Terrário

Terrário

 J. A. Medeiros da Luz

 

Este meu terrário é mundico

Com colinas de areias e de seixos

Limitadas por paredes hialinas

Como éter de floresta de gnomos.

 

Nele medra o capim de entremeio

A roseiras e a hortênsias e a vincas

E a mais ervas trazidas de além,

As quais, em fins de maio, explodem

No terrário microcósmico, feéricas,

A espocar num amarelo que clama

Pelas pinceladas turbulentas

Do infortunado ectoplasma de van Gogh.

 

Muitos animálculos (bípedes, centípedes)

Populam este pequenino feudo.

E trilam, cricrilam, gorjeiam, uivam,

Crocitam, retinem, estridulam, riem...

 

Mas, dentre tantos inquilinos do terrário

(Este glóbulo impresso em 3D),

Lá, ocultado nos dorsos de umas folhas

De um bonsai qualquer, treina, se exercita

A décadas, entreabrindo élitros pintadinhos,

No treino para o voo desabrido,

Este pobre besouro assustadiço,

Sem se dar conta que ele — até ele! —

É coproprietário deste terrário

— Errante pirilampo do cosmo —,

Navegando (sendo tal o que é mesmo preciso)

Por atoleiros e atóis de nebulosas;

A carretar terra, mais água e mais vidas — rumo

Aos ignotos cantos de muro da galáxia.

 

 

Ouro Preto, 30 de abril de 2026.

[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]

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J. A. M. da Luz

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Comentários

  • Prezado amigo e Poeta JAM da Luz,

    Parabéns por belíssima Poesia sempre com um vocabulário culto ( dei uma olhadinha no dicionário…com prazer) …Suas digitais poéticas sempre presente.

    “ Terrário” transcende o ambiente cósmico a alcançar dimensões universais..

    É natureza, ciência, arte e cosmos…Muito simbolismo em poesia..

     A referência a Van Gogh acrescenta vigor pictórico a uma obra que parece ser, ao mesmo tempo, jardim, galáxia e reflexão sobre nossa condição de passageiros e coproprietários da existência.

    Os dois últimos versos especiais..Que nós não sejamos ignotos...nunca..

    Repetindo vocabulário culto e ser humano muito culto...

    É uma cultura em favor do pertencimento, do versar, da distraída conversa...Sim, amigo.. quando lemos sua Poesia sentimos que estamos numa conversa..

    Nossos abraços fraternos prezado Poeta..JAM da Luz 

    • Caro e fraternal amigo, Poeta Antonio Domingos:

      Sempre que abro, quando os hiatos mo permitem, as janelas de meu sotãozinho em nossa casa de tertúlias virtual, eis que logo uma lufada de amabilidade adentra-se, materializada sob a forma de comentário seu! Obrigado pela gentileza de seus generosos comentários. 

      Com efeito, a natureza (inclusa aí a espécie humana) é sistema uno e integrado; e ações nossas — que não nos esqueçamos disso — sempre geram reflexos e rebotes. Um terrário, um aquário, acabam por ser modelos fascinantes em microescala de nosso planetazinho, essa pálida manchinha azul perdida no escuro da galáxia, no dizer elegante de Carl Sagan. 

      E, a propósito, uma última alusão que arrisco no poema, e que calha ser uma confissão da vera pequeneza da escala humana, é essa de, num cantinho qualquer do ecossistema, o alter-ego do autor reproduz a transubstanciação do ser humano em inseto (o coleóptero testando ad eternum suas asas...), inspirado pela genial e aterradora pena de Franz Kafka.  

      Um abraço e meus votos de excelente semana!

       

    • Prezado Poeta e Amigo.

      Obrigado por seu revelador comentário e que eu valorizo muito....E admirei o Coleoptero este inseto misterioso como habitante de espaços terráqueos..Se é de Franz Kafka , no genial livro Metamorfose... fico feliz pois este livro eu li....Uma temática surreal para a época em que foi publicado em novembro de 1915... Olha só, morreu com 40 anos...num sanatório na Áustria.. triste fim e muito jovem pois naquela época sem insulina e sem antibiótico a penicilina, logo descoberta por volta de 1930...

      Muito obrigado por esta preciosa conversa.

      Abraços fraternos de minha filha Fernanda minha Antonio Domingos.

  • Pessoal:


    Quem, em seus verdes anos, não teve ao menos o desejo de ter pequeno terrário com um ou dois tracajazinhos a estirar seus pescoços desde a pequena poça d'água a figurar, no mundo infantil, amplo remanso de igarapé, talvez habitado por soturnas sucuris e botos?

    Junte-se a esse escarafunchar de gavetas da memória o cromatismo de "margaridões" — floridos neste final de maio em lote vago ou barranco de estrada aqui pela Rodovia dos Inconfidentes (arvoretas, dizem que invasoras, vinda do México) — e teremos os ingredientes para a ruminação literária do subconsciente, onde sub-repticiamente o pequeno terrário se avulta, tomando as proporções planetárias dessa nossa maltratada bola de gude azul, rajadinha de branco… E súbito aflora e exige imperiosamente papel e lápis! Mesmo que, depois, venhamos a limar-lhe as asperosidades, usando cinzel, gradina, talhadeira e malho virtuais in silico (como se diz, pomposamente — em vez de "no computador" — nos artigos técnicos da área da saúde).

    Como tentadoras que são, alusões, aqui e ali, estão salpicadas no corpo do poema, de resto sem o adereço de metro e de rima (um poema "papo reto"): o amarelo jalne do pincel tormentoso de van Gogh, a instigação do general Pompeu (Navigare necesse est, vivere non est necesse), poetizada por Petrarca e esculpida na lusofonia pelo nosso F. Pessoa (pela qual descobrimos, atônitos, que viver — em si — não é preciso) até uma discreta homenagem a uma das mais de duzentas obras de nosso Câmara Cascudo, "Canto de muro", onde o potiguar discorre, com sua originalidade e erudição ponderosas, sobre os bichinhos de quintal...

    • Agradecemos os seus próprios valiosos comentários... Mostra uma diversidade culturais e expressivas  Reflexões

      A gente vê a sua admiração por Van Gogh e Fernando Pessoa..

      Sua presença sempre é uma comemoração para mim, e para o CPP , que sou um reles tomador de café com muito açúcar..

      Abraços fraternos sempre 

    • Estamos juntos, comandante! Só que, no meu caso, as xícaras do arábica vêm sem adição de açúcar, por razões da taxa de glicose, suficiente para deflagrar conselhos médicos...

       

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