
A CATAPULTA DAS COISAS IMPOSSÍVEIS
I .. O QUADRO-NEGRO DO COSMOS
Pertinente é a centelha que alimente
a estrela antes que o Cosmos desaprenda o lume.
Uma abelha de cor escura atravessa minha monção,
leva no dorso um cometa e regressa ao coração.
Partimos numa viagem interestelar,
com um amor sarado e um perfume zerado depois de exalado;
embalagens vazias ainda guardam antigas presenças,
como se o aroma tivesse memória fora do frasco.
No quadro-negro, um giz indolor
risca o impossível até desenhar um super verso:
“Cavernas, hotéis disfarçados nas entranhas das rochas…
ali podemos ficar nus diante da própria existência.”
El Niño move a soberba alavanca das águas:
seca de um lado, inundação do outro,
do Pacífico às Águas … o clima desaprende fronteiras.
Então o verso sofre transmutação em foguete
e decola sobre um tapete persa,
levando uma civilização inteira em sua caligrafia.
Obras persas flutuam sem paredes:
cúpulas bebem estrelas, mosaicos mastigam geometrías,
e os jardins suspendem fontes no teto do Universo.
A primeira frase impossível:
“Toda estrela é uma cicatriz luminosa que o infinito decidiu não esconder.”
II … A CIVILIZAÇÃO DO ABSURDO
Um jacaré-do-papo-amarelo, ora de rabo verde,
discute zoologia com a margem de um rio.
Nosso presidente legal e letrado, rabado
pela caricatura do próprio poder, atravessa a metáfora.
Uma síncope interrompe o etéreo.
Do céu cai uma chuva de pétalas de rosas brancas,
e uma cadeira vazia de cadeirante sorri
para os passos que ninguém conseguiu aprisionar.
Flor de jasmim, verdade de mim.
Amor de calor.
Um ofurô furado nada pensa:
Perde água enquanto imagina os oceanos.
A catapulta da guerra lança geleiras coloridas;
ninguém vence … o gelo apenas aprende novas feridas.
Que paz faz este beija-flor sugando néctar,
como se sua pequenez pudesse absolver o mundo!
Dançar, rodar, deixar a tontura
ligar dois corpos afins;
cantar enquanto os cantos pubianos
melindram delicadamente a timidez.
Nossa Senhora de Fátima atravessa a visão solitária,
enquanto elefantes de trombas irritadas
inventam milagres que nenhum zoológico explica.
Nossa Senhora, Virgem Maria,
Virgem de Origem,
uma prece procura a porta que não possui parede.
Diamante da amante.
Rubi da rabi.
Esmeralda de grinalda.
A segunda frase impossível:
“Deus deixou uma janela aberta no absurdo, e por ela escaparam todas as perguntas.”
III … IMAGINE O MAR CAMINHANDO
Imagine John Lennon talking to me
as we walk through Central Park.
As árvores escutam.
Uma folha cai exatamente entre duas palavras
e Imagine deixa de ser canção para se tornar verbo.
Um cavalo-marinho, tão pequenino e desprotegido,
carrega um oceano maior do que seu corpo.
A sedução pela humilhação da contração
encolhe aquilo que o desejo julgava infinito.
Um barquinho de papel perdido em alto-mar
recusa-se a aprender o significado de naufrágio.
Talvez coragem seja exatamente isso:
continuar sendo papel quando tudo ao redor é tempestade.
As águas do mar viajam ao planeta céu,
as nuvens devolvem oceanos em pequenas parcelas,
e cada gota traz uma certidão de nascimento azul.
O cometa regressa.
A abelha escura pousa sobre o jasmim.
O perfume zerado inexplicavelmente volta a exalar.
John continua caminhando comigo pelo Central Park,
enquanto um piano invisível atravessa as árvores;
ninguém o toca — talvez seja o vento
ensaiando a paz que a humanidade ainda não aprendeu.
E quando o Cosmos fecha sua última embalagem,
descubro que nenhuma viagem interestelar termina:
apenas mudamos de espanto.
A terceira frase impossível:
“O Universo cabe inteiro numa gota, mas nenhuma gota aceita carregar sozinha o peso do Universo.”
E lá vai o barquinho de papel,
minúsculo, molhado, absurdamente vivo,
levando nossa civilização para além do mar.
Fim
A Domingos
Agosto de 2026