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VENTO

Este vento, Senhor, é o sopro do desamor...
Fustiga a alma, tira a fome, descolore, traz a dor.
A poeira sobe e embaça o ar,
se deposita nos colarinhos, atrapalha enxergar.

Este vento, Senhor, sobe degraus em céu aberto,
conduz micróbios não descobertos,
causa estrias nas águas paradas,
move-se como verme em tripas contaminadas.

Este vento, Senhor, aciona moinhos na estia,
seca o sal, gera energia,
assanha os cabelos da morena
e lhe levanta a saia a revelia.

Ah... Esse vento, Senhor, é mais um exemplo da Sua picardia.

                                                                           Paolo Lim

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TOGA

Colossais insanidades
geram jurisprudências, 
soltam corruptos detidos,
formulam irrecorríveis sentenças.

Quem nos rouba se inocenta
para novos roubos,
e nos fazer de bobos,
com privilegiado foro
e exotéricas sentenças.

Nunca esteve em tamanha voga
o gosto duvidoso da toga,
num tribunal que outorga
liberdade à todo mal.

Mais que nunca:
- Brasil ! O país do carnaval !

                                                      Paolo Lim

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CANTO XIII - O CASAMENTO

- Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                      Como pôde perder a cabeça, que abrigava tão lindo rosto, amado meu, no salão amarelado e tosco daquele velho Liceu ?

- Ah ... Maria Antonieta !                                                                                                                                                            Casáramos com comunhão de bens – lembra ? União estável, sem vinténs... Numa tarde de Halloween e atitudes mirins. Você vestida de Theda Bara e eu de Elvis, o cara... Cerimônia chinfrim, com taças e tin, tins.

-Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                    Escrevêramos a sub-ópera de Saigon na lua de mel diabética - sequer um bombom. Atacáramos sem dó, o dó, ré, mi, buscando o tom, homenageando Giap e Ho Chi Min, seus arrozais inundados, com secretos túneis interligados, milhões de vietcongs armados, soterrados, sob o rá, tá,tá dos helicópteros do Tio Sam, napalm nas palmas amareladas, tentativa vã, sob a lua cheia na lama, ofensiva insana, mortes sem honras à condecorar.

Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                                  Aos poucos você revelou novas facetas: - Messalina enrustida, das trans preferida, arquiteta de pontes para velhos amantes, vagabunda maquiavélica – angelical, angélica. Mata Hari dejà vu, cheque mate, Khárites, mocinha do faroeste, a própria Métis. Espartilhos e olhos esbugalhados, cruz de vidros coloridos contra maus olhados. Incursões por outros mundos – quarto ou quinto, sei lá que número ! Misturada a entidades urbanas, sacanas, baianas - Que não recebem, apenas protegem as putas bacanas.

Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                                Ostentavas as lantejoulas do tesão. Azulzinhas. Ed Lamares, Gretas Garbo. Iguaizinhas. Nem Bruce Lee resistiu: - Golpeou o vazio. Kennedy, tomado por Hímeros, lhe era a feitio. Hittler, para você, comeu mosca. Teve enfastio. Black Panters” lhe foram caros. -“Negros são lindos, muito claros”. E houve o Oscar com Marlon Brando em momento raro...

Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                          Loira como a loucura. Moria, morou ? Pele lisa, dura musculatura. Shiva dourada. Multiplena. Vaca profana. Oráculo de ateus. Metade gente, metade hiena. Atiçadora de Lissa, ladra de cena, desnudadamente plena. Até Tirézias a teria visto.

Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                            Vá... Toque as cornetas por Cronos – corno maluco, temporizador, manso, eunuco, cheio de afetos, papos retos, Valdicks Sorianos despertos, Ânima que anima, Gaia gaiata que ensina pura toxina, pó das vísceras de Hiroxima, espécie rara de propina.

Ah... Maria Antonieta !
                                                                                     Paolo Lim
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CANTO XI - CIVILIZAÇÃO

Faróis de xenon, cegam.
Celulares vitimam.
Lua nova no céu da civilização.

Tecnologias cabestram pensamentos,
borrifam novidades, ensinamentos,
fusões de mensagens, novos fundamentos.

O verso esmirra na "gift" engraçada,
compartilha galhos podres de árvores arrancadas.
Tudo na tela que ofusca a luz do sol esfumaçada.

É o velho falando...
Balançando o momento, abanando o tempo
de terra imprópria.

Camada por camada,
ponta de idéias fendidas
e a sociedade acomodada.

Som de chamada. - "É dela" ?
Assovios, gongos qual bater de panela
e toda curiosidade que o alerta encerra.

Nenhum vento me pertence -
o cristal líquido da tela, vence,
inebria, convence.

O sabiá canta no teatro vazio, sem platéia.
A pata preta da cabra branca
apenas antiga prosopopeia.

Ao mesmo tempo, em tempo
se constroem saudades ao relento.

                                                   Paolo Lim

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CANTO X - A MADRUGADA

O sono do sol sombreava a cidade
antecipando a noite, alegrando a noiva,
arrumando a puta, açambarcando a claridade.

Orei aos mortos, aos marinheiros dos portos,
a fúria dos defuntos doces e azedos, juntos,
ao sangue nas armas, a liberdade atravancada.

Ela se move como deusa sobre saltos, destreza.
Seios empinados, olhos de ébano arregalados,
sinuosos glúteos malemolentes, dentes contentes...

Na penumbra da rua imunda,
o ar sem vida outrora tida.
Azulfundo, rasoprofundo, malgradomundo.

Sentei no primeiro degrau acima do nada.
Golfei palavras amarfalhadas, arrotadas,
enlameadas, em frases vomitadas.

O lazer felino das panteras,
o cheiro azedo das feras,
sem novidades. Velhas quimeras.

A face coral do andar de cima
e os deuses ao meu lado. Parece sina.
- Velha rica ! Sovina !

Não quero vinho. Quero cana.
Estou em Copacabana - lar dos sacanas,
das putas e dos sacripantas.

Eu e meus leopardos
carnalmente saciados,
pela sorte abandonados.

Sorte é o azar vestido de gala,
ou simples refluxo d'água:
- Vem e vai, mais nada.

Nos baixios se aguarda a madrugada -
hora zero da viúva excitada
e do proxeneta dividir migalhas.

Nelson Rodrigues romanceou a verdade,
a calamidade, a autêntica marginalidade
- com doçura, extravagância e beldades...

Arrependa-se na noite. É tiro e queda.
Estimule a madrugada vadia, espia.
Extraia dos olhos as picardias...

Pixadores, grafiteiros e outros atores,
arrancando aplausos, arrecadando valores.
Inês é morta ! - Onde estão os andores ?

Espelhos sugam energias,
congelam imagens. Sabias ?
Derivativos, sugestões, antropofagias...

Oswald de Andrade arrancou a cueca de São Paulo.
Coloriu seu cinzento lúdico, meio ralo
e nos burgueses bunda, botou no rabo.

- "Conheceis e temeis" ! - Diz o pastor
sobre um Deus que mete medo,
castiga, põe no fogo. Um horror.

Subo mais um degrau do nada. Sinto calor.
Conjeturar sobre Deus dá briga.
Espinosa que o diga. Ele ? - Deus nem liga !

O afeto afeta e dá idéias.
É da vida a melopeia
e dos poemas a logopeia...

                                                                                                 Paolo Lim

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AMIGO II

Próximo ou distante,
desengonçado ou elegante,
quieto ou falante,
poeta ou sambista,
pobre ou capitalista,
filósofo ou niilista,
a prazo ou à vista,
quimérico ou intimista,
com ou sem razão,
lhe dou minha amizade
e, de quebra, meu coração.

                                      Paolo Lim

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EMBATE

No despudor duma aurora de amantes,
a intimidade em linguagem chula
ecoando com o ranger da cama
em meio ao tesão que acumula.

Corpos suados,
misturados, penetrados,
oscilantes na coreografia caótica
rogando serem machucados...

O amor é uma luta corporal ?

                                                            Paolo Lim

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COMPARAÇÃO

Como um doce que se estraga sem consumo,
um anel que acompanha o dedo ao túmulo,
um agrado não percebido,
uma saudade do que se tinha esquecido,
vontades sem explicações,
contrariedades aos borbotões,
resfriado liquefeito,
tosses, dor no peito...

Comparações com um amor desfeito.

                                                                       Paolo Lim

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AUDIÇÃO

Seus ouvidos, pier de palavras e sons naturais,
selecionam audições preferenciadas
espedaçando sentenças
morfologicamente erradas.

Surdez seletiva sobre o dia a dia,
palavras sujas, desfocadas, rebeldias
sonâmbulas, assassinato dos verbos,
sons guturais, hieróglifos cegos.

                                                        Paolo Lim

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TOLICE

Fiz um poema que ficou famoso.
Ouvi críticas, elogios e palavras da boca do povo.
Sorri das interpretações que o fizeram novo.
Descobri o quanto o poeta é tolo :
- Pensa que é seu o que reinventam todo.

                                       Paolo Lim

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SOLIDÃO

O silêncio que fala, arquivado no céu da boca.
Dentes cerrados que rangem.
Tarde igual de céu opaco, horizonte próximo,
mesmice do ócio.
Um cesto de pães dormidos, ligeiramente comidos
por dentes apodrecidos, careados, frágeis, doloridos.
Azedo cheiro de azeitonas velhas, restos nas panelas,
poidas cortinas nas janelas.
Decadência exposta sem prudência.
A sujeira dos nascimentos e da inocência.
Migração de cores,
suaves exposições de maus odores,
poeiras acumuladas nas prateleiras,
espedaçar das boas maneiras.
Fim do lógico, os ilícitos.
Escolhas de novos inícios.
Caótico armistício
duma vida em particípio.

                                                                                Paolo Lim

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PALAVRAS

Palavras não andam soltas,
nem são apenas ruídos no ar.
São pensamentos expressos,
sonoros e postos à vibrar.

Palavras são físicas
como feixes de luz a brilhar.

Amargas ou doces,
se fazem escutar.

Associação de conceitos,
sentimentos devocionais,
opiniões, ideias, ideais,
ruídos sentimentais.

Matam a sede,
descarregam.


Palavras sossegam,
excitam, reverberam.

Palavras sentenciam,
acusam, prenunciam.
Palavras cobram,
xingam, oram.

                                         Paolo Lim


 

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MEMÓRIAS

Seios rotundos -
mangas chupadas -,
velhas memórias
mordidas, arranhadas,
atiçam vontades apagadas,
rapsódias desafinadas
num post coitum de madrugada...

O céu continua ali -
após a cortina de chita,
ruída, poluída,
companheira da desdita -
inteiramente nú,
pleno de estrelas excitadas
acentuando o vazio das horas
daquela seca senhora...

O tempo amassa,
o universo testemunha,
a beleza passa
como ninguém supunha,
transformando em farsa
o que se repunha.

                                                                                 Paolo Lim

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LIQUEFAÇÃO

Seu corpo liquefeito no mar de minhas imagens
escorria entre meus dedos ávidos por solidez.
Seu sorriso-deboche zombava de meus desejos
azulados pelas corredeiras quentes e luxuriantes,
como ternuras oferecidas pelo inusitado estado.
Bom sentir-me inundado por sua substância.

Tentei beija-la e quase me afoguei.
Bebi seus lábios e parte de sua língua.
Descendo a medula o friozinho do prazer
fervia o tesão nas ondulações das nádegas,
enrijecendo o pênis que buscava ávido a penetração
profunda e liquidada.

Mesmo submersos, meus pelos eriçavam,
endureciam e, rígidos, resistiam as torrentes...

Seus olhos azuis - redemoinhos profundos -
brilhavam um esplendor de corais magníficos.
Calafrios marejavam minhas pernas
boiando no vazio pleno.

Envolto em suor acordei em terra firme.

                                                                 Paolo Lim

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A MORTE

A morte é pequena,
grande é a cena,
o Céu que acena,
a dor e a pena...

A morte é um passo
que abre espaço,
espreme o bagaço
do nosso cansaço.

A morte é passagem,
não o fim da viagem,
nem tampouco triagem
como acena a imagem.

A morte assusta,
parece injusta,
saudades que custa
à quem não a busca.

                                                                       Paolo Lim

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CÉU DA BOCA

Os escombros do céu da boca -
espaço mítico do prazer profano -
impedem-no o discurso insano
e a profecia populista louca...

Suas palavras incompreensíveis,
tornam-se balbucios inaudíveis,
carregados pelo hálito fétido,
tipico dos alcoólatras morféticos.

Dentro da escavação imunda,
agoniza uma língua podre,
cacos de dentes que a cova afunda
à espera da terra sobre...

                                                                                     Paolo Lim

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EXERCÍCIO

Rimas cheias com "ão",
sabores à canção,
metem medo nas crianças,
fazem forte a oração.

Servem ao amor, ao coração,
imitam o bicho papão,
adjetivam provérbios de Salomão
e explodem bolinhas de sabão.

Essas nuvens nuvulosas
trazendo chuvas dadivosas,
pintassilgos e curiós,
parolas que desatam nós,
traidoras e traíras,
chulés e ziquiziras,
me fazem inocente
me obrigam ser coerente,
escrever poemas malucos,
espremer da vida os sucos,
rever a Maria Fumaça
que passava lá na praça, 
lembranças do mundo afora,
mais bonito que agora:

- Flagrantes da vizinha
caminhando no quarto de calcinha;
Latido do Bozó
como um samba duma nota só;
Causos e meu casulo
de quando tinha medo de escuro,
brincava na beira da praia,
dava pernadas, rabos de arraia.

Mas voltemos ao rimado com "ão" -
É o bão, é o bão, é o bão ! -
que nos inspira ser profetas,
prever, ler a mão,
aumentativo de tudo
e está na palavra "não":
- Soa amplo, 
tem impacto de trovão.

Vem, me tira desta confusão
de falar sobre as rimas com "ão"...

                                                                              Paolo Lim

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POLÍTICA

Mentira !

Me tira e mente.
Displicente, mente.
Displicentemente.

Cumula, ativa e mente.
Cumulativamente.

Só, mente.
Somente mente.
Sorrateira, mente.

Mente que mente.
Sorrateiramente.

Simplesmente !

                                      Paolo Lim

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GOSTO ÁCIDO

Não quero o tédio da manhã igual.
Quero vida, emoções comovidas,
esperanças até o final.
Abandono lembranças,bagaços de poemas,
insatisfações acumuladas, 
a pia quebrada,
e o gosto ácido das madrugadas.

Sou mero viajante vital,
meio missa e carnaval.
Não quero a dúvida que transborda,
o medo do grito que acorda,
a privada entupida,
passagem só de ida,
neuroses escondidas.

Quero um dia complicado,
encarar o trânsito engarrafado,
me livrar, sair do outro lado,
inteiro ou machucado,
não importa o resultado.
O chuveiro tá gelado,
o cano furado.

Quero encontrar novas trilhas,
observar as cercanias,
me fartar de novidades,
experimentar dificuldades,
rir das adversidades,
quebrar o velho liquidificador,
remendar o cobertor,
ser pleno de contradições,
inventar orações
e pagar as prestações.

Eu quero...

                                            Paolo Lim

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CPP