O HOMEM E A ESTRADA
Acordou e deu um tapa no galo
que estava com preguiça de despertar.
Lavou o rosto
na água fria do poço;
ficou alguns segundos
refletindo nos olhos da água.
Calçou as botas
ainda molhadas da chuva de ontem,
apertou os cadarços,
dos quais escorreu um caldo marrom.
E saiu.
A estrada conhecia seus passos.
Conhecia o peso
dos dias molhados,
do barro se agarrando à barra da calça
e da garoa guasqueada vinda do sul.
Penetrava até os ossos,
como rosetas daninhas.
No campo,
o vento passava baixo,
envergando o capim.
Ao longe,
uma árvore sozinha
remava as nuvens pretas.
A cada investida do minuano,
ela ia e vinha.
As folhas se agarravam como podiam,
mas de vez em quando uma se desprendia;
sumia pelo mundo afora.
Levava nas mãos
a aspereza do trabalho
e, nos bolsos,
meia dúzia de grampos de cerca
pro causo de algum reparo.
Quando lá pelas tantas,
as nuvens sentiram saudades do calor,
deram brecha pro sol entrar.
Tirou o chapéu em agradecimento.
Só quem não desistia era o vento,
que dançava um xote com a árvore.
Não havia aplausos nem compasso.
Só um tufão atrás do outro.
Aquele homem,
embalado na dança da lida,
atava firme o barbicacho,
que o vento, feito o diacho,
lhe tapeava o chapéu,
tentando arrancá-lo.
Ao voltar,
o escuro já aquerenciado,
viu a luz acesa
pela fresta da mata-junta do lado.
Parou no portão.
Respirou fundo.
E, pela primeira vez naquele dia,
deixou o peso no chão.
Tirou o excesso de barro numa poça d'água,
esfregou as mãos na grama,
despiu as botas chulesentas,
lavou-se com a água da cacimba
e entrou.
A casa o recebeu
sem perguntar nada.
Foi um sorriso de quem estava lá.
Um beijo na testa da menina, no berço deitada.
E um convite para sentar à mesa,
pois o caldo já estava preparado.
E foi assim
que ele entendeu:
há homens que não precisam dizer
que amam.
Eles chegam cansados,
penduram o chapéu,
lavam-se antes de entrar
e se fazem presentes.
E às vezes
estar
é a forma mais bonita
de dizer
“eu te amo”.
MHermes