Encontro

Encontro

 

J. A. Medeiros da Luz

Em meio a cores vívidas, gárrulas,

Neste esplendor de manhã dominical,

O borrifar do velho chafariz na praça

Emite marolas (como que hertzianas),

Que lá se quebram em círculos concêntricos,

Contra as margens limosas do raso tanque

Onde rabejam, serenamente, meia dúzia

De encorpadas carpas, a estampar os seus

Vestidinhos escamosos de chita colorida.

Imitam arlequins em nado lento.

 

Mas, súbito — em plena convenção latino-americana,

Seminário de artes circenses —, buliçoso

Bando de congressistas se aproxima,

Aproveitando o hiato revitalizante

Entre uma sessão e outra daquela

Perspicaz arte da palhaçaria.

Debruçam-se sobre a amurada

Da pontezinha adrede construída,

Palrando, rindo coloridamente,

Num puro manancial de interjeições de júbilo,

A admirar piabas, carpas e tartaruguinhas.

 

Sem grande entendimento e inscientes

Das sutilezas deste mundo enorme,

Vendo tantas vestes coloridas e mais

Gravatas borboletas, narizes de bolinhas,

Fitas brincando de arco-íris — e todos a vê-las! —,

As carpas coloridas boquiabrem-se,

Espantadas e arregalando os olhos,

Por haver, do lado de fora, na secura,

Essas estranhas carpas tagarelas

Que (sabe-se lá por que motivo) as miram,

E, munidas de barbatanas longas, longas,

As apontam sem parar!

 

Ouro Preto, 08 de setembro de 2026.

[Comentos também podem ser dirigidos a: jaurelio@ufop.edu.br; © J. A. M. Luz]

 

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J. A. M. da Luz

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Comentários

  •  

    Prezado Poeta J. A. Medeiros da Luz,

    Vossa poesia apresenta uma cena do cotidiano transformada com inteligência, com cor e fino humor.

    O encontro entre palhaços e carpas constrói um curioso jogo de espelhos entre dois mundos.

    Destaco o belíssimo verso: 

    “Imitam arlequins em nado lento.”

    Aqui a imagem das carpas coloridas se aproxima, com suavidade, natureza e arte circense.

    A inversão final é especialmente criativa: 

    “”as carpas passam a observar os humanos como seres estranhos "””” um tom de fábula ou mitologia, eu não sei, mas é muito expressivo..

    O vocabulário culto, associado às imagens visuais e ao tom bem-humorado, confere personalidade e digitais poéticas do Poeta ao poema.

    Uma poesia sofisticada e lúdica, capaz de revelar que o olhar de um talvez estranho ou diferente também nos transforma em espetáculo.

    Abraços fraternos prezado Poeta de Fernanda (minha filha) e Antonio Domingos

    Nota: minha filha me ajuda…Pequenos problemas de visão mas ainda me enxergo bem..

    Ora, tenho permissão médica para 1 hora de celular por dia, assim não dá.. é pouco.. obrigado..

     Muita criatividade e Inspiração em Poesia de Excelência... Tenha meu Simplório pessoal Destaque.

     Bela homenagem a cidade de Mariana e ao Festival Internacional de Palhaços..

    Lembrei -me de minha infância quando minha mãe levava os 4 filhos ao Circo visitante da Cidade..

  • Pessoal,

    É pura verdade, não obstante pincelada com generosa dose de intenções de poesia, a cena aqui descrita. Visitando nossa vizinha (e ex-morada) cidade de Mariana, neste último domingo, a encontramos plena de alegrias, devido ao festival Circovolante – Encontro Internacional de Palhaços (atualmente em sua 14ª edição).

    Estando o escrevinhador a saborear um café arábica, desde a janela da cafeteria, em frente da praça, eis que ele aprecia a cena da chegada buliçosa de dezenas de palhaços: adultos jovens, velhos, criançolas. E o Jota pôs-se, de imediato, a perquirir sobre as emoções que aquelas carpas estariam a sentir sendo foco da atenção de tantos espectadores, coloridos como elas…

    Eis, pois a gênese do poemazinho que, quero crer, faz homenagem (mesmo que desconjuntada) aos artistas circenses do mundo e — por que não? — às carpas, essas gárrulas hipnotizadoras das fontes frígidas.

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