A REDE SOCIAL

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A REDE SOCIAL

    A luz azul do smartphone era a única lanterna de Morgana. No café da manhã, o leite esfriava enquanto ela “aquecia” suas postagens. O mundo físico tornara-se um borrão incômodo; a vida real acontecia em pixels, curtidas e comentários.


    No almoço, o garfo parava suspenso antes de chegar à boca, e mais uma vez tudo esfriava. À noite, abraçava o celular como quem busca conforto e dormia com ele ao seu lado.


— Mamãe, olha o meu desenho! — pediu Pedro, estendendo a folha com um sol torto, pintado às pressas.


— Lindo, filho… — respondeu ela, sem tirar os olhos da tela. — Deixa eu só postar isso aqui.


    Amélia, a filha mais velha, já nem insistia. Aprendera cedo que competir com a tela era perder antes de começar.


    No jantar, o silêncio se acomodava à mesa, quebrado apenas pelo estalo seco das notificações. Plínio Lino, o marido, já não escondia o mal-estar. Os olhos cansados denunciavam noites de espera inútil.


    Certa noite, bateu a mão com força no sofá. O som ecoou pela sala. O rosto, tenso, estava rubro de frustração.


Morgana, chega! Se você não sair desse mundo paralelo, eu vou embora com as crianças. Você está sentada aqui, mas não habita mais esta casa. Você sumiu, Morgana! Sumiu!


    Ela não respondeu. Não ouvia. Os olhos permaneciam grudados à telinha, imóveis, como se o resto do mundo tivesse sido silenciado.


    Naquela noite, Plínio foi dormir no sofá.


    Acordou de madrugada com um vazio estranho na sala. A casa respirava um silêncio pesado demais. Morgana não estava ali.
    No tapete, apenas o celular, aceso. A câmera aberta enquadrava o nada.


    Ela havia desaparecido sem levar roupas, chaves ou documentos.


    Os dias que se seguiram foram de agonia. A polícia não encontrou rastros. Plínio vasculhava o aparelho de Morgana em busca de pistas: um amante, um encontro marcado. Mas encontrava apenas o de sempre — milhares de seguidores reagindo a fotos antigas e fofocas de todo gênero.


   Na terceira noite, surgiu um vídeo novo no perfil dela. Sem legenda.
Plínio sentiu um calafrio. Ela está postando? De onde?


    No vídeo, uma figura pequena, muito parecida com Morgana, corria por um espaço branco e infinito, chocando-se contra algo que pareciam paredes de vidro invisíveis.


— Que tipo de brincadeira é essa? — rosnou. — Ela some e agora posta essas imagens para nos assustar?


    Os comentários subiam em cascata: “Que efeito surreal!”, “Parece real demais”, “Como ela fez isso?”. O contador já ultrapassava dois milhões de visualizações.


    O ódio de Plínio transbordou. Aquilo era a prova final do deboche. Morgana escolhera o palco digital. Escolhera não voltar.


Chega. Se você quer viver nesse mundo, viva sozinha. Eu vou apagar você da minha vida.


    Com os dedos trêmulos, selecionou o arquivo. Na tela, o rosto de Morgana parecia se contorcer. As mãos espalmadas contra o vidro invisível. A boca aberta num grito sem som.


    Plínio respirou fundo.


    “Deseja excluir permanentemente este arquivo?”


    Ele pressionou "Sim".


    No mesmo instante, o celular emitiu um estalo seco. A tela brilhou por um segundo e ficou preta.


    Lá dentro, no último milissegundo de sua existência, Morgana viu o dedo do marido descer como um veredito, apagando a luz, o espaço e o tempo. Ela não foi embora; apenas deixou de ser processada.


    Plínio largou o aparelho na gaveta, sentindo um alívio amargo. No quarto ao lado, as crianças choravam. Ele acreditava ter apagado um vídeo. Tinha acabado de desligar a esposa.


    O verdadeiro perigo não é a máquina se tornar humana, mas o ser humano se tornar tão descartável quanto ela.

                                                                                                                                                                                                 Miniconto de Nelson de Medeiros.

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Nelson de Medeiros

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Comentários

  • Um mini-conto digno de aplausos! Magnífico menstrel dos contos, ele resplandece em beleza e vigor, parabéns e um forte abraço — ©JoaoCarreiraPoeta.

  • Caro poeta Nelson de Medeiros

    Em toda minha existência de 82 anos tive lá bem atrás, no início, um daqueles que mais pareciam um par de sapatos de tão grande.

    Fui assaltado, levaram o dito cujo e nunca mais tive um.

    Ficam me dizendo: "não existe ninguém no mundo que não tenha um celular". Rio e digo: eu não tenho e nem quero, porque vai estragar minha vida.

    Achei maravilhoso o texto e muito verdadeiro, num mundo esquecido em que bilhõs vivem.

    Parabéns

    Abraços 

  • Nelson! Que demais! Estou estupefata!

    Quanta verdade,  quanta sabedoria expressada em um miniconto!

    Bjs

    • AVe, Dolores! O bardo te sáuda e te agradece a deferencia! Gostas de  minicontos? Quando meu livro de minicontos chegar vou te mandar um exemplar, ok? bj

  • Retrato de muitos com o uso da tecnologia, e requer tratamento psicológico. Um conto bem elaborado, Nelson. Abraços

  • Belíssimo Conto neste tema Redes Sociais e o uso excessivo do celular que pode nos levar a uma dependência doentia.. Transtornos mentais muito comum nos consultórios médicos de psiquiatria..

    Eu mesmo fui proibido pelo médico de usar excessivamente o celular... Somente duas horas por dia, não dá, mas estou procurando seguir estas orientações.

    Com certeza a história de Morgana 

    Não há mais diálogos em família...Os amigos são virtuais....e quem são estes virtuais 

    O real e a ficção se confundem..

    Uma trama com suas digitais prezado Poeta Nelson Medeiros...

    Mais um Conto maravilhoso e proveitoso.

  • Nelso

    reflexivo

    ficou otimo

    um abraço

  • Quanta verdade Nelson!

    Te aplaudo de pé!

    Abraço

  • Excelente conto, Nelson. Essa é a realidade que estamos vivendo.Se tornou um vício. Não existe mais diálogos. Parabéns.

    Um abraço 

     

  • Gestores

    Adorável conto. Uma realidade de muitos.

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