Alba
J. A. Medeiros da Luz
Iara, saudando a aurora, canta.
Por que haveria de o jaguar com fome
Abortar, do galho folhoso onde se esconde,
O salto sobre o lombo dessa capivara?
Iara, saudando a aurora, canta.
Por que a preá do brejo, farejando
Os tenros rebentos da orla de argila,
Iria estacar na trilha, num espanto,
Olvidando o roer do estômago vazio?
Iara, a saudar a aurora, canta.
Possível seria, meus senhores, que desalçassem
Seu planar na atmosfera e — corcundas, pensabundos —
Os urubus viessem a pousar
Nessas forquilhas ressecadas desse angico
Depenado de raios, a casca tostada de sol,
Quase nas fímbrias refrescante do ribeiro?
Não obstante,
O jaguar estaca o salto sobre a presa;
A preá, boquiaberta, alça o crânio, a farejar as notas;
Os urubus assuntam, filosóficos, em deleite;
Tudo porque essa musa úmida das águas,
De tranças aromadas com óleo de copaíba,
Orvalhada dos respingos d’água no lajedo
Onde, tão perfumosa e hipnótica, se acama
— tudo porque, leitora minha, ela
(Emulando Israfel, o decantado arcanjo
De coração trançado com cordas de alaúde),
Ela, Iara, se pôs a cantar, divinamente
Saudando a epifania de mais uma aurora....
Ouro Preto, 2025 — março, 20.
Comentários
Caro Domingos:
Fico envaidecido por suas palavras pautadas por generosidade. Como meu mundo não tem vivências dos escaldantes e arenosos horizontes do Oriente Médio, tristemente conflagrado há milênios, onde terá surgido o porte altivo e vaporoso de serafins e arcanjos, resta-me falar do que me foi tatuado nas páginas da infância: córregos marulhando entre pedrouços, chapadões, nhambus esquivas, capivaras atolando as patas em brejões: paisagens solares e verdejantes, enfim...
Abraço. j. a.
Prezado Poeta J A Medeiros.
Envaidecido com seu comentário e confidencias pessoais.
Eu humildemente fui criado na Roça, uma Fazenda, de criação de gados, galinhas caipiras, plantações diversas, legumes, frutas, porcos e muito mais até os dezessete anos.
Como em suas palavras conheci este mundo de natureza com bichos, animais, boi, vaca e aqueles como a preá e a cotia.
Aquele mundo de glamour não tenho muito conhecimento, não é da minha personalidade,nem de minha formação
Foi um prazer ler seu texto com algumas palavras que pesquisei no dicionário.
Não tenho uma formação cultural ampla, mas tenho o meu esforço.
Não por arrogância, mas por elegância eu tenho quatro cursos superiores e até pouco tempo atrás era fluente em duas línguas ( Inglês e Espanhol)
Fui de início professor de Português e Literatura depois fui industriário e cheguei a um boa posição na Empresa para a qual trabalhei por 38 anos.
Abraços fraternos e verdadeiros
E esteja muito bem prezado Poeta
Sua inteligência e generosidade estão na sua personalidade e ser humano.
Gratidão sempre
Esteja a vontade para comentar se precisar.
Antonio Domingos.
Caro Antonio Domingos, de extração lusitana, como nossa inolvidável Cecília Meireles! Obrigado por conosco compartilhar uma bela história de vida. O cativante dos dias que correm — chamuscados embora de tantas distopias — é que as distâncias geograficas evanescem. Podemos ter amigos enquadrados por todos os paralelos e todos os meridianos.
abraço do jota a.
Prezado Poeta J A Medeiros
Grato por suas palavras.
Saiba que meus avós vieram como imigrantes de Portugal, especificamente nascidos na Ilha da Madeira.
Aqui tem sangue Português com muita honra.
Abraços fraternos prezado Poeta J A Medeiros.
Admiro seu conhecimento intelectual de tantas vertentes... Literatura Universal e Literatura Brasileira
Tenho uma Biblioteca de Excelência, deixarei para meus netos, não sei se irão aproveitar.
Minha frustração é que li alguma coisa,mas eu deveria ter lido muito mais....Tenho uma pequena dificuldade de me concentrar na leitura....Se o que estou lendo me atrai, aí eu leio todo o livro.
Cecilia Meireles produziu muita literatura de excelência.
Meus parabéns.
Para sua referencia eu estou perto dos 80 anos.
Sobrevivendo e buscando mais alguns anos de vida...
Pessoal:
Dia desses, revendo velhos livros, deparo-me com versão de poema do genial Edgard Allan Poe, encimado por uma citação do Corão e centrado na comparação do canto triste do poeta com o do anjo Israfel, que, contam sagrados textos, inebriava a tudo e todos, em função de ele ter o coração tecido com cordas de aláude... O belo poema remeteu-me, de pronto, ao canto de sereia de nossa Iara, divindade das águas murmurejantes. Pronto: falei!