Devenir

Devenir

J. A. Medeiros da Luz

 

O viver, tão provisório em seu devir,

É símile — enquanto seja — daquela marcha

De aranha-d'água subindo a montante

Contra as linhas de corrente do ribeiro:

Pequenino Sísifo aquático sem rochedo,

 Mas com sina de igual tamanho,

 Entre um curtíssimo descansar e outro.

 

Por seu turno, é o morrer efêmero,

Muito mais que borboleta multicor;

É o encerrar da conta dos fiados,

Nos arquivos da mercearia da vida,

Entreposto de um milhar de sonhos,

Quiosque de praia, ao pé do qual

As franjas espumarentas, fractais,

Das vagas do desejo vinham terminar,

Quando o vivedor lá aparecia

Faceiramente (mas por vezes triste)

Sobre o dorso oscilante arreado

Do asno ajaezado do amor.

 

E em tudo entranha, permeia esse fluido,

Sutil, invíscido, inodoro,

Titã que atende pelo nome Tempo,

E — a devorar os próprios filhos —

Lá se finge de mais ou menos infinito,

Mais enganoso que as tais donzelas

Personificadas no primitivo teatro nô...

E, nesse proceder tão pouco defensável,

Faz-se de mais perene que o Sol,

Essa bola de estrume luminosa

A qual, desde o Egito, o deus Khepra

— Escaravelho velhusco que é —

Rola, rola, orgulhoso pelas areias,

Ralas e incontáveis, do cosmo.

 

Ouro Preto, 12 de maio de 2020. [Brasil] 

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J. A. M. da Luz

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Comentários

  • Gestores

    Belíssimo! Parabéns J. A.! 

    • Obrigado pelo comentário honroso, cara Angélica.

      Neste poema não escapei daquela perplexidade humana frente à própria existência. Afinal, como escreveu Artur Coelho (nascido em 1889, em Sapé — PB e falecido em 1973, em New Jersey — USA): “A vida parece ser/Uma hipótese entre dois mistérios/— Nascer e morrer.”

      A provisoriedade de nossa vida biológica e seu passamento, o processo de escoamento dos instantes a que chamamos tempo — que nos intriga igualmente — sempre haverão de martelar os pensamentos mais íntimos do Homo sapiens. E uma pitadinha de mitologias grega e egípcia sempre nos ajuda a lembrar que usualmente há uma diversidade de abordagens, ligadas cada qual à sua cada era...

      Abraço;

      j. a.

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