Apenas mais um ano de espera.
Enquanto o tempo passa, lavre a terra.
Espere que as sementes produzam amores.
Espere que as chuvas encharquem a terra.
Escreva mais um pouco.
Escreva que sou louco.
Escreva que o castigo não é para todos
ou então apenas escreva
as dores do meu coração.
Apenas mais um ano de espera.
O tempo passa lento.
Lá fora ouço
frases, lamentos gritados por todos,
que invadem os corredores, atravessam as paredes.
Lá fora eu ouço a vida.
Lá fora eu ouço a dor.
Escreva mais um pouco;
escreva sobre o amor.
Eu sei
que é tolice pensar em eternidade.
Aqui já não é noite nem dia,
apenas um imenso cortejo de segundos
que se arrastam por horas a fio,
na mais solitária angústia.
Apenas uma frase talhada na pedra,
apenas a espera.
Espere que a música termine.
Espere que o silêncio ilumine
com flashes de neon.
Ainda ontem eu nascia
e era tão jovem;
o coração era uma ilha,
uma enorme ilha de calor.
O sol brilhava forte no azul do firmamento.
Mas hoje tão somente delira
nesta caverna tensa e sombria.
Fala comigo uma vez, pelo menos,
neste mundo de profunda carência.
Apenas mais um ano de espera,
nesta ausencia de afeto
na negra cor destas paredes,
que cercam as coisas que chamo de tua,
envoltas em gotas de sangue que caem do teto,
deixando rubra a alma nua.
Alexandre Montalvan
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