Colheita
J. A. Medeiros da Luz
Nas gavetas sanguíneas do entardecer
Conservo os meus ricos guardados,
Etéreos, de valor não mais que virtual,
Tatuados nas dobras e vilosidades
Do espírito, indeléveis enquanto
As procelas dos dias não delirem
Os cordéis que as Parcas manipulam.
Nas gavetas sanguinolentas — entre malva,
Vermelho e açafrão — da tarde,
Levanto minha taça do sentir.
Longo foi o dia; a lida forte, bátegas
De suor rolando, mercê da gravidade,
Para fertilizar o eito, em que pese
Pedregões ventrudos,
A entortar enxadas e ancinhos e arados.
Levanto a taça do sentir,
Esvaziada de rancores, malquereres;
E plena e leve (qual esta plumazita
De pardal que, justamente agora,
Flui à deriva, ao sabor da brisa,
À frente de meus olhos exauridos).
É leve e plena de enlevo, essa taça:
Plena de gratidão às potestades
Pelos embriões — já a escancarar os cotilédones
No romper caminhos pelo solo arroteado,
Naquela busca ávida, ávida
Pela luz e cores e fótons das auroras,
As quais, para eles — os rebentos — , não demoram.
Ouro Preto, 2025 — março, 03.
[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]
Comentários
Parabéns poeta! Adorei a sua poesia, cheia de vocábulos rebuscados!
Muito obrigado sinto cara Editt, por sua apreciação!
A gênese do poemeto foi suscitada pelo acaso (ou terá sido por confluência de energias?). Aproveitando o feriado para (tentar) diminuir a bandeja de pendências, eis que, algo cansado, abro a janela em frente à escrivaninha. E, instante de precisão milagrosa, voeja em arabescos lentos, suscitados pela brisa — justo à minha frente — uma penugem destacada de algum pardal ou tico-tico, tendo ao fundo umas núvens avermelhadas, ao crepúsculo... Pronto: eis que o querubim (ou diabrete?) da poesia me sacode, incitando-me a pincelar o quadro!
Abraço do jota.
Eu sempre fui fã deste poeta que escreve rebuscadamente seus versos. Seu poema J. A. Medeiros da Luz é uma meditação poética sobre o ciclo da vida e a colheita emocional que advém das experiências humanas. Sua linguagem rica, simbólica e rebuscadas, traça paralelos entre a árdua jornada do trabalho diário e a fertilização das emoções, resultando numa taça de sentimentos cheia de gratidão e serenidade. A imagem da tarde tingida de malva, vermelho e açafrão evoca um entardecer cheio de nuances e profundidade, enquanto a taça elevada de sentimentos purificados representa um espírito leve e pleno após um dia de lutas. É uma obra que exalta a beleza do esforço humano e a recompensa emocional que ele traz. Eu diria, uma verdadeira Ode cheia de metáforas à poesia. Saudações do bem! #JoaoCarreiraPoeta.
Meu caro Carreira: Agradecido muito. Expurgando a benevolência de sua alocução, ditada em parte pela bondade de alma, você teve precisão de anatomista — de gorro, luvas e bisturi — no pilhar as minhas intenções primárias: uma prece de agradecimento pelo existir e, em decorrência disso, pelo denodo insuflado por Dona Esperança, que nos fornece, sem avareza, o combustível para prosseguirmos a caminhada.
Abraço.
J. A.
Que poesia magistral. Aliás, desde a primeira, eu não mudei de ideia.
"Sorvo" cada verso com o dicionário, um ou mais de um, do lado.
Venha mais vezes, por favor.
Olá, cara Margarida: Você é craque no motivar os colegas que se abalançam a versejar... Muito obrigado pelas gentileza das palavras.
Todos nós, aqui da Casa, usamos de uma artimanha infalível, no que respeita ao transportarmo-nos aos nimbos da poesia: usamos uma das belas filhotas das barrancas do Lácio: a língua portuguesa — a que deu asas a Camões, Padre Vieira, Florbela Espanca, Clarisse Lispector, Cruz e Souza, Cecília Meireles, Euclydes, Machado, F. Pessoa, Paulina Chiziane, Quintana e tantos, tantos outros!!
Daí vai que, acossada, no perpassar dos séculos, pelo poderio econômico (para não dizer militar) de outros falares, por diminutos que sejamos, essa língua (com a doçura rústica de um sapoti ou de um picolé de murici — e sempre a evolver) nos agradece pelos humildes tocos de velas votivas que lhe acendemos à roda de seu altar.
Perdoe-me o "deitar falação" e vir a ensinar padre-nosso a vigária (pois é: se já temos bispa, por que não vigária?), mas é sempre útil lembrar a nós mesmos que à língua materna devemos muitíssimo. É o bastão mágico que recebemos no berço e que devemos transmitir. Ou melhor: é o par de asas que nos eleva aos citados nimbos, sem os riscos daquele infortunado Ícaro, sobre o hipnótico mar Egeu.
Abraço, desde estas Alterosas (hoje na maior ferveção de Momo, como convém).
J. A.
Concordo, J. A. Você faz juz a beleza da nossa língua. Abraços.
Pessoal:
Só mesmo um recolhimento, forçado pelos festejos do carnaval, me fez apontar o lápis de carpinteiro e pegar do serrote literário. O esforcejar do ganha-pão tem-me rareado o lazer, bem mais que o desejado... Enfim, os compromissos nos convocam e acabamos por seguir na labuta (que bestalhões somos!).
No que concerne a esse poemeto, de versos brancos e sem metro, é quase que um preâmbulo do coligir de resultados, um inicio de balancete existencial, agora que o sexagésimo oitavo ano premiu, há bem poucos dias, a campainha da morada.
Abraço do J. A.
Prezado amigo Poeta J A Medeiros da Luz.
Se és homem da labuta da plantação e colheita da terra e com uma forma de sobrevivência aos compromissos da vida diária, eu tenho uma outra compreensão em relação ao seu lindo texto poético em vocabulário culto.
Lindos versos em muitas reflexões e metáforas em Tema de texto poético nas entrelinhas que a labuta é no agronegócio...
Ora, creio que possa administrar o tempo e depositar aqui suas lindas poesias.
Seria um encanto e prazer para nós aqui do CPP.
Abraços fraternos e esteja muito feliz.
Com sua idade atual és muito Jovem.
Muito há aínda de viver e com muita saúde e fé fervorosa.
E espiritualidade é essencial nos dias de hoje de atribulações do dia a dia.
Abraços fraternos prezado Poeta e felicidades felizes
Agradecido pelas palavras suas generosas, caro Domingos. Embora pudesse já me aposentar, aqui do meu querido departamento de engenharia de minas, um bocado de pendências têm me retido. A ideia era gastar o tempo de retiro na fruição da família, na leitura e no assentar rabiscos... Enfim, como a docência é, ao cabo, viciante, vamos continuando e adiando planos.
Tenho uma reverência telúrica pela terra e, mesmo, pelo seu cultivo (desde que não se configure naquela história de o homem vir a ser lobo do homem). Talvez por isso minhas alusões literárias tão comuns ao labor da terra, ao simples medrar de uma ervazinha e ao florecer dos campos e capoeiras, nas orlas dos brejões...
Abração. j. a.