtos da flora estava ali por perto e viu tudo, sem pregar os olhos um segundo sequer. Viu ele criaturas peludas, sem formas oficiais e sinistras. De tanto medo, largou os achados e saiu correndo mata afora e se escondeu na copa de alguma árvore e lá permaneceu.

                Assim, a clareira foi recompondo, mas ao alto parecia vir algo diferente acima daquele grupo e até mesmo iluminou Quinzinho, que permanecia trêmulo e medroso nos galhos da árvore. Algo que dissipava forte calor, com luzes mais fortes e brilhos diferentes de tudo conhecido.

                Não era Eduardo que falava, mas um verdadeiro monstro, com mais de dois metros de altura, peludo desde a cabeça até a ponta dos dedos, olhos vermelhos bem fortes, nariz grande, boca imensa e dentro dela se viam longos e apontados dentes bem níveos. As mãos eram cheias de pelos, com longos e afinados dedos e se viam grandes e poderosas unhas que mais se pareciam agulhas afiadas e preparadas para quaisquer ataques e as pontas eram vermelhas como o sol no final do dia. Valéria não era reconhecida. Sua altura era ainda maior. Os braços se alongaram e as pernas também. Não se viam unhas, mas um agrupamento de matéria grossa, negra e calcificada como a forma do casco de algum animal tal como burro ou mula. Não se via a cabeça, mas algo em forma de chaminé e dele saiam lavaredas de fogo na altura de três a quatro metros e voz era desfocada semelhante a megafone e oca. Os homens se transforam nas figuras semelhantes à de Eduardo e as mulheres tais como Valéria, mas as figuras de Eduardo e Valéria se destacavam e, possivelmente, eram os chefes de todos os que ali estavam.

                Então, a figura de Eduardo foi logo dizendo:

                - Acalmem-se nobres amigos. Hoje é o último dia da quaresma. Temos nossa reunião anual e a prestação de contas destes quarenta dias que saímos e assustamos as pessoas. Lembrem-se que estamos sendo vigiados pelos amigos lá do alto. Eles estão presentes aqui e não gostam de mentiras. Quem mentir não mais se reunirá no próximo ano. Irá embora para sempre no decorrer deste ano até o dia em que reuniremos novamente.

                Foi silêncio total. A forte luz brilhava mais forte sobre eles e viu-se algo descendo sobre a luz. Figura sinistra, que parecia ter chifres, vestido de roupas vermelhas ou coisa semelhante. Foi logo dizendo com voz firme que mais se parecia o som do mais estrondoso e barulhento trovão.

                - Pedro! É a sua vez de prestar contas...

                Meio caindo, mas com voz forte, ele disse:

                - Nesta quaresma não foi de grande sucesso como esperava.

                - Tentei assustar a Gabriela, a filha da Matilde. Ela está traindo o marido com o padeiro Pedro. Fui várias vezes no lugar onde os dois se encontram. Fiz barulho, gritei, aproximei deles, mostrei meus fortes e brancos dentes, olhei com os olhos bem vermelhos para os dois, mas tudo foi em vão. O amor dos dois é bem forte e me ignoraram. Voltei para casa triste e nem mesmo assustei os meninos que estavam fazendo algazarras nas bem equipadas bicicletas.

                Furioso, a criatura não gostou do depoimento de Pedro e fala:

                - Foi seu último ano. Já sabe o que acontecerá.

                - Vamos, Júlio, falar um pouco de você.

                Júlio se levanta apressado, mas dá uma pequena desequilibrada e cai. Logo, se levanta novamente e fala:

                - Não fiz nada. Nem mesmo saí nas noites de sexta-feira. Fiquei internado no hospital por diversas vezes. Tomei soro e sangue na veia. Não aguentei. Na última sexta-feira, tentei sair, porém faltou-me energia e nem de casa consegui. Hoje eu vim porque era obrigado e o compadre Eduardo ficou insistindo comigo. Não tenho mais forças e sei o que acontecerá comigo.

                A figura sinistra não achou bom o relato de Júlio. Fechou a cara e soprou-lhe algo parecendo fogo e logo o pobre coitado foi desfigurado e voltou à condição natural, mas desacordado próximo à segunda árvore ali perto.

                Pedro falou a mesma coisa de Júlio. Foi, também, desfigurado e ficou desacordado perto do companheiro.

                Fernanda foi logo dizendo, mesmo sem ser chamada.

                - Fiz tudo o que diz o manual de “Mula”. Sai correndo pelas ruas, assustei os varredores da prefeitura, quebrei as cercas da fazenda do Altair e misturei gado, bezerros, porcos, galinhas e angolas. Pus fogo no pasto e tomei um tiro na nádega direita. No outro dia fui ao hospital e lá encontrei o danado. Ele me olhou com cara ruim e ainda bem que não sabe que fui eu. Se descobrisse, seria morta ali mesmo.

                A figura sinistra olhou e logo o sorriso saiu.

                - Muito bem! Muito bem!

                - Será coroada a rainha do próximo ano, porque a Valéria sairá de cena neste ano. Fale, Valéria, o que fez?

                Valéria, meio trêmula, com medo e com a voz fraca disse:

                - Perdão, meu superior, perdão! Vossa Alteza! Neste ano não fiz nada. Recordei de minha bravura, de minha esperteza em correr pelas ruas, em morder nas mulheres, em espantar cavalos e povos e admiro muito minha amiga que me substituirá na próxima temporada.

                Continuando, foi falando:

                - Minha filha me deu de presente um lindo aparelho celular. Ela mesma colocou internet em minha casa e me ensinou a mexer no aparelho. Estou viciada em ouvir música, em ler as fofocas que são publicadas, em olhar o “facebook” e estou participando ativamente das missas. Estou redimida e cumpri meu tempo como “Mula sem cabeça”. Só quero agora é rezar e mexer no celular.

                A figura não gostou quando Valéria disse que se redimiu e queria somente rezar. Fez careta e o encanto de Valéria sumiu, porém, a fé forte dela não abalou e ela foi encostada no canto junto aos colegas desacordados. Ela ficou firme e tirou da bolsa o celular e foi verificar as notícias do watzap e do facebook.

                Assim a figura foi interrogando todos que ali estavam.

                Quinzinho, escondido nos galhos da árvore, via e assistia tudo o que acontecia. Quis tirar o celular do bolso para filmar, mas a figura sinistra disse:

                - Tem alguém nos espiando e pela lei terei que matá-lo ou morder nele para fazer parte de nossa seita.

                Ouvindo aquelas palavras, Quinzinho não deu outra chance. Imediatamente desceu da árvore e saiu correndo e caindo pela floresta. Sua iluminação era a luz da lua cheia que brilhava no céu. Em pouco tempo estava em casa e dizia para a esposa para não abrir a porta para ninguém, principalmente para Valéria, Eduardo e os que estavam naquela reunião. Arranhões e espinhos eram vistos nos braços e pernas dele. No outro dia, quando amanheceu e o sol estava forte, com muita luz, ele foi ao hospital para fazer curativos e sempre olhando para os lados para não ver os participantes da reunião.

                Todos foram interrogados pela figura sinistra.

                Quando o dia estava quase amanhecendo e as luzes da cidade começavam a ser apagadas, tudo voltou ao normal. Os que estavam desacordados se acordaram e ninguém estava mais com trajes e formas estranhas do normal. Eles, com fortes dores de cabeça, tiveram forças para entrarem no veículo e nada comentavam entre si. Um a um chegou em casa e alguns familiares já estavam preocupados.

                Os dias foram passando. As pessoas que foram apontadas como ineficazes pela figura sinistra morreram no decorrer do ano. Daquela turma, duas ou três permaneceram vivas e com mais disposição para viver.

                Valéria, com muita fé e temente a Deus, permaneceu viva e mudou para outra cidade maior e ficou ali cuidando da netinha e sempre fuçando no celular.

                Assim, a próxima quaresma terá pouco lobisomem e pouca mula sem a cabeça, porque os que descumpriram as promessas foram eliminados e os que permaneceram terão longos caminhos e muitas prestações de contas com a criatura sinistra.

 

               

 

 

 

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Dia dos doces

Dia dos doces

 (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

Sexta-feira da Paixão

Tem doce de montão

Na casa do João,

Filho do Salomão.

 

Tem o arroz doce,

Com canela, servido pela Joice,

Sem burocracia, sem chatice,

Que diz quem não o come é burrice.

 

O doce de leite

Feito do gordo leite

Tirado da vaca da Neide

Lá na Fazenda do Azeite.

 

Não se esqueça do doce de goiaba,

Feito pela Maria Baba,

Usando o chapéu de aba,

Também recheado com catuaba.

 

O queijo veio da fazenda do Sapo,

Aquele que gosta de um bom papo,

Conhecido também por “Trapo”

Que gosta muito de falar “Vapo”.

 

Assim caminha a Sexta-feira Santa,

Com doce, queijo, bacalhau e refrigerante “Fanta”.

A música o Júlio inventa,

Até a chegada da janta.

 

 

 

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Alma de poeta

Alma de poeta

 (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

Será que o poeta tem alma?

Será que o poeta tem condições de refletir

O que sabe e o que não sabe?

 

O poeta é humano,

Que precisa de ar para seu respiro,

Que precisa de água para viver

E até mesmo o alimento para se nutrir.

 

O poeta também é leitor,

Que busca conhecimento

Na singularidade do universo,

Expressada nas leis físicas.

 

O poeta também tem amor,

Pela linda e exuberante amada.

Tem amor pelo o que escreve,

Tem carinho por o que ler.

 

O poeta, também, é sonho,

Presenciado na noite anterior,

Pois quando acorda,

Tudo acabou.

 

Definir o poeta como apenas autor,

Escrevendo versos simples e singelos.

Sua consulta, o dicionário,

Seu presente, o poema.

               

 

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Papo de carnaval

Papo de carnaval

 (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

                Seu Domingos, mais conhecido por “Duminguinho” era o sujeito bem popular na cidade. Com meia idade, sempre gostava de carnaval. Desde criança, conforme relataram familiares, ele amava a folia, a batucada, a bela fantasia que se vestia a cada ano e nunca repetia nenhuma alegoria. Ganhava a vida trabalhando ambulante na cidade. Ora limpava lotes e terrenos para famílias, ora fazia colheita de café, dirigia trator e ainda vendia legumes e frutas na feira.

                Ano após ano, ele sempre estava na vida laboral. Não casou, porque certa vez disse que o casamento seria prejudicial para ele, porque gostava de ser livre, de ser do jeito que era e jamais queria manter laços com ninguém e o carnaval para ele era tudo.

                Durante o ano, ele não bebia, nem mesmo passava perto de algum boteco. Nos finais de semana, o churrasco estava consagrado e convidava amigos para o banquete. Ele mesmo temperava e assava, mas a carne predileta era a de porco. Assim todo o ano.

                Quando faltavam três dias para o carnaval, ele mesmo preparava a fantasia. Chapéu de palha novo, camisa nova, mas remendada por ele mesmo. Segundo falava, os remendos eram para que outras pessoas pensassem que ele estivesse com as economias baixas. Calça jeans, botas novas e bem limpas. Assim, a fantasia estava pronta e lá ia ele para a avenida. Ajudava a puxar carros alegóricos das escolas de samba, organizar filas e até mesmo se aventurou ser o puxador do samba enredo de algum ano.

                Após as ajudas de praxes, ele entrava no primeiro bar que aparecesse e bebia a cachaça mistura ao vinho. Quando já se fartava e dava sinais de embriaguez, ele saia andando e cantando o pequeno verso que compôs há algum tempo: “Bebo a cachaça, mas não bebo o juízo”. Assim ia repetindo os mesmos versos até que o efeito da bebida passasse.

                De ressaca, era o primeiro a chegar à padaria do João e lá pedia o café mais forte, acompanhado de pão com manteiga. Comia e ia para casa dormir e descansar para voltar à noite, fazendo a mesma coisa da noite anterior.

                Falava, também, que havia presenciado a reunião de alguns anciões da cidade onde combinavam a noite de lobisomem e mula sem cabeça.

 

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Chuva da noite

Chuva da noite

 (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

Cai a chuva

Para irrigar a uva

Plantada ao pé da serra

Na melhor terra...

 

Cai a chuva fina

Para alegrar a menina

Que plantou as rosas

Que colherá para as festas.

 

Cai a chuva no telhado

Para lavar o arado

Que o terreno preparou

E no dia anterior findou.

 

Cai a chuva na bananeira

Onde serena como peneira

As pequenas gotas

Molhando as botas.

 

Cai a chuva na ladeira

Molhando a bananeira

Verde como a esperança

No sorriso da criança.

 

Cai a chuva novamente na terra

Molhando a serra,

Onde a vida renasce todo dia

 

Cai a chuva sobre você

Que este poema merece,

Pois a chuva é vida e aparece

Para acabar o estresse.

 

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Coqueiro

Coqueiro

 (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

Coqueiro alto e robusto

Está quase perto do céu.

As folhas movem em razão do vento

Balançando o pequeno tico-tico.

 

Ao fundo a nuvem negra

Anuncia que haverá chuva

Forte, com muito vento

Balançando o pequeno tico-tico.

 

Entre o coqueiro e o poeta

A distância é grande,

Mas a chuva será forte

Balançando o pequeno tico-tico.

 

Alguns pássaros voam por perto,

Não querem ali pousar.

Ficam pensativos em ver o coqueiro forte

Balançando o pequeno tico-tico.

 

A tarde vai findando

Com rumores de noite de terror,

Pois a chuva se aproxima destemida

Balançando o pequeno tico-tico.

 

As gotas caem espaçadas

Molhando tudo que está por perto.

O vento sopra mais forte,

Derrubando o pequeno tico-tico.

 

 

 

                 

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Janeiro

Janeiro

 (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

                Janeiro se foi. Com ele, as lembranças da vida.

                No primeiro dia, foi a celebração do réveillon, com ceia, festa, votos de feliz ano novo, abraços, beijos, uso de vestes brancas, que simbolizam a paz, a harmonia e o amor entre as nações.

                Dona Maria festejou os beijos que recebera do esposo, dos filhos, dos netos, dos genros, das noras e até da vizinha, quando a viu nas primeiras horas da manhã do primeiro dia do ano.

                Nas igrejas, padres e pastores celebraram a entrada do novo ano, com orações, preces e recomendações para o curso do ano.

                Sim, foram as festas. Não pode deixar de lado o dia de “Reis”, onde o Sebastião, a Maria, o Pedro, o Amarildo, a Conceição e outros mais se reúnem para a formação da folia de reis. Festa folclórica e popular, pois a fé de muitos que participam traz a alegria e a devoção aos Santos Reis, sendo o cântico dos reis, acompanhado por violão, sanfona, pandeiro, caixa seca e outros instrumentos fazem a alegria e a figura garbosa do palhaço, que se veste de roupas coloridas e dança ao som da cantoria.

                Não se pode esquecer da festa de São Sebastião, que se comemora no mês de janeiro. É linda, é dinâmica e com o gosto de fé para iniciar o ano com prosperidade, com elegância e com sonhos e conquistas.

               Esquecer jamais, que no mês de janeiro ainda são férias para todos. O João pediu férias no trabalho, a Márcia, como patroa, também deu férias aos funcionários para que ela pudesse viajar para praia, juntamente com a família e até levou o cão de estimação.

                No meio escolar, estudantes aguardam ansiosos pelo resultado do “Enem”, que é a ponte para o acesso às escolas públicas universitárias.

                Pedro descansa suavemente no sítio do avô. Está de férias e lá, também, inicia o trabalho de conclusão de curso, pois está prestes a formar em agronomia.

                Márcia espera o resultado do vestibular. Sua preferência é medicina e sonha, no futuro próximo, ser médica e se especializará em pediatria.

                Um dos sonhos de Juliana é a aproximação do dia 25 deste mesmo mês. É data fundamental para ela e para Júlio, porque os dois se formarão a mais nova família. Vão se casar e pretendem viajar em lua de mel para Londres.

                Uma grande felicidade é de Joana. Ela está contando as horas para dar à luz o filho Antônio. Conta ela as horas, os minutos e os segundos. O parto deverá ocorrer em meados do mês e seu pai, Sr. Geraldo, disse que irá fazer uma bela festa no dia do batizado, pois será o primeiro neto dele.

                Paulinha está feliz. Irá fazer o exame para se transformar em motorista. Caso consiga, será presenteada pelo lindo carro que receberá dos pais.

                O mês de janeiro também será festa para o Tomaz. Arranjou o primeiro emprego de sua vida. Nele, já sonha em juntar dinheiro para custear os estudos e ajudar a mãe, viúva do finado Paraíso.

                Dona Sabrina não está nada feliz. Neste mês de janeiro, ela completará mais um ano de vida. Não gosta ela de comentar a idade, mas, para a família, ela conta com oitenta e seis anos. Ao lhe desejar parabéns, ela briga e xinga. Diz, cheia de vida, que ainda é a garotinha de vinte e poucos anos.

                Assim, é o mês de janeiro para a humanidade. Uns choram, outros sorriem, outros cantam, outros brigam, outros contam vantagens e sonhos para o futuro. Na música, o cantor Toquinho canta e escreve que “a vida é uma astronave que tentamos pilotar”. Então se caminha a humanidade para o futuro desconhecido, para o futuro baseado nos sonhos e na rotina da vida.

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Sobras

Sobras

 (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

Sol escaldante do meio dia.

O gado busca abrigo debaixo da sombra da árvore.

Alguns pássaros voam em várias direções,

Enquanto o gavião observa tudo pousado no cupim.

 

Flores murcham para se esconder do calor,

Borboletas não encantam a beleza

Da primavera que se finda,

Lá do alto da colina.

 

Enquanto no monte de ciscos

Ramos e plantas secam

Amontoadas às outras

Pois foram ceifadas e consideras daninhas.

 

As raízes secas

Mostram que agonizaram antes da morte,

Sem água, sem o verde,

Sem a beleza do viver.

 

Assim poderão transformar em matéria orgânica,

Quem sabe serem aproveitadas para a agricultura.

Poderão ser cinzas que ficarão sobre à terra,

Se o agricultor, no fogo, as puser.

 

 

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Abelhinha

Abelhinha (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

Nos ares de primavera

Com o sol forte

Fazendo sombra

Onde o lavrador descansa

Por instante,

Pois no rosto abraçado

Marcas vermelhas

Mostram o calor fervescente.

 

A abelhinha voa serenamente,

Entre as flores do laranjal.

Ela é uma das muitas que ali flutuam

No ar fresco,

Atraída pelo doce e contagiante perfume

Das alvas flores.

 

Voa de cima para baixo,

De baixo para cima.

Não tem direção,

Nem mesmo seu plano de voar.

 

Pousa na mais linda e branca flor,

Mas subitamente sai dali apressada.

A vespa é maior do que ela,

Porém, ela não quer confusão.

 

Depois de muito tempo,

Já farta do néctar fresco,

Toma alguma direção

E ali não mais aparece.

Outra abelhinha pausa o trabalho

Indo em direção do lavrador que observa.

Ele bebe a água no bico da garrafinha,

Despejando o resto no solo quente.

Então ela pousa naquele lugar

Para, também o líquido tomar.

 

 

 

 

 

 

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Os fofoqueiros

Os fofoqueiros (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

Na cidade dos Sonhos

Tem três fofoqueiros,

Que todos os dias,

Faça sol ou faça chuva

Bem vestidos,

Até nas mãos luvas.

 

Sentam-se no banco da praça.

De vez em quando, uma graça

Para a Maria Solteirona,

Que todos os dias vai à padaria.

 

Comentam sobre o advogado Mário,

Falam-se entre eles que é otário,

Por amar a mulher do estrangeiro.

 

Contam o número de pessoas que ali passam,

Que roupa se vestem

E até os endereços.

 

Certa manhã comentaram sobre a Júlia,

Que se divorciou

E a um deles falou.

 

Comentaram que o padre falava muito nas missas

E poucos os fiéis ficavam lá.

Disseram que a prefeita

Foi à capital buscar recursos.

 

Assim é a vida dos fofoqueiros.

Todos aposentados

E nada fazem.

Somente falam da vida alheia.

 

 

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Professor (a)

Professor (a) (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

               
            Quem diria, a Mariinha virou professora. Feliz, também, o Paulo é mais um professor de Matemática. Palmas para a Cristina, que se dedicou aos estudos e hoje ocupa a cadeira de Direito Penal na faculdade. Melhor, ainda, foi o José, que cresceu lendo os livros, que soube fazer a fórmula de Física, que sempre olhou para o universo, que propôs hipóteses e, hoje, está à frente do grande telescópio atual e se tornou cientista.

                Feliz, também, está o João. Estudou muito, mas se tornou o grande empresário do momento. Não se esqueça do Plínio, da Lourdes, da Poliana, do Pedro, do Artur, da Marli, da Cidinha... Todos eles estudaram. Ocupam posições de destaque na Medicina, na Engenharia, no Direito, na Administração, na Contabilidade (este autor), no mundo dos negócios e nas ciências do ensino.

                Todos passaram pelo crivo dos educadores: Herci, Maria Amélia, Perpétua, Claire, Anita, Théo, Anésia, Mércio, Cleusa, Fátima, Lourenço, Élio, Maria Helena, Júlio Flávio, Ana Lúcia, Osmar, Elaine, Nedir, Neuza e outros.

                Triste foi o Joaquim, que não quis completar os estudos. Desistiu nos primeiros dias, mas teve sucesso nos negócios e sempre lembra que não terminou os estudos.

                Assim, o Marcos, o Antônio e outros mais. Muitos se tornaram grandes nomes, mas outros não conseguiram.

                Então, a homenagem é para todos aqueles que escolheram a missão de educar. Sim, ensinar é colocar os números, as letras, as teorias, a honestidade, o caráter, o dever de transformar crianças em adultos no futuro. É deixar o lar, que muitas vezes está cheio de problemas e levar o aprendizado a pequena, a média, a adulta criança que está dentro de cada um.

                Ser professor é o ato de amor, é o ato de querer ver que tudo mudará quando existe educação, quando existe aprendizado. Como dizia Monteiro Lobato “Que um país se faz com livros e homens”, então poderia ter completado que o país, além dos livros e homens, deveria ser mencionado o complemento “professor”.

                Então, deste autor, um forte abraço a todos os meus professores, que não hesitaram em ensinar-me a ser o que sou hoje. Aos que se foram para junto de Deus, as merecidas lembranças, que podem construir um belo livro.

                Então, a todos professores, vivos ou que estejam na presença de Deus, meu forte abraço e cumprimentá-los pelo “Dia do Professor”.

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Vento

Vento (José Carlos de Bom Sucesso – Contador e Escritor – ALL- @josecarloscontador

 

Sentir o vento no rosto,

Remexendo os cabelos

Da linda mulher na calçada.

 

Sentir o frescor pelo corpo,

Do trabalhador todo suado,

Até para ao sorver o ar puro.

 

Sentir a tarde ventosa,

Onde as folhas da grande árvore

Caem sobre a calçada, também repleta de folhas.

 

Sentir o bailar das sensíveis flores,

No jardim repleto de rosas

Que se desfolham e ao esmo se vão.

 

Sentir que o dia finou,

Somente restaram as fortes lembranças

Do coração partido por algum ato de amor.

 

Sentir que o vento poderá levar

Os maus pensamentos do caboclo,

Que luta constantemente em busca do bem-estar.

 

Sentir o vento no rosto,

Sentir o vento pelo corpo,

Sentir o vento secando o suor

Da tarde de muito calor.

 

Sentir, também, o vento da chuva,

Que se aproxima no horizonte.

Negras nuvens se espalham

Em forma de redemoinho

Que vão balançar o longo cabelo

Da morena entretida ao celular.

 

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Folhas de ipê

Folhas de Ipê (José Carlos de Bom Sucesso – Academia Lavrense de Letras) @josecarloscontador

 

                O escaldante sol queima tudo o que está à frente. Não respeita nada, nem mesmo a minúscula plantinha que sobe a camada dura do solo para sobreviver. Caso supere todos os obstáculos, ela será a verde planta, um pé de serralha, que por pouco tempo crescerá, ficará bonita, dará folhas bem verdes e soltará as flores, que servirão de enfeite para o atento fotógrafo registrando-as com as potentes lentes. Chegará um dia em que a cor verde se renderá ao amarelo, secando, assim, a maravilha e a beleza da planta.

                Não muito distante, apenas alguns metros, a imensa árvore de ipê amarelo está toda florida. Suas flores são a verdadeira riqueza que a natureza ofertou para o ser humano. Quando se olha ao longe e nota a paisagem toda seca, o cérebro logo focaliza as flores amarelas, que mais se parecem com baldes de ouro vindos do céu e estacionados sobre os galhos da árvore.

                Maritacas verdes enfeitam as flores amarelas, que mais se parecem com as cores da bandeira do Brasil. Também, lá, o casal de beija-flor voa desesperado por todos os cantos. Não deixa que as abelhas voam e pousam sobre as flores. Eles, os beija-flores, são os donos da imensa florada amarela. Moscas se atrevem na aproximação, mas são ligeiramente espantadas pelos esfomeados colibris, que recebem ajuda das maritacas fazendo muito alvoroço e sendo os gritos escutados por uma boa distância.

                Assim, o inverno vai despedindo daquele ano. O rastro seco, o rastro de tristeza, o rastro do frio e o rastro do desespero do humilde lavrador estão indo embora. Está deixando para trás as manhãs frias, as manhãs onde tudo amanhecia triste, somente a nebulosidade e a névoa matinal cobriam as árvores e arbustos. O pasto seco e sem vida fornece o capim para o gado que ali pasta.

                Desta forma, as folhas do ipê já estão no solo. São muitas. São dezenas de centenas. São até o que a mente humana consegue contar. Formigas saem da toca e caçam algo para o sustento da prole.

                O intelectual lavador, de posse do carrinho de mão, a enxada, a pá e outros equipamentos junta as folhas e as deposita junto à sombra do coqueiro. Lá, usando algo cortante, vai amassando e quase as transforma em pó. Quanto já terminado o trabalho, adiciona água e deixa as folhas secarem por completo. Feliz, ele as mistura na terra e fará vários canteiros, onde alface, pimentão, couve e outras verduras serão plantadas e adubadas pelas lindas e fortes folhas de ipê.

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Rumores de primavera

Rumores de primavera (José Carlos de Bom Sucesso – Academia Lavrense de Letras) @josecarloscontador

 

                A brisa toca lentamente o rosto de Ritinha. É final do mês de agosto. Tudo seco: Pastos, gramas e vegetação. Pássaros cantam tristes nas abas das árvores mirradas pelo excessivo frio e a falta de chuva para o período. O casal de tico-tico ainda solfeja a linda e harmoniosa canção nos galhos da jabuticabeira, pois no caule, pequenas pintas, que anunciam as primeiras flores para a geração das lindas e saborosas jabuticabas.

                A menina olha para o horizonte e ainda vê parte negra meio azulada. É sinal de que a estação fria chega ao fim. Ao longe, há sinais de fumaça em forma de funil. É fácil deduzir que está havendo queimadas por falta de descuido ou indícios de crime contra a natureza.

                Olha para o firmamento da tarde e fixa nas pequenas nuvens que vão vagando a céu afora. São rápidas, são passageiras. São brancas e a cada momento elas formam figuras que a mente humana ainda consegue decifrar. A garotinha brinca com a inteligência e vai associando o embaciamento a formas de pássaros, cavalos, lobos e outros seres. É fantástico, diz ela com a voz forte e delicada.

                O forte grito da seriema lhe dispersa a atenção. Não muito longe, ela procura pelo som emitido pela ave. São duas ou três, pensa consigo mesma. Deve ser uma família que volta para o ninho, não sei.

                A rajada de vento é tão forte que eleva os cabelos ao alto. Ela, por si, procura ajeitá-los olhando para chão. Parece que a minúscula partícula de poeira pousa sobre o olho direito. É rápida a passagem. Em poucos segundos não mais há nada no olhinho verde da garotinha de dez anos.

                O desviar do olhar mira na árvore grande bem próxima a ela. Tudo seco ao redor, mas na planta, no mais alto galho, surgem algumas flores amarelas. Tão lindas que a natureza as criou para dar alegria e esperança a quem lhes observa. São muitas, são o ouro da vida, que suavizarão o período negro, de secura, a solidão e lugubridade. Então ela observa e diz: São as flores do ipê amarelo. É o prenúncio da primavera, a estação das flores, a estação dos pássaros que cantarão as lindas e belas canções. A alegria chegou na forma das lindas flores amarelas, que, por pouco tempo, durarão. Então, a chuva chegará para alegria, porque neste dia, são rumores da primavera.

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Grilo

Grilo (José Carlos de Bom Sucesso – Academia Lavrense de Letras) @josecarloscontador

 

O grilo cantou

Para anunciar

Que o inverno acabou.

 

Nas noites de primavera

A cantoria é grande

Pois o frio terminará.

 

Canta um no início do jardim

O outro responde no outro canto,

Pois o inverno chegou ao fim.

 

As formigas acordam do sono profundo,

Cheias de fome e querendo o ninho nutrir,

Vão à caça das folhas para alimentar o fungo.

 

O sapo também grita perto da lagoa,

Pois as noites estão mais quentes,

Faz muito barulho e não quer ficar atoa.

 

Outros grilos cantam...

A serenata mais profunda e linda,

Porque os lavradores se encantam.

 

Virá a chuva para o plantio

Com mudas e sementes novas,

Alegrando as terras do sítio.

 

 

 

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Promessa

Promessa (José Carlos de Bom Sucesso – Academia Lavrense de Letras) @josecarloscontador

 

 

Quantas lembranças

Estão na mente,

Até mesmo o escritor

Que hoje fez o texto para o doutor.

 

Não pensou muito e escreveu

Em pouco tempo leu...

Que de tudo cumpriria

Até mesmo o que se esqueceu...

 

Prometeu amor a tudo,

Até mesmo ao código de ética,

Mas distanciou do juramento,

Porque ficou muito perdido...

 

Vieram as fatalidades,

Até mesmo das poucas idades.

Não mais sorriu

Nem mesmo a cara abriu.

 

Lembrou do amor passado,

Lembrou o presente futuro.

Lembrou que o tempo ainda viria,

Mesmo tarde, mesmo tardia...

 

A promessa ficou para trás,

Nem mesmo ligou que era a promessa,

De muitos anos, de mais anos,

Que o tempo amarelou.

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Recordando o passado

Recordando o passado (José Carlos de Bom Sucesso – Academia Lavrense de Letras) @josecarloscontador

 

A cidade está em festa. Na praça principal há barracas, exposições de trabalhos artesanais e artísticos, praça de alimentação, com vendas de sanduíches, caldo de feijão, caldo de mandioca, bebidas diversas, sorvetes e picolés, exposição de quadros e fotografias e música ao vivo.

Marco caminha pela praça onde estão ocorrendo os eventos. Cabisbaixo, sempre olhando para tudo e não perdendo nada, por um momento para defronte à barraca onde biscoitos, pães e algumas guloseimas são comercializados. À frente, o forno de tijolos construído para retratar as quitandas que eram assadas e alguns fogões à lenha que relembravam a história antiga, ou seja, o período por volta dos anos quarenta até meados dos anos oitenta, mas, em algumas fazendas e sítios, a prática ainda é feita: Assam pães de queijo, biscoitos, roscas e demais produtos no grande forno, que sempre está perto do cômodo da cozinha.

Com seus cinquenta e poucos anos, ele olha para o forno. Procura algo de especial ali. Vê que ainda há brasas que ardem fortemente e a fumaça exala o odor direcionado para o rosto magro, com barbear feito no dia anterior. Procurando ele esquivar-se, onde os olhos lacrimejavam a sensação da fumaça, deu alguns passos para frente e quase se chocou com o dono da barraca, com lindo sorriso nos lábios, foi logo dizendo:

- Bom dia! O senhor está gostando das ornamentações desta praça?

Meio espantado, pois ainda não estava atento às movimentações do local, ainda assustado com a linda e afetiva informação do barraqueiro, passando a mão direita sobre os olhos, pois a fumaça ainda o perturbava, assim respondeu:

- Bom dia, senhor!

- Estou eu aqui, após vários anos sem retorno a esta cidade.

- O tempo passa, às vezes a saudade aumenta.

- Não tenho tantos conhecidos aqui, pois, ainda muito jovem, fui obrigado a mudar para a cidade grande, porque era preciso.

- Cresci entre arranha-céu por todos os lados. Ruas asfaltadas, carros, caminhões, ônibus, ambulâncias e buzinas por todos os lados. Pessoas que correm e muitas das vezes negam um “bom dia” e, até mesmo, “boa noite”. Tudo gira em forma do “Eu”, do desconhecido, do reverso, da ingratidão, de pensar que tudo que está a sua volta é crime, é marginal, é violência.

- Estou assustado com o calor que recebo de sua pessoa, neste momento.

O homem olhando para aquela pessoa de bonita aparência, bem vestido, com relógio de marca no braço, com telefone celular de última geração, ficou parado e pensava consigo mesmo que seria mais um problema na vida.

Então Marco assim disse:

- Recordo-me de quando ainda era criança.

- Meu pai tinha um terreno aqui por perto, ou seja, para chegarmos até esta cidade, tínhamos que pegar ônibus.

Continuou a contar. O barraqueiro escutava com muita atenção. Até parou com os afazeres. Pegando dois banquinhos de madeira, ofereceu um a Marco e outro para ele. Os dois sentaram-se e Marco continuava a falar:

- Obrigado por escutar-me, mas morávamos no sítio.

- Ainda pequeno, meu pai pedia que minha mãe vestisse a minha irmã e a mim.

- A bermuda vermelha, a minha predileta, a camisa branca de malha, onde havia a estampa do Mickey. Nos pés, o negro e bem limpinho kichute e meias pretas.

- Andávamos por cerca de dez a quinze minutos. Lá, já estávamos na estrada principal e aguardávamos o ônibus para esta cidade.

- Se chovesse, tínhamos a capa e a sombrinha de minha irmã. Eu não gostava de agasalhos. Preferia sentir frio e ficar molhado, pois amo a chuva. Na poeira, ficava sempre limpando o kichute, pois, para mim, era o sinônimo de liberdade e conquista.

- Então, o ônibus chegava. Sempre eu era o primeiro a entrar e nem mesmo esperava que outras pessoas descessem naquele ponto. O motorista, por nome João, sempre me xingava e dizia que eu era sem educação. Não importava, porque eu sempre sentava na primeira poltrona e assim ia vendo a estrada até chegar na cidade.

- Passa-me na mente de véspera da semana santa virmos para as festividades. Meus pais não tinham casa aqui. Ficávamos em casa de minha avó, por nome conhecido “Fiinha”, que sempre nos acolhia e matava a saudade em ver-nos.

- Neste dia, antes de sair da casa de papai, comi muito. Mamãe fez muitas quitandas e me lembro perfeitamente o quanto comi. A barriga ficou bem cheia. Já estando dentro do ônibus, senti que o estômago estava pesado. Vieram gotas de suor no rosto, a exsudação estava intensa e bastante frio. A estrada estava bem ruim, com muitos buracos. O veículo balançava muito. Pedi ao motorista que parasse o ônibus, mas o maldito nem atenção quis dar-me. Não aguentei e vomitei no corredor do ônibus. Ele, o motorista, ainda me xingou e falou que iria eu lavar quando chegasse na rodoviária. Então, quando chegou na cidade, assim que o passageiro estava descendo, eu descia atrás dele e cheguei em casa de vovô primeiro que minha irmã.

O tempo passava e Marco contava os acontecimentos de sua vida. Agora já falava da família, da profissão de médico e cientista no exterior e muito mais ele desabafava com o barraqueiro.

A conversa foi longa. Já durava pelo menos quase duas horas.

Marco também ajudou o feirante a massar quitandas e até vender para alguns que ali estavam.

Já cansado, Marco comprou mais quitandas e, quando ia despedindo do feirante, foi assim perguntado:

- Dr. Marco, fiquei muito feliz em tê-lo como companhia nas horas passadas.

- Antes do Doutor ir embora, talvez nunca mais eu irei vê-lo, vou dizer-lhe:

- Estou recordando desta passagem.

- Lembro-lhe perfeitamente quando o senhor saiu correndo e deixou sua irmã para trás. Eu é que tive que ajudá-la a carregar a bagagem.

- Naquele ônibus, eu ainda era pequeno, na mesma idade do senhor, e o motorista era meu pai. Eu o ajudava no serviço de cobrar as passagens. Eu era o cobrador mirim.

- Então, com seu vômito, eu é que tive que limpar o ônibus para meu pai, porque se não o fizesse, seria surrado.

O espanto foi total. Marco abaixou a cabeça e lágrimas saiam dos olhos, mas escondidas pelo escuro óculos.

Marcos, assim falou:

- Quanta coincidência?

- Jamais imaginei que encontraria a pessoa que presenciou tudo. Recordei-me de ver-lhe fazendo as cobranças. Vestia você o uniforme mirim na cor azul e o chapéu kep na cabeça. Era bem exigente e gostava de cobrar rápido.

- Então, o que posso fazer para repará-lo do serviço que você fez por mim?

O feirante olhou para Marco, aquele homem de boa aparência, prestigiado, médico e cientista, morador no exterior, após dar-lhe o forte abraço, exclamou:

- Doutor! Naquele dia eu fiquei a tarde toda limpando seu vômito. Estava o regurgitamento com odores péssimos. Vomitei também. Terminei o trabalho era por volta de oito horas da noite.

- Quando fui para casa, meu pai ainda me surrou porque demorei para limpá-lo. Não jantei e no outro dia nem quis comer nada, porque lembrava daquele horrível expelir de alimentos. Até hoje, quando lembro e comento com minha família, dá-me muito nojo.

- Então, para sanar tudo até hoje, conforme o doutor pediu para reparar os danos, peço-lhe que faça a indenização de um mil e quinhentos reais, que poderão ser pagos por meio de pix, no número a seguir, que é meu CPF.

Marcos, então, efetuou o pagamento. Ainda levou muita quitanda para a família.

  

 

 

 

 

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Expressões sinistras

Expressões sinistras (José Carlos de Bom Sucesso – Academia Lavrense de Letras) @josecarloscontador

 

Às vezes utilizam-se expressões diferentes da realidade. Dona Maria vai ao açougue e lá chegando diz para o açougueiro:

- Sr. Pedro, por acaso o senhor tem coração?

O colaborador vendo-se meio constrangido, olhando para os lados e olhando para algumas pessoas que já se preparavam para a caçoada, assim responde:

- Dona Maria, minha nobre e fiel cliente deste açougue. Como a senhora sabe, o coração é o órgão muito importante do corpo humano. Ele é responsável pela vida, pela circulação sanguínea e é vital para a vida. Caso eu não o tivesse, não estaria aqui para lhe atender. Tem coração de porco, de boi e de galinha.

A manhã corria tranquila na pequena cidade. João, o caminheiro de fim de semana, entra na padaria e assim diz à funcionária:

- Dona Fulana, por obséquio, me vê um café?

A garçonete, muito educada e sempre sorrindo para os clientes, sai rapidinho do balcão. Vai até à bancada onde estão as garrafas com o líquido negro e precioso, destampa o recipiente, abre e olha dentro dele, aprecia o aroma gostoso, através de sorvida e retorna ao posto de trabalho.

João olha para a moça. Meio desconfiado, põe a mão no bolso e de lá agarra o aparelho celular. Com o dedo indicador o desbloqueia e vai averiguando as mensagens. Fica fitado por um bom período e olhando novamente para moça fala:

- Dona Fulana! A senhora não trouxe o café, conforme lhe pedi.

A moça, sorrido, assim o retruca:

- Seu João! O senhor me pediu para ver o café. Eu o fiz. Abri o recipiente e o vi lá dentro. Estava ele aromático, quente e, suponho, delicioso. Se o senhor me pedisse para lhe servir uma xícara dele, já estaria bebendo.

Antônio é pedreiro. Nos finais de semana, gosta de ir à lanchonete e tem o filho, que carinhosamente, é conhecido por “Dim”. Então lá chegando, diz:

- Gentileza me venda dois copos de suco de laranja e os leva “po Dim”. Mais isto e o leva “po Dim”.

Márcio é também açougueiro. Trabalha no supermercado da cidade. Então, o José lá chegando, diz:

- Bom dia Márcio.

Márcio responde, com alegria, dizendo:

- Bom dia, Sr. José!

O pequeno intervalo de tempo vai passando e José pergunta:

- Márcio, você tem focinho de porco?

- Você tem pé de porco?

- Você tem orelha de porco?

- Você tem barriga de porco?

- Você tem língua de porco?

- Você tem rabo de porco?

Muitas pessoas estavam por perto para comprar. Alguns riam baixinho. Outros saiam de perto e riam nos cantos. Márcio, vendo que a situação iria complicar, logo diz:

- Seu José! Chega de brincadeira ofensiva.

Continuava:

- Eu não tenho nada disto. Sou humano. Não tenho focinho, nem orelha, nem barriga, nem língua e nada de porco.

- O mercado tem os ingredientes para serem vendidos, mas eu não tenho nada de porco.

Assim é o dia de cada um. Muitos utilizam expressões desconhecidas, outros levam a sério a gramática, pois o dia se evolui a cada dia.

 

 

         

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A menina e suas velas

A menina e suas velas (José Carlos de Bom Sucesso – Academia Lavrense de Letras) @josecarloscontador

 

Na igreja, a grande multidão,

Onde pessoas iam e vinham.

As velas eram seguradas em sua mão.

O poeta não sabia quantas velas

Aquela linda menina possuía...

Eram tantas, mal cabiam nas pequeninas mãos.

Com o dedinho indicador,

Apontava para o pavio,

As unhas estavam grandes,

E no cilindro de cera

Cravava o dedinho,

Como se estivesse desenhando algo,

Que seria lembrança do passado...

Depois, contava uma a uma...

Seriam dez ou doze.

Novamente apontava o dedinho

E mais uma vez apertava a unha.

A mãe lhe reprimia dizendo para não fazer aquilo,

Mas ao descuido da matriarca,

A menininha mais uma vez aprontava.

O poeta perdia

A grande liturgia...

A visão não era direcionada para o papel,

Somente para a graçola

Da moçoila ali presente.

Quando cansou do entretenimento

À mamãe, as velas, entregou.

Apontou para bolsa e água pediu...

Coçou a cabecinha, ajeitou os cabelos

E para o padre olhou....

Não ficou muito tempo,

Novamente pediu o pacote de velas,

Iniciando novamente o ciclo

De apertar as velas com as unhas pequenas.

Então o poeta se retirou

E à porta se adentrou.

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CPP