Dama com ramalhete, sem arminho

Dama com ramalhete, sem arminho

 J. A. Medeiros da Luz

 

Eu não pincelo girassóis em vasos,

Nem ciprestes flamejantes de emoções

No índigo estrelado da noite.

Não há trigais onde soltar meus corvos e urubus

Sobre o ilimitado amarelo ondulante de espigas.

 

Desconheço a técnica para iluminar

(Mesclando pigmentos, hormônios e matizes)

De quentes luzes tropicais uns corpos

Feminis e robustos e cálidos

E morenos do mar do Taiti.

 

Também narcisos, aguapés, nenúfares,

Em cromatismo intenso,

Desfrequentaram

Minha esquálida paleta,

Minha tela de imprimadura intacta,

Com o alvaiade fosco esperando,

Sempre infrutiferamente e sem remédio,

O pontilhismo de vibrantes tons.

 

Nem sequer cubos, poliedros

— Transfeitos em torsos, faces rebatidas —,

Relógios a derreter na impersistência

Consigo extrair (por mais que tente)

Da alma, via espátula e pincel.

Pobre borra-tintas que sou eu!

 

Mas, se cerro os olhos e me encerro

Naquele calabouço úmido do espírito,

Com fosforescências e reminiscências a pulsar

No mesmo compasso do músculo cardíaco,

No mirar a parede calva veramente me extasio

Ao contemplar, nítida e imersa em brilho,

Sobraçando feixe de rosas carminadas,

A minha Gioconda, a estampar

Os suaves, suaves traços fisionômicos

De você; sim, de você, querida…

 

 

Belo Horizonte, 2 de abril de 2026.

                                                               [Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]

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J. A. M. da Luz

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Comentários

  • J.a

    um versar com teor original poético com experiência abrangente no dominio expecional

    li e reli achei um dom no poeta narrando tudo e ate deu para imaginar tudo

    um abraço

    • Agradecido, meu caro Simas.

      O descrever, medindo com parquímetro as palavras, faz parte da fruição de minha inveja positiva desses esgrimistas das cores, que tanto dulcificaram (e seguem dulcificando) os anais da jornada humana sobre Gaia, nossa genitora telúrica. Daí a terminologia técnica: alvaiade, imprimadura,  cromatismo,  pontilhismo, e alusões a obras ("A dama com arminho", a "Permanência do tempo", "Trigal com corvos", "As mulheres de Taiti" e por aí vai).

      Abraço fraterno. J. A. 

  • Uma hora pacienciosa de espera em poltrona de livraria do B. H. Shopping ontem, em meio a eflúvios de cultura, literatura e livros de arte, foi o bastante para este poema bater-me à porta, meditando sobre velhos titãs da pintura (como van Gogh, Da Vinci, Gaugin, Monet, Dali, Picasso) e — em contraponto — sobre a minha nulidade no criar a magia com pincéis. O telemóvel foi, na ocasião, a minha Olivetti Lettera portátil (já abandonada há meio século) para registrar o cerne dos pensamentos, antes do polimento e envernizado final em casa...

    Por puro impulso de experimentação e curiosidade solicitei a um algoritmo generativo uma ilustração, algo marota, do desenlace do poema. Eis o resultado (mesclando estilos de Da Vinci e van Gogh):  

     

    31127203672?profile=RESIZE_930x

    •  

      Parabéns, amigo Poeta J.A. Medeiros da Luz, por belíssima poesia de excelência. 

      “ Dama com Cavalhete sem Arminho” nos remete a obra de Leonardo da Vinci….Dama com Arminho, obra de várias avaliações interpretativas…A óleo homenageia a Cecília Gallerani, amante do Duque de Milão..

      Uma poesia que podemos dizer de cunho erudito, de alto nível

      Para compreender melhor, recorri ao dicionário em cerca de nove palavras.

      Há um bem-aventurado diálogo com a arte, onde a poesia, creio, passeia por diferentes formas de pintura, mas encontra seu ponto mais forte e expressivo nos sentimentos.

      Há uma beleza muito especial na ideia de não ser necessário dominar todas as técnicas para criar algo verdadeiro… porque, ao final, a imagem que nasce da alma é a mais viva de todas.

      Percebe-se uma elegância poética com um belo toque erudito, mas que ainda assim permite sentir toda a sensibilidade e humanidade que a poesia traz. Isso achei muito interessante e importante.

      Uma obra de profundidade e delicadeza.

      Abraços fraternos, amigo J.A. Medeiros da Luz, por mais esta obra de excelência e de valores.

      Outros dados… creio não estar sem razão:

      É dito que o poeta não domina as técnicas dos renomados pintores… não conseguiria pintar como eles… mas, num fechar de olhos, encontra dentro de si a imagem da mulher amada , a sua verdadeira obra de arte.

      Aforismo:

      “A arte não está na técnica, mas no sentimento, especialmente o Amor, que é o maior.”

      Pesquisa na internet:

      Pinturas de cores fortes e natureza lembram Vincent van Gogh.

      Corpos tropicais e sensuais lembram Paul Gauguin, com figuras do Taiti e cores quentes.

      Formas geométricas remetem a Pablo Picasso, com rostos e corpos fragmentados.

       

      Imagens irreais, como o tempo derretendo, lembram Salvador Dalí.

      E, finalmente:

       

      O poeta cria a sua própria obra-prima… como a Mona Lisa.

      Que Bela postagem do retrato icônico de Mona Lisa 

      Abraços de Antonio Domingos 

    • Obrigado,  caro Poeta, pela honra de consumir seu tempo com esses versos algo fora dos mancais.

      Esses monstros sagrados da pintura nos povoam os sonhos desde os tempos juvenis.

      Lembro-me de, aos 14 anos, durante uma temporada que vivemos em Tijucas (SC), numa das tentativas goradas de meus pais voltarem ao Sul, bater-nos um dia à porta uma noviça, em uma campanha de solidariedade,  a vender aquelas obras de arte, com a biografia dos pintores e pranchas coloridas, com as obras magnas deles. Foi uma sensação fortíssima deparar-me com "Trigal com corvos", do van Gogh! Percebi que pinceladas enérgicas , sem maiores detalhes, podiam reproduzir o mundo interior, descrevendo o exterior, de modo impressionante belo.

      Daí a gênese de uma admiração imorredoura às artes plásticas (podemos olvidar o Davi de Michelângelo e o Pensador de Rodin, uma vez tendo-os mirado?).

      Abraço amigo do Jota.

    • Uma honra para mim buscar algumas palavras para a vossa sempre inspiradora Poesia.

      Fiquei feliz em saber de seu contato com os exímios pintores da humanidade e principalmente com a tela "Trigal dos Corvos" de Van Gogh....Obra muito importante e icônica onde o estado emocional do pintor se mostra agudo em seu silêncio antes do final....fortes cores azul e amarelo e muitos corvos voando....Parece que os corvos possa simbolizar a partida de Van Gogh.

      Vi o quadro e adorei..o que vi.

      Davi de Michelangelo e o Pensador de Rodin... Lindíssimas esculturas 

      Abraços fraternos e Feliz Domingo de Páscoa.

      Muito obrigado por sua amizade 

  • Que lindeza Poeta Amigo

    Meus aplausos de pé!!

    Abraçoss

    • Minha cara Ciducha, muito obrigado pela visita! Tenho a confessar que usei pilantramente a minha disfunciolidade pinturesca para contrastar o fascínio das figuras femininas retratadas por gênios do pincel com a minha singela (embora fascinante) musa, tal como o escrevinhador a concebe, no microcosmo pessoal.

      Abração do j. a.

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