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A prosa poética

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A prosa poética é prosa que quebra algumas das regras normais da mesma para atingir uma imagem mais formal e sofisticada ou uma maior transição emocionalmente tensa.

 

Como forma poética específica, a prosa poética originou-se no século XIX na França. A prosa francesa era atingida por leis tão restritas que quebrando-as era possível criar novas leis que poderiam ser vistas como poesia em prosa. Assim, o poesia em prosa é considerada por muitos críticos como uma primeira quebra de leis, vontade de expressão. A poesia moderna, aconteceu quando poetas se revoltam contra a obrigatoriedade de um código de escrita, o verso, para chegar-se a definição de poesia, propondo o que foi considerado por muitos uma fusão entre gêneros, ou um novo gênero.

 Poetas como Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud e Stephane Mallarmé são considerados alguns dos fundadores desta forma de poesia.

Porém, o século XVIII já havia produzido outros poemas em prosa, que exploravam o ritmo musical e harmonioso das frases e parágrafos.

Quando Baudelaire escreve sem nenhum ritmo um texto e o intitula de poema, coloca em questão a própria definição de poesia.

 Assim, a prosa poética, nada mais é do que um texto escrito como prosa, mas funcionando como poesia, através da sensibilidade transmitida.

O princípio dessa maneira de escrever, historicamente, é ligado ao simbolismo da França. No Brasil, também associa-se aos simbolistas, em especial ao poeta catarinense Cruz e Souza. Foi a partir do século XX que muitos outros poetas brasileiros seguiram a prosa poética como estilo.

 https://pt.wikipedia.org/wiki/Prosa_po%C3%A9tica

 Exemplo

Primavera

Cecília Meireles


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.


Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

Boas composições!

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Comentários

  • Poesia é pensamento criativo, livre, emancipado

    por isso escrevo...da vida, do amor de tudo ali

    me deixo encorporado

  • Que bom poder ler, várias formas de se compor poesia...Devemos respeitar o clássico, mas estamos agora na era da criatividade e modernidade...Poesia são gotas que brotam da alma, em intensa emoção...

  • Lindo! Bjs.
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