O SUB CONTRACHEFE
Houve um tempo — e não faz tanto assim — em que era possível trabalhar numa repartição pública e, ao mesmo tempo, tocar a vida fora dela. Bastava cumprir o horário. Simples. Civilizado.
Eu fazia exatamente isso. Das sete da manhã à uma da tarde, batia ponto numa repartição pública, concursado antigo, daqueles que estudaram quando concurso ainda exigia livro. À tarde, vestia outra pele: advogado, profissão que sempre foi, de fato, a minha principal.
Claro que isso incomodava. Sempre incomodou.
Há quem jure que servidor público deveria viver exclusivamente para o cargo, como se o salário fosse suficiente para pagar aluguel, supermercado, escola e dignidade. Essas pessoas geralmente nunca trabalharam no serviço público — ou trabalham pouco.
Servidor público de verdade, diga-se, é quem segura o rojão diário. Não confundir com os “servidos pelo serviço público”, especialistas em nada fazer, mas mestres em receber.
Trabalhei duro por muitos anos. Reconhecimento? Zero. Em compensação, perseguição não faltou. O problema era simples: eu era advogado. E, pior, entendia de leis. Isso costuma causar certo desconforto, especialmente em chefias pouco afeitas ao estudo, algumas delas com formação que parou no antigo segundo grau — e olhe lá.
Na prática, eu precisava da advocacia para respirar. Era ali, no fórum, entre petições, audiências e debates jurídicos, que me sentia livre. Livre dos regulamentos criados não para organizar, mas para negar direitos. Livre dos sistemas que tratam como favor aquilo que é direito de gente simples, que depois de uma vida inteira de trabalho acaba disputando migalhas.
E, como toda repartição que se preze, havia o personagem obrigatório: o dedo-duro.
Logo fica famoso.
Aquele sujeito sempre solícito, sempre sorridente, sempre “por dentro” de tudo. Servia a todos — menos aos colegas. Tentava servir a dois senhores, ainda que nunca tenha lido a Bíblia para saber que isso não costuma dar certo.
Nunca ganhou nada relevante com isso. Tornou-se apenas conhecido. Conhecido e irrelevante. Um zero à esquerda, ignorado até pelos próprios chefes que tanto tentava agradar.
É verdade que, às vezes, eu precisava sair mais cedo ou chegar um pouco depois do horário. O escritório crescia, os compromissos se acumulavam. Nada fora do razoável. Mas o suficiente para despertar o radar do nosso vigilante informal.
Até que, certa manhã, por volta das onze horas, saí apressado. Tinha uma audiência complicada em outra cidade, a trinta quilômetros dali, marcada para as treze horas. Todos sabemos: na Justiça, horário é sugestão — exceto para advogados.
Na porta de saída, como se fosse roteiro, lá estava ele. O sub Contrachefe.
Com aquele ar de quem fiscaliza o mundo, lançou a frase clássica:
— Bom dia, doutor. Saindo cedinho, hein?
Respirei fundo. Sorri. E respondi com a objetividade que a situação merecia:
— Estou saindo cedo hoje. Mas você não percebeu que, em compensação, chego tarde todos os dias?
E fui embora.
Ficou parado. Pensou. Seguiu andando.
Há frases que não se explicam apensas se atravessam, por isso tenho a impressão de que, até hoje, ele tenta entender onde estava a irregularidade.
Nelson de Medeiros
(Cronica publicada em revista local em 1999)
Comentários
Em toda repartição pública há sempre um "ser humano" que se acha melhor dos que os outros. Trabalhei anos em escolas públicas, onde era concursada, fui diretora, mas sempre enfrentei esses entraves em meu caminho. Parabéns e minha admiração. Um abraço carinhoso.
O tempo passou, mas ainda temos essas figuras no setor público, só que muda, é que hoje há tantos advogados (a faculdade acessível tornou isso possíve), então onde trabalho, pelo menos, quase que 80% são advogados, e muitos deles até chatos por isso. Desculpe não estou generalizando, mas esse pessoal acha que sabe tudo, porque tem formação em leis, e meu Deus como são pedantes. Grande abraço, Nelson.
Ave, Menestrel das Letras! Mestre de todos nós. Sim, fui servidor publico federal com imenso orgulho. E tenho certeza de que servi a todos que de mim precisaram. Grande abraço.
Então o rei dos sonetos, que além, de servidor público é também advogado? Dotô, vivendo e descobrindo — parabéns pela crônica e ainda é contista, cronista, uaaaau, meus cumprimentos Dotô! Um um forte abraço — ©JoaoCarreiraPoeta.
Uma crônica de 1999 e ainda muito atual o tema...
Há uma imagem de que o servidor público ganha altos salários e tem muitas vantagens outras...
Não é verdade...A maioria dos servidores públicos não ganham o suficiente devido e muitas vezes enfrentam tentativas da chefia instigando ao funcionário às vezes agir fora da lei.e regras...
Gostei de saber que você foi um funcionário público de carreira e Advogado.. Parabéns...
Lamentamos as perseguições aos funcionários públicos..
Os impasses de sua história e seu texto são verdades e sempre há de se conseguir as melhores soluções.
Como lidar com um Sub ContraChefe de autoridade duvidosa e até preconceituosa
"Até hoje o tal dito Chefe tenta entender onde está a irregularidade"
"Ora, estou saindo cedo pois chego tarde todos os dias " dá para confundir quem espera outra reação
Quando eu trabalhava as vezes eu era atendido fora da empresa em emergências hospitalares por pressão alta..Houve fofoca de eu era um doente que não podia trabalhar na empresa Felizmente consegui vencer está barreira e está fofoca e ignorância.
Havia uma compensação de horários por atrasos e o seu chefe é igual a muitos que temos por aí...Um cri cri.. ardiloso.
Parabéns por nós trazer um tema muito importante e prazeroso de ler.
Abraços fraternos de Antonio Domingos e Fernanda
Nelson
uma crônica interessante
um abraço