Inspirações

O Grande Segredo de Natal

Contos de Natal 2019

02 – O Grande Segredo de Natal

O avô, necessitando de mais tempo para conseguir estruturar a história que acabou de inventar para contar à neta Matilde, pede-lhe que lhe arranje duas torradas para acompanhar com o café. A menina, na sua ingenuidade de criança, nem sequer desconfia das verdadeiras razões do avô, o que também pouco lhe importaria, desde que isso signifique poder sentar-se no seu colo e ficar a deliciar-se a ouvir mais uma linda história, enquanto a lenha vai estalando na lareia.
Matilde esmera-se em arranjar o pequeno-almoço, duas torradas para ela e outras duas para o avô, só que enquanto as delas levam mel por cima, as do avô levam manteiga de cor. Coloca-as num bonito prato, o qual é colocado sobre o bonito tabuleiro de madeira trabalhada pelas habilidosas mãos do avô Martinho, que por sua vez se encontra protegido com um bonito pano rendado, herança da falecida avó, ao lado do prato das torradas, um grande copo de leite bem quentinho, para ela e uma caneca de café de cafeteira para o avô:
- Avô, já posso levar o pequeno-almoço?
O avô percebe o sentido da pergunta, ou seja, a neta quer é perguntar-lhe se ele já está sentado na sua velha cadeira de baloiço, de modo a poder aninhar-se no seu colo e assim tomarem a primeira refeição do dia:
- Sim. Aliás, já tenho o estômago a dar horas.
A pequenita, enquanto leva o tabuleiro com todo o cuidado, vai-lhe dizendo:
- Oh avô, nunca consegui perceber essa história do estômago dar horas. Por acaso, tens algum relógio na barriga?
O avô acha graça ao comentário da neta, aproveitando a deixa:
- Boa ideia.
- Boa ideia o quê, avô?
- Este ano, vou mesmo falar-te da minha meninice, dos filmes que tanto gostava de ver, dos jogos que faziam a minha felicidade e dos provérbios populares.
- Boa, avô, adoro provérbios.
Matilde pousa o tabuleiro no mocho onde se costuma sentar, aninha-se no colo do avô, encosta a sua cabecita ao peito do ancião, olha-o nos olhos e diz-lhe:
- Bom apetite.
O avô Martinho delicia-se com as torradas feitas pela neta, desafiando-a:
- Acho que ainda vou comer mais uma torrada, mas agora feita aqui mesmo na lareira.
- Vais tu, e vou eu. Depois contas-me uma história, não contas?
- Sim.
Assim que acabam de comer a tão saborosa torrada, o avô Martinho pergunta à neta se já ouviu falar do Bonanza:
- Bonanza, avô! Isso é o quê?
O avô Martinho lá lhe vai contando um pouco da história da família Cartwright:
- Avô, tens por aí, alguns filmes desses?
- Sim. Queres ver um?
- Gostava.
Uma vez mais, o avô conseguia levar a neta a aceitar aquilo que lhe estava mesmo a apetecer, recordar alguns episódios de uma séria que lhe fizera tanta companhia na sua juventude, embora não ficasse com a certeza se era ele que tinha conseguido convencer a neta, ou se era ela que o levava a mostrar-lhe um pouco mais da sua vida. Era assim a pequena Matilde, um verdadeiro enigma:
- Avó, aquele tal de Hoss, devia ser boa pessoa. Não era?
- Se era, vou contar-te uma história que se passou comigo e com ele.
- Contigo e com ele! Tu conheceste o Hoss?
- Sim. Conheci-o a ele, ao pai e aos irmãos.
- Avô, olha que mentir é muito feio.
- Não estou a mentir, este é o meu grande segredo de Natal da minha vida.
- Está bem, conta lá o que se passou.
- Certo ano, por altura do Natal, eu andava muito triste por saber que os meus pais não tinham dinheiro para me poderem dar prendas, foi então que um amigo de meu pai que vivia lá na América, falou com o Hoss sobre mim, dizendo-lhe que eu não perdia um episódio do Bonanza. Ao saber que eu não iria ter prendas nesse Natal, o próprio Hoss veio a Portugal trazer-me uma prenda que ainda hoje guardo com todo o cuidado.
- Avô, mostras-me essa prenda?
O avô Martinho sabia que não seria fácil enganar a neta, pelo que se limitou a responder-lhe:
- Um dia, prometo-te que um dia te mostrarei essa prenda tão valiosa para mim.
Matilde já adormecera no colo do avô, não só por ter passado uma noite inteira sem dormir, mas também pela sensação de aconchego que o colo do avô, conjuntamente com o crepitar da lenha na lareira, lhe transmitia. Foi assim que se viu a sonhar que galopava no dorso do bonito cavalo de Joe Cartwright.

Francis D’Homem Martinho
02/12/2019

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