Diagnose
J. A. Medeiros da Luz
Verdade:
Extasio-me ante uma campina ondulante,
Por onde vagam, buliçosas, doidivanas borboletas
No antegozo de néctar, no gozo do simples viver
Sem azimutes programados.
Amo o ermo das linhas de cumeadas
E o murmúrio brando dos córregos nos grotões,
Salpicado pelo voar esquivo de corruíras, caga-sebos
Na orla dos barrancos resvaladiços como sebo.
Sou avesso, em contraponto, ao bulício da ágora.
Avesso sou também ao fascínio dos salões.
Pouco se me dá se os papéis da bolsa
Derreterem, naquele pânico galináceo
Dos heróis da antevéspera,
Do salve-se quem puder da manada com Rolex.
Comovo-me, com transporte, em contraste,
Com a harpa eólia insuflada pelo vento
Nas frondes farfalhantes dos ipês,
Quando setembro surge na folhinha
E mais a polifonia das aves do matagal.
E que doce emoção no crepitar estrepitoso,
Durante o marchar com fleugma, pisoteando
As folhas ressequidas no final de outono!
Pois é; não há negar:
Sou mesmo um caipirão com gosto.
Ouro Preto, 15 de abril de 2026.
[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]
Comentários
J.A
um versar frondoso, estilos,maravilhoso
Um olhar poético distinto e genuíno
Um abraço
Caro D. Simas: obrigado pelas palavras motivadoras. A nossa infância sempre será um manancial de imagens acalentadoras; em especial se ela "veio a ser" na exuberância das imensidões tropicais.
Fraternal abraço.
Belíssima Poesia onde a natureza é ressaltada com elegância...São sons vibrantes das folhas ressequidas e de outras nuances do Outono sempre inspirador..
A preferência pela tranquilidade do que o alvoroço da praça....ao fascínio dos salões.
Adorei a frase verso :: Nos frondes farfalhantes dos Ipês...de fato os Ipês coloridos são lindos..
A simplicidade protagonista da Poesia e a simplicidade do Poeta neste encanto de Poesia e vale a pena ser um Caipira consciente..
Parabéns amigo Poeta JAM da Luz por maravilhosa Poesia...
Agradecido muito, pela visita e apreciação, meu caro Antonio Domingos. Embora não conjuguemos da ingenuidade "à outrance" do bom selvagem de Jean Jacques Rousseau, o abandono ocidental do bucolismo tem cobrado seu preço, cristalizando uma sensação de dissonância entre o microcosmo interior e o macrocosmo — e salpicando falta de empatia entre os viventes sedizentes com cognição.
Abraço.
Pessoal:
Eis que vai aí mais um poemeto, despretensioso, mas pincelado de sinceridade (embora com certa magnificação estilizada). A realidade acaba por ser um híbrido entre oponências literariamente amplificadas: ela apresenta mais matizes que o enfático expressionismo de uma gravura sob a batuta do realismo inglês de "alto contraste"...
Abraço.