Equação sem Solução

Toda melancolia começa como um problema impossível:

não há incógnita, não há variável,

só um peso constante,

que não aumenta nem diminui,

apenas insiste em existir.

 

A matemática que me ensinaram na escola nunca previu isso,

que existisse um número negativo demais

para caber em qualquer reta,

um número que a gente carrega

mas nunca consegue nomear.

 

Conto os dias iguais aos outros.

Depois desisto de contar,

porque toda soma que faço

dá sempre no mesmo resto:

o vazio não se divide,

só se repete.

 

Divido a tarde por dois,

trabalho e silêncio,

e o resultado nunca é exato:

sobra sempre uma fração de mim

que não encontra denominador,

que não encontra chão.

 

Multiplico o cansaço

por cada manhã que se parece com a anterior

e, de repente, são cem manhãs iguais,

mil tardes cinzas,

um exército de pequenas ausências de mim mesmo

ocupando lugares onde antes cabia vontade,

cabia cor,

cabia rumo.

 

Há uma aritmética secreta

que só quem afunda conhece:

o infinito, aqui, não é grandeza,

é a distância entre o que sinto

e o que consigo dizer que sinto.

 

Tento equilibrar a equação:

 

de um lado, o que deveria haver,

brilho, leveza, um motivo qualquer;

 

do outro, o que há,

o peso surdo,

o quarto fechado,

o corpo que pesa mais que o normal.

 

Nunca fecha.

E não sei se algum dia fecha.

 

Existe um número

que não cabe dentro de nenhuma xícara pela manhã,

um número que não se escreve,

só se arrasta:

 

é a soma de todos os dias

que pesaram mais do que deveriam,

dividida por uma vontade

cada vez menor de somar mais um,

 

e o resultado, no fim,

não é zero.

 

É esse chumbo sem nome.

 

E descobri:

há pesos que ninguém escolhe carregar,

mas todo mundo, um dia, conhece.

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Kleber Luis Antônio Pinheiro
Poeta e educador social.
Atuo com educação social e escrita, desenvolvendo projetos e textos que aproximam arte, escuta e transformação comunitária.

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Comentários

  • Gestores

    Verdades puras. Triste e real. Parabéns por mais um bonito poema.

  • Caro poeta Kleber

    Pesos em nossas vidas nos fazem acreditar que existe um outro lado com mais leveza e que os temos à nossa frente.

    Uma bela construção poética.

    Parabéns!

    Abraços

  • Muito pesado, dívida com alguém!

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