Arrependimento

Arrependimento

 

Miguel e Laura estão a escassos minutos de se tornarem marido e mulher. Miguel veste um elegante fato, com casaco de aba de grilo, escuro, o que realça, ainda mais, a sua beleza de origem exótica, onde sobressaem os olhos verdes e o cabelo muito preto. Laura, vestida de branco e com os longos cabelos louros a brilharem sob os raios de sol, parece uma deusa. Os olhares dos noivos cruzam-se, Laura esboça um sorriso de felicidade e…ouve-se um grito vindo da porta da igreja onde decorre a cerimónia:

- Miguel, tu não me podes fazer isso. Tu sabes que eu preciso de ti a meu lado. Não te esqueças que este filho que trago na barriga também é teu.

Laura sente uma tontura. Olha para Miguel, como que a perguntar-lhe “O que é que se passa?”. O noivo não consegue pronunciar palavra, dá meia volta, agarra nas abas do casaco e corre ao longo do corredor, atapetado a vermelho, que o leva até ao local onde se encontra a estranha rapariga:

- Sandra! Porque fizeste isto? Não te pedi que ficasses quieta que tudo se resolveria?

- Ficar quieta, como querias que eu ficasse quieta a ver o pai do meu filho casar com outra? Eu não te quero para meu amante, mas sim para meu marido.

Miguel ampara a rapariga e saem da igreja. Laura tem de ser amparada pela família, tão em estado de choque como a própria noiva.

O tempo vai passando. Miguel acaba por casar com Sandra, a mãe do seu filho, e Laura acaba por reencontrar o amor na pessoa do seu psicólogo.

Os anos passam. Miguel é surpreendido por um telefonema inesperado, o seu filho foi atropelado por um carro conduzido por uma loura e encontra-se no hospital, em estado considerado muito grave. Miguel, ainda a caminho do gabinete do seu superior, vai despindo a bata que costuma usar no laboratório, todo o seu pensamento vai para o filho, embora uma pequena sombra se intrometa entre os dois, uma mulher loura.

Miguel chega ao hospital, Sandra está em verdadeiro estado de choque. Tiago, o filho, corre sério risco de vida. Aos poucos e poucos, lá vai conseguindo contar o que sabe sobre o acidente do filho:

- Ao que parece, aquela mulher vinha numa velocidade louca e não parou na passadeira.

- Quem é ela?

- Sei lá quem é. A polícia é que deve saber.

Miguel sente uma estranha sensação dentro de si: “Não, não posso acreditar numa coisa dessas. A Laura não seria capaz de uma monstruosidade destas. Sei que a fiz sofrer muito, mas isto não.”. A razão de Miguel associar a ex-noiva ao acidente do filho deve-se ao facto de se terem cruzado à cerca de uma semana, à porta da escola de Tiago, onde Laura fora buscar a sobrinha. Ele bem que estranhou da simpatia, e do interesse, da rapariga para com ele. Pensara que ela apenas pretendera dizer-lhe: “Vês, apesar do que me fizeste, estou bem.”. Agora já não tem assim tanta certeza. Aliás, já nem tem certeza nenhuma.

Miguel afasta-se um pouco de Sandra, precisa arrumar as ideias:

- Miguel, Miguel.

- Que foi?

- Estão a chamar-nos lá dentro. Oh Miguel, não consigo pensar que o nosso filho…

Entram e são recebidos por uma enfermeira:

- Façam o favor de entrar aqui para o gabinete. Alguém da equipa médica já vem falar convosco.

- Sra. Enfermeira, diga-me a verdade, como está o meu filho.

- Acalme-se. Como já lhe disse, já vem alguém falar convosco.

Vivem-se minutos de verdadeira ansiedade. Sandra não consegue controlar os nervos, enquanto Miguel continua a dividir os seus pensamentos entre o filho e a possibilidade de ser Laura a condutora:

- Boa tarde. São os pais do pequeno Tiago, não é verdade? O meu nome é Caldeira.

- Dr., como está o meu filho?

- Tenha calma. Tem ali um grande lutador. É verdade que se não fosse o verdadeiro milagre que a minha colega fez, talvez essa força do vosso filho não tivesse valido de grande coisa, mas assim, com o esforço conjunto dos dois, posso dizer-vos que o vosso filho está livre de perigo. Embora as próximas horas ainda apresentem algum risco.

- Dr. e ele vai ficar com algumas sequelas?

- Vamos dando um passo de cada vez.

- Dr., nós queríamos agradecer à sua colega.

- Lamento. Ela pediu-me para ser eu a vir falar convosco. Não me perguntem porquê.

- Diga-nos ao menos o nome dela.

- É a Dra. Laura Simão.

- Laura Simão!

- Sim. Conhece a minha colega?

- É uma mulher muito bonita, loura?

- Sim. Conhece-a.

- Creio que sim. Dr., vai-me desculpar, mas tenho mesmo de falar com a sua colega.

- Isso não depende de mim. Vou ver se ela assim o quer.

O Dr. Caldeira volta a entrar na zona reservada, voltando daí a pouco, acompanhado de Laura:

- Laura, sabias que se tratava do meu filho, não sabias?

- Sim. Mas o que é que isso importa?

- Sei que foste tu que o salvaste. Agradeço-te.

- Não tens nada que me agradecer. Nunca misturei a minha vida pessoal com a profissional. Não era agora que ia desistir de salvar uma vida, ainda por cima de uma inocente criança, sem qualquer culpa que o pai não preste para nada. Agora tenho de ir. Boa tarde.

Miguel não sabe se o que sente mais é gratidão àquela mulher que acaba de lhe salvar o filho, se vergonha por, momentos antes, a ter julgado capaz de lhe querer tirar esse mesmo filho.

 

Moral: “Nunca julgues os outros por ti, podes surpreender-te.”

 

Francis Raposo Ferreira

13/01/2020

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Comentários

  • Gestores

    Consegues atingir o objetivo sempre Francis...  Seus textos são magníficos!! Parabéns!!! DESTACADO!! 

    • Amiga Angélica, bom dia. Obrigado por toda a gentileza das tuas palavras. Beijinho.

       

  • Gestores

    3739687825?profile=RESIZE_930x

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