A Máquina do Tempo

No fundo do armário, entre o paletó
que já não me serve e a gravata
que nunca me entendeu,
há uma máquina do tempo.
Não tem alavanca, não tem luz,
não faz barulho,
é discreta como certas tristezas
que a gente só nota quando senta.
Funciona assim:
basta tocar uma fotografia
com a ponta do dedo,
esse dedo que já assinou papéis,
apontou erros, coçou dúvidas,
e pronto:
o passado se acende
como lâmpada fraca em quarto de pensão.
Volto ao menino
que tinha joelhos esfolados
e uma confiança absurda
no amanhã.
Volto ao pai,
um silêncio com sapatos firmes,
e à mãe,
que dobrava o mundo em panos
para caber na gaveta.
Volto ao amor,
essa oficina de promessas
onde a gente fabrica eternidades
com material de pouca resistência.
Mas a máquina do tempo
tem caprichos:
também me leva ao futuro
quando abro uma carta
que eu mesmo escrevi sem saber,
um bilhete esquecido no bolso
dizendo: “você vai aguentar”.
O futuro, descubro,
é um lugar sem placas.
A rua muda de nome,
os amigos mudam de assunto,
e eu continuo o mesmo,
com a diferença
de ter menos pressa
e mais pequenas dores
para administrar.
Às vezes aperto o botão errado:
uma música me devolve
um domingo inteiro,
com cheiro de café requentado
e a sensação
de que o mundo era simples
porque eu não fazia as perguntas certas.
E há um defeito essencial,
um defeito humano:
a máquina do tempo
não conserta nada.
Ela mostra.
Ela cutuca.
Ela abre a ferida
só para me provar
que ainda tenho sangue.
No fim, desligo o armário,
puxo a porta,
finjo ordem.
Mas a máquina continua ali,
trabalhando em segredo
na parte mais escondida do peito,
onde o tempo, esse funcionário pontual,
carimba as horas
com tinta invisível.
E eu, que queria voltar
para evitar certas quedas,
entendo, com alguma raiva mansa,
que a única viagem possível
é esta:
seguir adiante
carregando o passado
como quem carrega uma mala
sem rodinhas.
O relógio insiste.
A vida insiste.
E eu insisto também,
porque não há outra máquina
senão esse teimoso coração
batendo, batendo,
como quem diz:
agora.

Enviar-me um e-mail quando as pessoas deixarem os seus comentários –

Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Casa dos Poetas e da Poesia.

Join Casa dos Poetas e da Poesia

Comentários

  • E vamos nesse embalo, continuando a buscar nosso Eldorado ou aquilo que nos faz bem. Saudações Poeticas

  • Kleber, que poema lindo, repleto de verdades. Uma leitura agradável  com um fechamento digno de um poeta inspirado. Parabéns.

    DESTACADO.

    Um abraço 

    • Márcia, seu comentário me tocou profundamente.

      Saber que o poema foi uma leitura agradável e verdadeira me deixa imensamente grato.

      Obrigado pelo destaque e pelo abraço.

  • Uauuuuuuuuuuuuuuuuuuu, que delicia de leitura KLEBER

    Abraço

    • Ciducha,
      seu comentário é desses que fazem o poema continuar depois do ponto final.
      Obrigado pela leitura generosa e pelo abraço — retribuo em versos.

  • Fui lendo e me envolvendo com a minha história por meio das suas palavras. Revi meu pai, minha mãe, meu irmão-amigo... Enfim, deixo-lhe minha gratidão por essa leitura. Que lindo texto!

    • Edvaldo, sua leitura me emocionou. Se a “Máquina do Tempo” te devolveu pai, mãe e amigo, então o poema cumpriu sua parte mais humana: acender memórias com delicadeza. Obrigado pela generosidade e pela gratidão. Abraço grande!

  • Ave, poeta Kleber! Que poema espetacular! O bardo, aqui, te saúda e te manda parabéns, com um abraço.

    • Ave, Nelson!

      Suas palavras chegam como um canto amigo Poeta

      Que bom saber que o poema encontrou eco em você.

      Receba meu abraço e minha gratidão.

  • Parabéns poeta kleber Luiz! belo poema1

This reply was deleted.
CPP