Mónica

Mónica
 
Mónica tinha a plena consciência que não se enquadrava, nem de perto nem de longe, nos parâmetros ditados pela moda. Aqueles óculos, redondos e grandes, há muito que tinham esgotado o seu prazo de validade, para já não falar da saia, vira o modelo no filme “Música no coração e adoptara-o, ou na camisinha aos folhinhos e rendinhas, conjunto que complementado por aqueles sapatinhos rasos com um lacinho no peito do pé, lhe dava um ar de menina do século passado.
Ao tomar consciência que não era pelo seu lado sensual que os colegas de faculdade teimavam em convidá-la para as matinées dançantes, cimentava a certeza que se não fosse considerada uma das melhores alunas do seu curso, nunca poria os pés nas ditas matinées, onde os namoros nasciam como as azedas no caminho de sua casa até à faculdade.
O ano lectivo aproximava-se do fim e, Mónica, era das únicas, senão a única, das raparigas que ainda não tinha arranjado um namorado que fosse. Na maioria das vezes passava as matinées dançantes a ver os rapazes a cortejarem as suas colegas, só a convidando para um pé de dança quando tinham um rebate de consciência e lá a iam tirar do seu cantinho.
Foi numa das últimas matinées que surgiu Lourenço, rapaz tão bonito quanto tímido, pelo que procurou companhia junto de Mónica, o que gerou muitos ciúmes nalgumas das raparigas presentes. Lourenço era, sem dúvida alguma, dos rapazes mais bonitos da faculdade, só que nunca tinha aceitado os convites para se juntar aos restantes companheiros de faculdade, um pouco pela sua timidez, mas também por identificar aqueles encontros mais como momentos de puro engate que propriamente de convívio.
Agora, fora o seu interesse por Mónica, ainda que nunca confessado, que o levara a aceitar, temia que o ano terminasse sem ter hipótese de conhecer melhor o patinho feio do curso. Não se sentia à vontade com raparigas mais bonitas, pois, não tendo noção do seu charme natural, temia ver-se rejeitado por estas.
Quando a matinée terminou, já se notava, entre Lourenço e Mónica, uma grande empatia. Daí até ele ganhar coragem para lhe pedir namoro, foi um passo. Ela aceitou de imediato.
As aulas terminaram e eles só se voltariam a ver alguns dias depois, visto viverem bastante afastados um do outro. As férias pareciam nunca mais terminar, tal as saudades que sentiam um do outro. Lourenço ainda propusera ir ter com ela, mas Mónica não deixou, preferia mesmo algum afastamento temporário para ter a certeza dos sentimentos do rapaz.
No dia do regresso, lá estavam eles a matar saudades, ainda que num reencontro breve. Seria no dia seguinte que tudo se precipitaria. Estava Lourenço à conversa com outros colegas, falando das férias e de Mónica, quando aquela mulher deu entrada no átrio principal da faculdade. Nunca se vira ninguém assim por aqueles lados, por onde quer que passasse, era impossível os homens não virarem a cabeça para a admirarem. Umas pernas perfeitas, umas nádegas bem moldadas a bambolear ao ritmo dos seus passos, uns cabelos pretos, muito pretos e sedosos, a chegarem-lhe até à cintura. Lourenço pousou os olhos nela e achou-a a mulher mais linda que alguma vez vira. Ela cruzou olhares com o rapaz, sorriu-lhe e dirigiu-se até onde estava o grupo. Todos abriram a boca de espanto e gritaram em uníssono:
“Mónica”
Sim, era mesmo Mónica. Quando lhe perguntaram o porquê daquela transformação, limitou-se a responder:
- Eu sempre fui assim, mas ao vir para a faculdade quis saber quem é que gostava realmente de mim, por aquilo que sou por dentro e não por aquilo que pudesse mostrar por fora. Só o Lourenço me aceitou como eu era, sem reservas. Amo-te.
Todos perceberam a lição.
 
Moral: “Quem compra só pela embalagem, corre o risco de se vir a sentir desiludido.”
 
Francis Raposo Ferreira
12/01/2020
 
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