Posts de Mauricio Hermes (38)

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Todos usam

 

Todos usam:
corredeira. Sem exceção.
Pondero...
Me empurraram.

É bom escorregar!
A água bate, vem a neblina,
muda a paisagem inteira.

Mas nos grampos, a corda tesa.
Me molho, volto. Há ancoragens...

O que molda a corredeira?
A rocha.
Quem a nota?

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O Caqui

O Caqui

Hoje o caqui caiu,
ante a casa calada.
O menino pobre descobre:
— caqui do chão, bão!

Na cozinha da vizinha,
fartura de frutas frescas.
— Caqui do chão, não!
— Comida pra porco gordo.

Porco pançudo come tudo.
Menino pobre não pode!
Reclama, ainda, a dama:
— tenta sorte noutro norte!

MHermes.

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11 anos da Casa dos Poetas e da Poesia

11 anos da Casa dos Poetas e da Poesia

Há pouco tempo cheguei,
mas muito já aprendi
nos versos que aqui encontrei,
que li, reli e ainda lerei.

Encontrei inspiração,
aprendi com tantos poetas,
ganhei amizades e afeição,
e descobri na flor novas pétalas.

A cada poema,
a Casa vai deixando em mim
mais que versos:

um jeito de sentir,
de pensar
e de enxergar poesia.

E talvez seja isso
que uma Casa de poetas faz:
abre portas para os versos
e deixa poesia em quem passa.

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No Passo da Zaina

 

No Passo da Zaina

Num puxão, freei o galope,
deixando o resvalo do trote,
no barro da barranca.
Apeei junto à corredeira;
na água fria e ligeira
que a correria estanca.

Pendurei as botas manchadas,
cansadas de estradas,
na forquilha junto ao chicote.
Joguei seixos achatados,
de correnteza lavrados,
que riscam a água em pinotes.

Despi o pesado poncho
e mergulhei no poço,
no fundo, tateando pedras.
Subi no antigo sarandi,
entre brotos, feito guri,
segui formigas lerdas.

Brinquei com o sol, boiando,
de mansinho aquentando
a água devagar.
Ouvi o mastigar da potranca,
pastando na barranca,
sem se apressar.

Um relincho me acordou,
quando o sol se deitou
atrás do capão.
A zaina de passada solta,
uma rã responde da moita,
e a noite me deu a mão.

MHermes.

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Se eu fechar a janela

Se eu fechar a janela

Se eu fechar a janela da madrugada,
de olhos que já vão ficando cansados,
de tanto girar lençóis embolados,
como sentirei teu beijo na alvorada?

Se eu fechar a janela da madrugada,
com medo de entrar uma aragem gelada,
que me roube a paz de uma noite calada,
como ouvirei teu sussurro e tua risada?

Se eu fechar a janela da madrugada,
e uma beija-flor pairar frente ao vidro,
querendo entrar, em busca de abrigo,
como saberei quando é a hora marcada?

Tenho desejado esse beijo molhado,
sob o brilho da lua em seu ocaso,
deixando a boca à mercê do acaso,
sem saber se foi sonho ou pecado.

E se eu estiver fechando a janela
justamente quando a lua
vier iluminar
tua chegada?

 

MHermes.

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O HOMEM E A ESTRADA

O HOMEM E A ESTRADA

Acordou e deu um tapa no galo
que estava com preguiça de despertar.

Lavou o rosto
na água fria do poço;
ficou alguns segundos
refletindo nos olhos da água.

Calçou as botas
ainda molhadas da chuva de ontem,
apertou os cadarços,
dos quais escorreu um caldo marrom.

E saiu.

A estrada conhecia seus passos.
Conhecia o peso
dos dias molhados,
do barro se agarrando à barra da calça
e da garoa guasqueada vinda do sul.
Penetrava até os ossos,
como rosetas daninhas.

No campo,
o vento passava baixo,
envergando o capim.

Ao longe,
uma árvore sozinha
remava as nuvens pretas.
A cada investida do minuano,
ela ia e vinha.
As folhas se agarravam como podiam,
mas de vez em quando uma se desprendia;
sumia pelo mundo afora.

Levava nas mãos
a aspereza do trabalho
e, nos bolsos,
meia dúzia de grampos de cerca
pro causo de algum reparo.

Quando lá pelas tantas,
as nuvens sentiram saudades do calor,
deram brecha pro sol entrar.
Tirou o chapéu em agradecimento.

Só quem não desistia era o vento,
que dançava um xote com a árvore.
Não havia aplausos nem compasso.
Só um tufão atrás do outro.

Aquele homem,
embalado na dança da lida,
atava firme o barbicacho,
que o vento, feito o diacho,
lhe tapeava o chapéu,
tentando arrancá-lo.

Ao voltar,
o escuro já aquerenciado,
viu a luz acesa
pela fresta da mata-junta do lado.

Parou no portão.
Respirou fundo.
E, pela primeira vez naquele dia,
deixou o peso no chão.

Tirou o excesso de barro numa poça d'água,
esfregou as mãos na grama,
despiu as botas chulesentas,
lavou-se com a água da cacimba
e entrou.

A casa o recebeu
sem perguntar nada.
Foi um sorriso de quem estava lá.
Um beijo na testa da menina, no berço deitada.
E um convite para sentar à mesa,
pois o caldo já estava preparado.

E foi assim
que ele entendeu:
há homens que não precisam dizer
que amam.

Eles chegam cansados,
penduram o chapéu,
lavam-se antes de entrar
e se fazem presentes.

E às vezes
estar
é a forma mais bonita
de dizer
“eu te amo”.

MHermes

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Além do sol

Além do sol

Hoje acordei mais cedo
que a montanha.
O vermelho no céu
estava preguiçoso
em se mostrar
no encontro das cortinas.

A casa ainda
guardava
o silêncio da janela encostada,
só o escorrer do café
ecoava sinfonia
depositando-se no frasco.

O sol ainda escondido,
empurrando o lençol,
aguarda
o café, gota a gota,
terminar de pingar na cafeteira.
Firme no silêncio,
desejando a hora de beijar o céu,
e enrubescer-lhe o alvor.

Lá fora,
um par de pombos sentou no varal,
se acariciaram com seus bicos,
catando piolhos um do outro.
Foram-se.

Abri a cortina,
e dividi o café com o vermelho do céu,
que chegou.
Esperei o sol,
sem pressa.

Bom-dia!

 

MHermes.

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Por que ali!

Por que ali!

Passei a mão
no parapeito lustroso.

Olhei a vista.

A laranjeira atrapalhava ver
a estrada que cortava,
e protegia de algum "boa tarde".

Passava horas...

Quando chovia, nem se virava;
se esquivava,
até onde não molhava.

E continuava
a mirar o horizonte.

Passaram anos...

Só.

Nem ferrugem,
só calos nos cotovelos.

 

MHermes.

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Quando a tarde se demora

Quando a tarde se demora

Hoje a tarde
não teve pressa.

Sentou-se na janela
e ficou olhando
o café esfriar.

Lá fora,
um passarinho bicava
as sementes da grama,
como se soubesse
que matando a fome
pode semear.

Eu fiquei ali,
sem fugir dos pensamentos.

Às vezes,
escutar o tempo
é o remédio.

E me recordo
da mamadeira quentinha
deixada na cabeceira.
Do galo cantando
às cinco pra confirmar
que a vida nasce em todo lugar.

Foi quando ouvi
passos conhecidos,
vindos da memória
do corredor da sala.

Não porque você estivesse longe,
nem porque você estivesse perto,
mas porque eu estou aqui.

Há pessoas
que a gente não encontra
em lugar algum:
elas nos encontram,
nos fazem,
por dentro.

Então a tarde foi indo, devagar,
o café perdeu o calor,
e a janela continuou aberta,
o passarinho se foi.

Assim você construiu o amor,
dentro de mim.
Que a tarde fique mesmo quando
escurecer —
meus olhos nublarem!
Porque ninguém enxugará essa lágrima
e você continuará a morar aqui,
nas minhas tardes.

Mamãe!

 

MHermes.

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Sentei no muro

Sentei no muro

Sentei no muro, era o primeiro dia;
tantos abraços longos no saguão;
o burburinho e apertos de mão;
mas nenhum rosto eu reconhecia.

A solidão perdeu a primazia,
vi teu sorriso, em meio à multidão,
cortou filas em minha direção;
perdi o mundo: só você havia.

Em silêncio, brotou nova emoção;
cresceu livre — nem lhe pude nomear.
Foram semestres, como dois irmãos.

Teu cheiro veio logo me cercar.
Não do perfume, mas do coração:
que contava os dias para me encontrar.

 

MHermes.

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Resistência

Resistência

Resistente? Que isso!
Sou apenas um caniço!
Haste seca de pouco viço,
alimento para o petiço.

Resistente? Pode parar!
Só me queres pra ancorar
as tralhas para pescar,
e as roupas lá no varal!

Resistente? Me larga!
Virar balaio de carga,
limpar cano de espingarda,
ser cerca da retaguarda!

Resistente? Pois não!
O mais fino dos bambus,
enfrentando os guabijus;
o vergar que me traduz.

MHermes.

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Só ficou o som da porta

 

Só ficou o som da porta

Peguei firme na maçaneta torta;
encostei o ombro para empurrar a porta;
que raspava o chão em gastas valinhas.
Antes de abrir, era a velha cozinha.

A cadeira vazia com barbantes desfiados;
de tinta sumida onde as costas roçavam;
espera pelo pé deitar no velho sulcado,
enquanto enche o mate quente e espumado.

O assoalho queimado diante do fogão
recebia faíscas de brasas que caíam;
só quem se importava era a água da chaleira,
que em vapor vencia a brasa das madeiras.

Hoje não há fogo, nem cordas no violão,
ninguém me convida a ouvir Ave Maria,
ou dedilhar Mula Ruzia, esquecida canção.
E quem nota, pingando, a torneira da pia?

MHermes

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Eu não sou poeta!

 

Eu não sou poeta!
O poeta é antena que diz,
em letras ou traços de giz,
o que a alma quer desvelar,
não na obra, mas no captar.

Eu não sou poeta!
O poeta antevê o sublime;
e em fumaça ele o imprime.
Eu, cativo, aprisiono o querer,
lá no branco onde ousa nascer.

Eu não sou poeta!
A poesia se expressa sem ser,
e quem pode prendê-la no ler?
Ela guia enquanto se cria;
eu leio hoje e você outro dia.

Eu não sou poeta!
Cativo, aprisiono o contexto,
quando o papel engole a magia.
Sobre o que era mesmo o texto?
Só o desabafo, jejum da poesia.

 

MHermes.

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E decidir...

E decidir...

O que é
essa coisa forçosa no peito?

Se tu estás sempre do meu lado,
por que fico procurando os rastros?

Na velocidade dos carros passando,
ouço pneus cantando no asfalto:
um vai buscar o afilhado,
outro segue só em seu trajeto.

Procuro a tua companhia —
e estás do meu lado!

Não é o desamor que arde,
quando choro no silêncio da tarde!

Que outra sorte?
Que outra sorte há,
se estou sempre contigo;
se nunca vou te perder;
se tenho teu amor para viver?

Quando não te vivo,
eu vivo por quê?

Vamos indo,
para sentar no banco da praça.
Eu te espero, olhando para a torre,
e percebo que tu não passas.

Então digo:
— Meu Deus, onde está
o calor que tanto procuro?

Tu dizes:
— Está lá, naquele lugar,
no pacote que deixei sob o muro.

Sob o muro não é um lugar.
É a porta que abre a passagem.
Se tu não estiveres por lá,
como vais pegar a bagagem?

E decidir...

MHermes.

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Retalhos de sol

Retalhos de sol

Era de penas meu acolchoado,
com capa que o fazia embolar,
me mantinha no quente deitado,
Esperando pelo sol trabalhar.

Um pranchão na parede encostado,
Me chamava para escorregar,
Dava em cima de um tronco lascado,
Também mesa para o meu lanchar.

Uma faca esperava no entalho,
Pras laranjas poder descascar.
Em dois tempos subia nos galhos,
enchendo os bolsos até abarrotar.

Hoje, ainda, o sol faz seu trabalho?
E a laranjeira tem quem a escalar?
Ou restam apenas velhos retalhos,
do inverno sem criança a brincar?

MHermes.

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teu abraço

teu abraço
Simplesmente não alcancei teus braços,
e me plantei no faltar daquele abraço!
Como publicano, em minha oração,
não acreditei que em teu peito,
permanecesse o antigo espaço.

E eu me aproximei
sem palavras, passo após passo,
de cabeça baixa, mordendo o mormaço,
botando em prática a teoria do disfarço;
como quem conhece
o silêncio
antes mesmo de ouvi-lo.

Vem! Não preciso saber
onde termina tua saudade,
nem onde começa um coração,
que arde na razão do que não sabe.

Só deixa as minhas mãos
encontrar o caminho!
“Se queres meu forte,
eu te dou!”
Se procuras o ponto onde paramos,
eu o desenhei no mapa:
o encontrarás.

Talvez seja isso:
eu não procuro espaços
que forçam um abraço;
não levo a dor embora;
nem espero um instante,
porque estou plantado nessa demora.
Tu pedes que a noite pare.
Eu não prometo nada.
Mas posso ficar contigo:
aluguei duas madrugadas.

E quando vier o dia,
se ainda houver saudade,
não precisas pedir.
“Meus braços plantados
sempre estiveram aqui!”

“Para Ciducha, cuja poesia me inspirou a responder com estes versos, com  a humildade de um principiante.”

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Primeiro Amor Tchê!

 

AMOR PRIMEIRO TCHE

 

No desenho lindo 

do gelo que nasce 

no torrar do verão; 

canchas vão se abrindo 

em mimos enlaces

da xucra estação! 

 

O vento tá insistindo, 

que eu vá no disfarce, 

afrouxando o garrão! 

E me vejo rindo

no acanhado embace 

do guri redomão!

 

Fui pêgo no laço, 

um simples tento 

se fez mundaréu. 

Que baita embaraço, 

peleando por dentro; 

de alma nua ao léu. 

 

Esporeei o picaço, 

e o lamber do vento 

deu rumo as buenas!

E voltei no braço! 

Não vivo lamento

De sombras pequenas. 

 

Não refuguei o arreio 

do bater do peito. 

Que corra frouxo! 

No apear do floreio 

de um luar perfeito; 

aconchegado no poncho! 

 

Que breve entremeio; 

de piá por jeito; 

fugia ao abrocho. 

Que pealo em rodeio! 

Fiz rubrar em eito, 

no abraço de arrocho.

 

Me refiz ligeiro! 

Que guri faceiro, 

no amor primeiro.

 

MHermes 

https://youtu.be/FziNDIV068Y?is=HhEH3GtwSecW3M4l

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Desperto o Inocente!

Desperto o Inocente!

 

Não me demoro em um vendaval,

Nem disputo pelo que é imortal,

Procuro o vácuo do adulto inocente,

e me imprimo em âmago carente.

 

Sempre pronto eu percorro estrada;

E de súbito desvendo a curva;

como a chuva que a terra perturba,

bem onde a noite termina acordada.

 

Disparo viradas inesperadas.

Inquieto a paz do grão a dormir!

Agora sou essa égua encilhada.

 

Estou no sim, no choro e no partir,

no latir que demonstra a chegada.

Na esperança da semente ao cair.

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Minha poesia não é retrato

 

Minha poesia não é retrato:

ela vê no grão de mostarda a beleza da vida;

e dá a uma xícara sem cabo acolhida.

Na lágrima caída, ela vê a que ficou contida.

                                   

Minha poesia não é retrato:

ela contempla a mão que prepara a comida;

e, quando chove, avista a guarida.

Ela escreve a todos um bom-dia,

na chegada, e um até logo na partida.

 

Minha poesia não é retrato:

ela sobe o monte e reza a vida;

acorda, em mergulho, a água dormida.

Ela mira o milharal sem pensar na colhida;

e vê a flor e toca-lhe a ferida.

 

Minha poesia não é retrato:

ela quer ser o sal

na sopa da tia Ida.

 

MHermes.

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Chegaste Agora?

Chegaste Agora?

O teu olhar agrediu o meu doer,

qual borrifo ardido de remediar!

Está encascado; vale assoprar?

Para que justiça? Só enudecer?

 

O que miras é frio, não calor!

Corta como água de rio no inverno.

Em gesto brando que fere o terno,

tentas acordar o que adormiu de dor.

 

O teu fito trai o próprio valor.
É vencido remédio que passou...
Por que me sonegaste teu amor?

 

Senti toda omissão que causou;

e a sepultei com o óbolo do rancor.

Deixei-te! Deixa-me ser o que sou!

Pseudônimo: Óbolo

MHermes.

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