Toda melancolia começa como um problema impossível:
não há incógnita, não há variável,
só um peso constante,
que não aumenta nem diminui,
apenas insiste em existir.
A matemática que me ensinaram na escola nunca previu isso,
que existisse um número negativo demais
para caber em qualquer reta,
um número que a gente carrega
mas nunca consegue nomear.
Conto os dias iguais aos outros.
Depois desisto de contar,
porque toda soma que faço
dá sempre no mesmo resto:
o vazio não se divide,
só se repete.
Divido a tarde por dois,
trabalho e silêncio,
e o resultado nunca é exato:
sobra sempre uma fração de mim
que não encontra denominador,
que não encontra chão.
Multiplico o cansaço
por cada manhã que se parece com a anterior
e, de repente, são cem manhãs iguais,
mil tardes cinzas,
um exército de pequenas ausências de mim mesmo
ocupando lugares onde antes cabia vontade,
cabia cor,
cabia rumo.
Há uma aritmética secreta
que só quem afunda conhece:
o infinito, aqui, não é grandeza,
é a distância entre o que sinto
e o que consigo dizer que sinto.
Tento equilibrar a equação:
de um lado, o que deveria haver,
brilho, leveza, um motivo qualquer;
do outro, o que há,
o peso surdo,
o quarto fechado,
o corpo que pesa mais que o normal.
Nunca fecha.
E não sei se algum dia fecha.
Existe um número
que não cabe dentro de nenhuma xícara pela manhã,
um número que não se escreve,
só se arrasta:
é a soma de todos os dias
que pesaram mais do que deveriam,
dividida por uma vontade
cada vez menor de somar mais um,
e o resultado, no fim,
não é zero.
É esse chumbo sem nome.
E descobri:
há pesos que ninguém escolhe carregar,
mas todo mundo, um dia, conhece.
Comentários
Verdades puras. Triste e real. Parabéns por mais um bonito poema.
Caro poeta Kleber
Pesos em nossas vidas nos fazem acreditar que existe um outro lado com mais leveza e que os temos à nossa frente.
Uma bela construção poética.
Parabéns!
Abraços
Muito pesado, dívida com alguém!