Vivissecção
J. A. Medeiros da Luz
Asseveram-me que sou constituído
De zilhões dos tais átomos, moléculas
Regidas por fitilhos proteicos, enovelados
Em milhares de elos de bases nitrogenadas.
E as sinapses neuronais em surto
Eletrobioquímico,
Quase entrelaçando as mãos
— Tais como, segundo mestre Michelangelo,
Aquele toque digital divino
Na mão suja de argila de Adão —,
Insuflam-me, em escala microscópica,
Este transiente hálito vital,
Num algoritmo prenhe de magia que suscita
(Fazendo-se ex-abrupto a luz) o pensamento,
Que conduz ao mistério do sentir.
Asseveram-me com ar doutoral;
E devem, pois, estar corretíssimos…
Mas, em sendo assim, por que
Minha pobre alma tem por irrefutável
Que é maior que a soma das parcelas,
Embora assumindo que ela (oh fadário!)
Apenas mimetiza as brisas, enquanto aqui?
Ouro Preto, 28 de março de 2026.
[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]
Comentários
Prezado Poeta e Amigo J.A. Medeiros da Luz
Uma simplória avaliação de nossa parte
Gostamos demais de sua belíssima poesia de cunho existencial da vida humana. Percebemos, em seus versos, valiosa reflexão que contrapõe a explicação científica da vida , baseada em átomos, moléculas e sinapses em contraponto à experiência íntima e indizível da alma e do sentir.
Sua poética nos induz a questionamentos essenciais. Seríamos apenas matéria organizada ou haveria algo que nos transcende….
A referência ao toque divino reforça essa centelha misteriosa que anima a existência, aproximando ciência e espiritualidade de forma admirável.
A sugestiva metáfora de “mimetizar as brisas” nos deixa diante de uma dúvida inquietante;
Seria a alma uma realidade superior ou apenas um delicado reflexo da própria matéria…
Um convite que nos leva a refletir acerca do mistério do existir, entre a razão, sensibilidade ,ciência e os mistérios daquilo que não vemos,mas sentimos, a alma.
Nossos abraços fraternos