Posts de Paolo Lim (78)

OUSADIA


Muitas sombras...
A vida é para ser vista à luz do dia.
Mastigada, deglutida com temperos de ousadia.
A paz é utopia.
 
 
Entre na guerra.
Abandone os caminhos traçados,
experimente secos e molhados,
pise na lama, durma na rama,
execute aqueles sonhos encalhados.
 
 
Quebre regras,
saia da cela,
refresquece-se no mar desconhecido,
busque o infinito dos desejos esquecidos,
seja o que poderia ter sido.
 
 
Saia da sombra,
escreva no asfalto o que pensa,
voe, chega de pedir licenças,
submeter-se às crenças,
viver desavenças.
 
 
A vida é ousadia.
 
                                                          Paolo Lim
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MOÇO

Empalado até o pescoço,

morreu ainda moço

pelo destino que armou.

 

Naquela tarde o badalar do sino,

despalavrou o rabino,

entristeceu o pároco e irritou o pastor.

 

Empalado até o pescoço -

jovem, bonito, bom moço -

morreu por prazer e amor.

                                                                           Paolo Lim

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ASSIM SERÁ...

Palavras, como cascas de barata,
luzem na contraluz e se desfazem
na memória do instante seguinte.

Cego como morcego, ouço o mar
batendo em aposentos vazios
em busca da beleza primal.

Quatro cadeiras e a cama arqueada
na simples sucessão convencional
de necessidades vitais.

Meu portal sem maçaneta
se abre ostensivamente
à paisagem oleosa.

Vozes de homens velhos
procurando ouvidos
em meio a fatos corriqueiros.

Frágeis cascas que conheci como homens,
sorriem banguela para a vida
que insiste em não deixa-los partir.

Eros afogado às velhas vontades,
ribomba desejos, sensações, aflições,
agitando o casulo seco.

Move-se a grande indiferença,
ressurgem as velhas vontades
na mesa parca, engalanada.

Apaga-se a vela.
O escuro eterno.
Pronto. Nada mais será novo...

                                                                                             Paolo Lim

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GOROROBA

Comida o vento não leva;
Quem tem estômago tem pressa.
É pela barriga que se chega ao intestino
Raspar o prato é educação, trato fino.

A vida é gororoba da boa,
não podemos desperdiça-la atoa.
Gordura é reserva de energias,
Rubens amava as gordinhas.

Chocólatras, uni-vos !
Leiam o que dizem os livros.
O que os olhos não vêem,
o estômago não pede,
o nariz fareja longe o que fede...

Olho de sogra é delícia;
Ovos mexidos ? - Caso de polícia !

Não é chique, em público, comer coxinhas.
Coma escondido num canto da cozinha.

Empada de camarão, tentação;
- Eita veneno bão !

Morramos pela boca.
Garanto que melhor do que pelo coração.

                                                                       Paolo Lim

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REFLEXÕES

Nem um vacilo de luz do sol -
no quarto escuro sinto-me especial,
crio luz, mergulho no essencial,
vejo o que quero, admiro o que se mostra
neste precário caos vital...

Eu e o negror. Silêncio epidérmico.
Um vento anêmico carrega espectros,
imagens mentais, filosofais,
misturam mitos e arquétipos,
dialéticos.

Consumo fundamentos
jamais expostos ao relento.
Herméticos e purulentos.
Não é um surto porque curto.
Não é triste pois sorrio,
têm a imponderabilidade dum rio...

Vulcão com fogo controlado,
lavas d'ouro, explosões ao largo,
emoções perigosas,
trips venenosas,
valores torpes à testemunhar,
amesquinhar, querer guardar
para ter, sem ser, sem crer,
se enrolar...

Fiat lux !

                                                                                              Paolo Lim

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VENTO

Este vento, Senhor, é o sopro do desamor...
Fustiga a alma, tira a fome, descolore, traz a dor.
A poeira sobe e embaça o ar,
se deposita nos colarinhos, atrapalha enxergar.

Este vento, Senhor, sobe degraus em céu aberto,
conduz micróbios não descobertos,
causa estrias nas águas paradas,
move-se como verme em tripas contaminadas.

Este vento, Senhor, aciona moinhos na estia,
seca o sal, gera energia,
assanha os cabelos da morena
e lhe levanta a saia a revelia.

Ah... Esse vento, Senhor, é mais um exemplo da Sua picardia.

                                                                           Paolo Lim

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TOGA

Colossais insanidades
geram jurisprudências, 
soltam corruptos detidos,
formulam irrecorríveis sentenças.

Quem nos rouba se inocenta
para novos roubos,
e nos fazer de bobos,
com privilegiado foro
e exotéricas sentenças.

Nunca esteve em tamanha voga
o gosto duvidoso da toga,
num tribunal que outorga
liberdade à todo mal.

Mais que nunca:
- Brasil ! O país do carnaval !

                                                      Paolo Lim

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CANTO XIII - O CASAMENTO

- Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                      Como pôde perder a cabeça, que abrigava tão lindo rosto, amado meu, no salão amarelado e tosco daquele velho Liceu ?

- Ah ... Maria Antonieta !                                                                                                                                                            Casáramos com comunhão de bens – lembra ? União estável, sem vinténs... Numa tarde de Halloween e atitudes mirins. Você vestida de Theda Bara e eu de Elvis, o cara... Cerimônia chinfrim, com taças e tin, tins.

-Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                    Escrevêramos a sub-ópera de Saigon na lua de mel diabética - sequer um bombom. Atacáramos sem dó, o dó, ré, mi, buscando o tom, homenageando Giap e Ho Chi Min, seus arrozais inundados, com secretos túneis interligados, milhões de vietcongs armados, soterrados, sob o rá, tá,tá dos helicópteros do Tio Sam, napalm nas palmas amareladas, tentativa vã, sob a lua cheia na lama, ofensiva insana, mortes sem honras à condecorar.

Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                                  Aos poucos você revelou novas facetas: - Messalina enrustida, das trans preferida, arquiteta de pontes para velhos amantes, vagabunda maquiavélica – angelical, angélica. Mata Hari dejà vu, cheque mate, Khárites, mocinha do faroeste, a própria Métis. Espartilhos e olhos esbugalhados, cruz de vidros coloridos contra maus olhados. Incursões por outros mundos – quarto ou quinto, sei lá que número ! Misturada a entidades urbanas, sacanas, baianas - Que não recebem, apenas protegem as putas bacanas.

Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                                Ostentavas as lantejoulas do tesão. Azulzinhas. Ed Lamares, Gretas Garbo. Iguaizinhas. Nem Bruce Lee resistiu: - Golpeou o vazio. Kennedy, tomado por Hímeros, lhe era a feitio. Hittler, para você, comeu mosca. Teve enfastio. Black Panters” lhe foram caros. -“Negros são lindos, muito claros”. E houve o Oscar com Marlon Brando em momento raro...

Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                          Loira como a loucura. Moria, morou ? Pele lisa, dura musculatura. Shiva dourada. Multiplena. Vaca profana. Oráculo de ateus. Metade gente, metade hiena. Atiçadora de Lissa, ladra de cena, desnudadamente plena. Até Tirézias a teria visto.

Ah... Maria Antonieta !                                                                                                                                                                            Vá... Toque as cornetas por Cronos – corno maluco, temporizador, manso, eunuco, cheio de afetos, papos retos, Valdicks Sorianos despertos, Ânima que anima, Gaia gaiata que ensina pura toxina, pó das vísceras de Hiroxima, espécie rara de propina.

Ah... Maria Antonieta !
                                                                                     Paolo Lim
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CANTO XI - CIVILIZAÇÃO

Faróis de xenon, cegam.
Celulares vitimam.
Lua nova no céu da civilização.

Tecnologias cabestram pensamentos,
borrifam novidades, ensinamentos,
fusões de mensagens, novos fundamentos.

O verso esmirra na "gift" engraçada,
compartilha galhos podres de árvores arrancadas.
Tudo na tela que ofusca a luz do sol esfumaçada.

É o velho falando...
Balançando o momento, abanando o tempo
de terra imprópria.

Camada por camada,
ponta de idéias fendidas
e a sociedade acomodada.

Som de chamada. - "É dela" ?
Assovios, gongos qual bater de panela
e toda curiosidade que o alerta encerra.

Nenhum vento me pertence -
o cristal líquido da tela, vence,
inebria, convence.

O sabiá canta no teatro vazio, sem platéia.
A pata preta da cabra branca
apenas antiga prosopopeia.

Ao mesmo tempo, em tempo
se constroem saudades ao relento.

                                                   Paolo Lim

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CANTO X - A MADRUGADA

O sono do sol sombreava a cidade
antecipando a noite, alegrando a noiva,
arrumando a puta, açambarcando a claridade.

Orei aos mortos, aos marinheiros dos portos,
a fúria dos defuntos doces e azedos, juntos,
ao sangue nas armas, a liberdade atravancada.

Ela se move como deusa sobre saltos, destreza.
Seios empinados, olhos de ébano arregalados,
sinuosos glúteos malemolentes, dentes contentes...

Na penumbra da rua imunda,
o ar sem vida outrora tida.
Azulfundo, rasoprofundo, malgradomundo.

Sentei no primeiro degrau acima do nada.
Golfei palavras amarfalhadas, arrotadas,
enlameadas, em frases vomitadas.

O lazer felino das panteras,
o cheiro azedo das feras,
sem novidades. Velhas quimeras.

A face coral do andar de cima
e os deuses ao meu lado. Parece sina.
- Velha rica ! Sovina !

Não quero vinho. Quero cana.
Estou em Copacabana - lar dos sacanas,
das putas e dos sacripantas.

Eu e meus leopardos
carnalmente saciados,
pela sorte abandonados.

Sorte é o azar vestido de gala,
ou simples refluxo d'água:
- Vem e vai, mais nada.

Nos baixios se aguarda a madrugada -
hora zero da viúva excitada
e do proxeneta dividir migalhas.

Nelson Rodrigues romanceou a verdade,
a calamidade, a autêntica marginalidade
- com doçura, extravagância e beldades...

Arrependa-se na noite. É tiro e queda.
Estimule a madrugada vadia, espia.
Extraia dos olhos as picardias...

Pixadores, grafiteiros e outros atores,
arrancando aplausos, arrecadando valores.
Inês é morta ! - Onde estão os andores ?

Espelhos sugam energias,
congelam imagens. Sabias ?
Derivativos, sugestões, antropofagias...

Oswald de Andrade arrancou a cueca de São Paulo.
Coloriu seu cinzento lúdico, meio ralo
e nos burgueses bunda, botou no rabo.

- "Conheceis e temeis" ! - Diz o pastor
sobre um Deus que mete medo,
castiga, põe no fogo. Um horror.

Subo mais um degrau do nada. Sinto calor.
Conjeturar sobre Deus dá briga.
Espinosa que o diga. Ele ? - Deus nem liga !

O afeto afeta e dá idéias.
É da vida a melopeia
e dos poemas a logopeia...

                                                                                                 Paolo Lim

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AMIGO II

Próximo ou distante,
desengonçado ou elegante,
quieto ou falante,
poeta ou sambista,
pobre ou capitalista,
filósofo ou niilista,
a prazo ou à vista,
quimérico ou intimista,
com ou sem razão,
lhe dou minha amizade
e, de quebra, meu coração.

                                      Paolo Lim

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EMBATE

No despudor duma aurora de amantes,
a intimidade em linguagem chula
ecoando com o ranger da cama
em meio ao tesão que acumula.

Corpos suados,
misturados, penetrados,
oscilantes na coreografia caótica
rogando serem machucados...

O amor é uma luta corporal ?

                                                            Paolo Lim

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COMPARAÇÃO

Como um doce que se estraga sem consumo,
um anel que acompanha o dedo ao túmulo,
um agrado não percebido,
uma saudade do que se tinha esquecido,
vontades sem explicações,
contrariedades aos borbotões,
resfriado liquefeito,
tosses, dor no peito...

Comparações com um amor desfeito.

                                                                       Paolo Lim

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AUDIÇÃO

Seus ouvidos, pier de palavras e sons naturais,
selecionam audições preferenciadas
espedaçando sentenças
morfologicamente erradas.

Surdez seletiva sobre o dia a dia,
palavras sujas, desfocadas, rebeldias
sonâmbulas, assassinato dos verbos,
sons guturais, hieróglifos cegos.

                                                        Paolo Lim

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TOLICE

Fiz um poema que ficou famoso.
Ouvi críticas, elogios e palavras da boca do povo.
Sorri das interpretações que o fizeram novo.
Descobri o quanto o poeta é tolo :
- Pensa que é seu o que reinventam todo.

                                       Paolo Lim

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SOLIDÃO

O silêncio que fala, arquivado no céu da boca.
Dentes cerrados que rangem.
Tarde igual de céu opaco, horizonte próximo,
mesmice do ócio.
Um cesto de pães dormidos, ligeiramente comidos
por dentes apodrecidos, careados, frágeis, doloridos.
Azedo cheiro de azeitonas velhas, restos nas panelas,
poidas cortinas nas janelas.
Decadência exposta sem prudência.
A sujeira dos nascimentos e da inocência.
Migração de cores,
suaves exposições de maus odores,
poeiras acumuladas nas prateleiras,
espedaçar das boas maneiras.
Fim do lógico, os ilícitos.
Escolhas de novos inícios.
Caótico armistício
duma vida em particípio.

                                                                                Paolo Lim

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PALAVRAS

Palavras não andam soltas,
nem são apenas ruídos no ar.
São pensamentos expressos,
sonoros e postos à vibrar.

Palavras são físicas
como feixes de luz a brilhar.

Amargas ou doces,
se fazem escutar.

Associação de conceitos,
sentimentos devocionais,
opiniões, ideias, ideais,
ruídos sentimentais.

Matam a sede,
descarregam.


Palavras sossegam,
excitam, reverberam.

Palavras sentenciam,
acusam, prenunciam.
Palavras cobram,
xingam, oram.

                                         Paolo Lim


 

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MEMÓRIAS

Seios rotundos -
mangas chupadas -,
velhas memórias
mordidas, arranhadas,
atiçam vontades apagadas,
rapsódias desafinadas
num post coitum de madrugada...

O céu continua ali -
após a cortina de chita,
ruída, poluída,
companheira da desdita -
inteiramente nú,
pleno de estrelas excitadas
acentuando o vazio das horas
daquela seca senhora...

O tempo amassa,
o universo testemunha,
a beleza passa
como ninguém supunha,
transformando em farsa
o que se repunha.

                                                                                 Paolo Lim

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LIQUEFAÇÃO

Seu corpo liquefeito no mar de minhas imagens
escorria entre meus dedos ávidos por solidez.
Seu sorriso-deboche zombava de meus desejos
azulados pelas corredeiras quentes e luxuriantes,
como ternuras oferecidas pelo inusitado estado.
Bom sentir-me inundado por sua substância.

Tentei beija-la e quase me afoguei.
Bebi seus lábios e parte de sua língua.
Descendo a medula o friozinho do prazer
fervia o tesão nas ondulações das nádegas,
enrijecendo o pênis que buscava ávido a penetração
profunda e liquidada.

Mesmo submersos, meus pelos eriçavam,
endureciam e, rígidos, resistiam as torrentes...

Seus olhos azuis - redemoinhos profundos -
brilhavam um esplendor de corais magníficos.
Calafrios marejavam minhas pernas
boiando no vazio pleno.

Envolto em suor acordei em terra firme.

                                                                 Paolo Lim

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CPP