Infrator
J. A. Medeiros da Luz
E tu, Jota, que agora eis que te flagro,
Com uma furtiva lágrima jacente,
Cai-não-cai, molhando-te a pestana;
Gotícula incômoda que a custo tu disfarças.
¿Suscitaram-na razões concretas,
Ou foi aquela inutilidade percebida,
Enfim, das coisas, dos entes, dos anelos?
Pobre de ti, meu caro Jota,
Já que escarafunchei os teus segredos!
Nas trevas a sombra fica enorme:
Por-te-ei em maus lençóis, trombeteando
Às urbes e ao orbe pleno de urzes,
Que tu te pões em desconsolo,
Em ocasiões de solitude e de silêncios;
Quando o firmamento se parece
Com insondável abismo invertido,
De ponta-cabeça, umbroso valhacouto
De renegados titãs, anjos decaídos,
Deuses furibundos e salteadores…
E digo mais, ó gentil cavalheiro:
De nada valerá se tu bateres — em vero surto —
A cabeçorra nas paredes de teu quarto.
Amanhã mesmo verás o quanto voa
Uma mísera confidência assoprada
Aos ventos etéreos desse globo virtual,
Deste vasto brejão digital e cibernético.
Brasília, 09 de novembro de 2025.
[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]
Comentários
Um texto lindo e verdadeiro. Li e reli.
Parabéns caro, JA.
DESTACADO
Um abraço
Cara Poeta Márcia Mancebo:
Obrigado muito pela visita e gentileza grande do destaque.
Em face dos riscos de judicialização dos tempos que ora correm, por "dá aqui aquela palha", como se dizia nos dias de meus pais — e apreciando eu as velhas cantigas de escárnio e mal-dizer — concluí que seria bem mais prudente ser impiedoso conosco mesmo! E, ademais, dada a incompletude humana, motivos de mofa nunca faltarão. Haveria, até mesmo, um incerto subproduto de marqueteio: por vezes as confissões desconfortáveis acabam por suscitar um quê de empatia no ouvinte (ou sabente)...
Mas os fenômenos humanos quase sempre se apresentam facetados, multiformes. Conjuminando com essa abordagem mais extrínseca (por assim dizer), posso apor uma componente mais ponderosa para a feitura do poema: aquelas revelações do claro-escuro da existência, que o assuntar por décadas (mesmo sob a azáfama dos afazeres) acaba por nos conceder, ofertando-nos — sem que peçamos, afinal —, um pomo agridoce, com aquele travo das verdades desqueridas. Nessas ocasiões, abraçar, como resposta às vicissitudes, visão melancólica da existência é contraproducente. O escapismo, por cômodo que seja, também não é decisão inteligente e acaba, cedo ou tarde, por cobrar seu preço. Resta-nos, nos equilibrar, como possamos, pisando com prudência o tronco limoso das pinguelas, e seguirmos sem afoiteza a caminhada, a grande e inescapável marcha, rumo à curva desconhecida do futuro.
E que nos mantenhamos sempre seremos, de modo a apreciarmos a música das aves, o farfalhar das frondes pelo vento — e as fugazes telas impressionistas das borboletas, que eventualmente venham, nesta viagem, a nos acompanhar, mesmo que de modo transiente e passageiro.
Abraço do J. A.
Caro poeta J.A. Medeiros
A vida, na realidade é um enigma, por isso teus versos muito bem elaborados mostram essa realidade.
Parabéns
Abraços
Caro Amigo Bridon:
Agradecido por seu comentário generoso. Realmente, o que não nos falta — nem em nossos microcosmos interiores, nem neste mundão sem porteira (que o Drummond já provou ser vasto) — são enigmas! Quantitativamente, as certezas são similares aos escassíssimos trevos-de-quatro-folhas entre a populosa tiririca do vargedo. Enfim, com aquela abençoada e obrigatória dose de esperança, vamos tateando as bordas da vereda — e fruindo a jornada, enquanto dure.
Abraço; J. A.
Pessoal:
Desejoso — entenda-se lá por que difusas razões — de beletrismo, peguei da pena digital e deliberei com convicção enobrecer o horizonte da lusofonia, com um poema com metro (por que não solenes alexandrinos?), com ricas e belas rimas e com tinta ridente e jubilosa. Põe-se ao labor o artesão, e — em vez de um Moisés em alabastro ou em nobre Carrara — uma carantonha, plasmada em argila de pântano, surge, toma forma desde o limbo, e pede (não "parla": berra!) por um lugarzinho ao sol. Enfim, mais um enigma da vida, o qual estampo na postagem acima.
Abraço do J. A.