Deserto em minh'alma (texto longo)

 

Deserto em minh'alma


As nuvens cinzentas denunciam a tempestade que está prestes a desabar. São como meus sentimentos que estão turbados, acinzentados. Talvez ela traga um pouco de alívio ao calor infernal do fim do verão e lave essas manchas de suor que empaparam minha roupa fazendo com que meu cheiro fique insuportável.

Sempre me considerei uma pessoa altruísta, sempre me preocupando com os outros, tentando ajudar. Tinha em meu ego a certeza de que estava certa e fazia a coisa certa. Tudo girava em torno do que eu queria. Me apossava das coisas, das pessoas como se fossem minhas. Mas não eram. Tentava navegar em águas alheias como se fosse capitã e naufraguei nos erros débeis.

Caminho sobre a calçada esburacada de um bairro decadente. Tudo aqui me lembra destruição, caos. A guerra faz isso. Coloca trincheiras onde antes era verde e habitável. Assim como a desilusão faz com o coração.

Os pingos grossos da chuva começam a pipocar em todos os lugares. Pessoas correm para se abrigar. De que adianta tanto esforço se o resultado é o mesmo: eu molhada da cabeça aos pés.

A enxurrada me leva por caminhos que não gostaria. Traz recordações que sufocam. Continuo a caminhar e me perco no caminho, numa mistura de passado e presente onde os personagens se encontram e se separam.

Vejo tudo como se estivesse em um filme. Quantas cenas onde a única estrela era meu egoísmo, a única vontade eram os meus deleites. Minhas emoções aceleram meu sangue como a chuva acelera a água que corre de encontro ao rio. Sinto que mergulho em um lago translúcido. O silêncio aqui é palpável. Me escondo atrás de uma fina cachoeira que teima em cair do telhado vizinho.

Meus olhos começam a arder com as lágrimas que agora escapam. A dor é tão profunda e de tão longa data. Quanto tempo desperdiçado em querer ser o que realmente não sou. Uma pintura grotesca maquiada de perfeição e que no fundo a tinta esconde as rachaduras. Quero gritar, mas a voz sumiu em algum recanto. Saio para a chuva novamente. Não importa que me molhe. Talvez assim consiga lavar minha alma das mazelas e imundícies da vida.

O ar me falta. A sequidão em meu íntimo me tira o tino. Quero me afogar neste lamaçal que a tempestade criou. As lágrimas secaram. Olho ao redor e penso em meu desespero: "Pra que tudo isso?", "Pra que tanto esforço?", "Será que vale a pena tanto desvario para conseguir meus ideais?" Olho para o céu.

─ Vamos garota! O que faz parada aí? Ouço uma voz amada dizer!

Viro bruscamente para onde acho que veio aquela voz, o coração dispara e o sangue congela. Nada. Ninguém está lá.

Apresso meus passos. Nunca foi tão difícil chegar em casa.

─ Não fique na chuva! Pode se resfriar! Novamente a mesma voz.

Começo a correr. Lembranças desencontradas povoam meus pensamentos. Ouço risadas e passos que me acompanham. Coloco as mãos nas orelhas para abafar os sons. O medo se apodera de meu corpo. Não posso mais! "O que eu fiz?" Penso.

Volto no tempo. Vejo seus olhos a me observar. Seu sorriso é tão lindo. Teu abraço me acolhe como nenhum outro acolheu. De repente, uma freada me traz de volta ao presente. Injúrias são proferidas e pneus saem cantando. Chego esgotada em meu apartamento.

─ Isso chegou hoje pela manhã! Diz o porteiro ao me entregar um pacote.

Era uma carta! Estava um mês atrasada. E meu coração morreu mais um pouco ao reconhecer a caligrafia. Sua caligrafia.

"Deus! Até quando esse tormento seguirá?" Repito em desespero.

Abro a porta de casa com tanto esforço que achei que nunca conseguiria. Joguei tudo ao chão. Menos a carta. Devia isso a você! Pelo menos respeito deveria ter com seus pertences. A coloquei sobre a mesa. Mais tarde, talvez eu tenha coragem de abri-la.

Ao retirar a roupa molhada que insistia em grudar em meu corpo sinto o cansaço a me rondar, reclamando o seu quinhão. Meus pés me arrastam até o banheiro que no seu silêncio gélido torna-se acusador de minha solidão. " Tome um banho quente para tirar a friagem!" Novamente aquela voz me arrepia o ser. Olho ao redor em busca de sua presença, em vão. Somente azulejos velhos e sujos observam minha pequenez.

A água escassa mal sai pelo cano onde antes segurava um chuveiro. Era escura e mal dava para limpar. Antes voltar à chuva para um banho digno. Fecho a torneira e os pingos fazem um som seco, como uma melodia de notas desencontradas.

Sento na poltrona rota que jaz inerte em meio ao espaço sepulcral da sala que antes ostentava poder e beleza. Uma velha TV trazia mensagens deturpadas dos últimos acontecimentos.

Meu olhar seguiu rumo ao embrulho sobre a mesa. A angústia aprofundou-se em meu coração. Fecho os olhos, tento esquecer. "Está cansada querida?" A voz se faz presente bem próxima ao meu ouvido. Me sobressalto e caio ao chão.

─ Pare! Eu quero que você pare! Grito para as paredes que debocham de meu pavor.

Cambaleio até a cozinha onde, sobre a mesa, está sua carta amarelada e desbotada. A data me transporta por lembranças dolorosas. Minhas mãos tremem, seu contato me queima. Sei que ali está escrito toda sua devoção, seu amor. Amor que destruí com uma missiva que foi mais rápida em seu encontro. A aperto de encontro ao peito numa aflitiva tentativa de o manter comigo.

Quero que o tempo pare! Que volte! Que cure! Não há cura! Só lamentos!

Jogo-me ao chão em um pranto convulsivo. Conseguira tudo que queria ou achava que queria! Mas a que preço?

Barulhos ecoam por toda a cidade em mais um ataque dos inimigos. Nem percebem a luta íntima que travo em meu ser. Me encolho na busca sôfrega de sentir a lembrança de seu abraço. Abraço que dispensei sem sentir culpa ou remorso e que agora faz minha alma abandonada clamar por consolo.

─ Levante-se! Ordena a voz amada.

─ Não! Saia daqui! Respondo, me encolhendo mais.

─ Levante-se! Mais uma vez a voz ordena.

─ Saia daqui! O que você quer? Grito em desespero.

Um estrondo bem próximo faz tudo estremecer. Sinto meu corpo levantar voo pra logo em seguida cair num baque surdo. Meus ouvidos explodem em um zumbido mórbido. Vejo um vulto e logo depois sinto o escuro tomar conta de tudo ao redor.

Um turbilhão de acontecimentos desvairados se pronuncia um após o outro. Meu corpo está moído, sinto o sangue em minha garganta, uma nuvem de poeira sufoca meus sentidos. "Fique acordada!" Grita uma voz aguda!

Não quero ficar acordada! Estou cansada! Tudo em meu ser é dor! Palpável! Tangível! Mais uma vez a morte se fez de devassa e me abandonou a minha própria sorte.

Sinto, em minhas mãos, um papel úmido e sujo. É sua carta. A aperto mais para que não se perca assim como nos perdemos nos redemoinhos do tempo. Fecho os olhos e sonho. Sonho com você, conosco.

Nos conhecemos em um dia atípico! Você viera com seu irmão para conhecer a mulher que esperava seu sobrinho! Filho, para você, é ser sagrado!

Estávamos todos num barzinho, uma conversa alegre, solta. Você brincava, algum tempo depois, que nunca demorou tanto para beijar uma garota. Isso é controverso por que, na verdade, foi eu quem te beijou.

Nosso namoro fluiu tão fácil. É como se nos conhecêssemos a muitas e muitas vidas. Tudo estava perfeito. Um amor perfeito. Infelizmente erámos muito jovens e não soubemos lutar contra a maldade e a inveja que espreitavam bem mais próximo do que esperávamos.

Eu, particularmente fui mais fraca! Era mimada! Acostumada a ter tudo e todos aos meus pés. Me perdi em meio a pensamentos fúteis e mentiras deslavadas. Te feri com meu egoísmo! Fui precipitada em minhas ações e paguei com a perda do seu amor e vivo com a solidão a me acompanhar em todos os lugares.

Te feri! Sim, te feri friamente! Numa missiva que te foi entregue matei seus sonhos, destruí teus castelos, matei você! E agora seguro em minhas mãos suas últimas palavras que foram escritas bem antes de meu ato malévolo e frívolo. Sei que ali está um amor puro. Intocado. Sincero. Me agarro a ela como uma tábua de salvação em meio aos destroços em que me via envolvida emocional e fisicamente.

Em meio aos meus devaneios sinto pessoas me segurando. Tento lutar, mas não consigo. Minha cabeça dói! A claridade fere meus olhos! Sinto meu rosto úmido, serão lágrimas? Não. Percebo a chuva me molhar novamente e mais uma vez mergulho em minhas recordações impiedosas. Talvez esteja morrendo, quem sabe? Isso explicaria essas lembranças de expiações.

Passam-se muitos dias, eu acho. Acordo desnorteada em uma cama de lençóis brancos. "Devo estar em um hospital." Penso. Tento me levantar e vejo faixas que imobilizam minhas pernas e braços. "Por que não sinto nada?"

Um vulto se aproxima. Pisco os olhos para que possa enxergar melhor.

─ O que você faz aqui!? Pergunto assustada.

─ Estou aqui por você! Responde aquela voz tão amada.

─ Onde estou? Eu morri? Pergunto angustiada.

─ Não. Aqui ninguém morre! Aqui vivemos e nos recuperamos! Disse, virando-se para sair.

─ Por favor, não vá! Suplico entre lágrimas.

─ Não se preocupe! Você não está mais sozinha em seu deserto! Não vou a lugar nenhum! Respondeu, sorridente.

M.A.Oliver - 20/01/22

Projeto: Contos sobre mote: Deserto.
Dedico à minha amiga Lu que me inspirou a fazer um conto baseado no deserto interno que as pessoas carregam consigo, numa metáfora entre sentimentos e deserto.

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Angélica

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Comentários

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    • Obrigada Margarida!

  • Que lindo! Me emocionei com esse texto maravilhoso. Me senti parte dele.

    Você é demais, amiga querida.

    Não desista. Desejo ler mais contos teus....

    Parabéns!

    • Obrigada Márcia querida pelo carinho e incentivo.

  • Um ótimo texto! Adorei! Parabéns!

    • Obrigada Editt pela leitura e comentário.

  • Um extensivo e reflexivo texto. Parabéns 

    • Obrigada Lílian pela leitura e comentário.

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