O Segredo

O Segredo

 

Ana Emília era, na plenitude dos seus 48 anos, uma viúva muito desejada. Ela prometera ao marido, na hora da morte, cinco anos antes, que nunca mais quereria homem algum, pelo que, apesar dos desejos próprios de uma mulher na força da vida, ia resistindo a todas as propostas que lhe eram feitas.

A verdade é que não era só a promessa feita ao marido que a impedia de aceitar a ideia de voltar a constituir família, mas sim  o medo da língua alheia, pois sabia muito bem como as pessoas da aldeia votavam as viúvas que voltavam a casar, a um desprezo bastante difícil de suportar, nada que ela própria já não tivesse feito para com outras que tal como ela tinham enviuvados ainda bastante novas.

Além disto, ainda havia a considerar o facto de ter três filhos, Susana de 18 anos, Jorge de 16 e Carlitos de 10, não só temendo a reacção deles, como também tinha medo o homem que pudesse vir a aceitar para seu companheiro, não os soubesse amar como o pai os amara.

Foi precisamente no dia em que se completava 20 anos, sete após a morte do pai, que Lourdes se decidiu a contar a verdade à mãe. Havia pouco mais de um ano que fora trabalhar para a grande cidade e ali se apaixonara por um colega, do qual se encontrava grávida:

- Grávida! Tu tens a coragem de vir aqui com essa cara de desavergonhada e dizer-me que estás prenha? Ah não, não posso acreditar, andei eu, tantos anos, a lutar por honrar a memória do teu pai e, agora, tu vens dizer-me que estás grávida. Filha minha, grávida cá em casa, só casada. Quem é o pai da criança?

Lourdes baixou os olhos e respondeu à mãe:

– É um colega meu lá do trabalho, ele está a divorciar-se, por isso é que não casámos já.

- Ah pois, para casar têm de esperar, mas para outras coisas já não puderam esperar. Pois, minha rica menina, acho bem que fales com o teu namoradinho, porque aqui em casa não te quero.

Lourdes bem tentou convencer a mãe a manter segredo, mas nada demoveu a mulher, nem o pedido dos outros dois filhos, pelo que não tardou que a notícia se espalhasse por toda a aldeia.

A rapariga acabou por deixar a casa materna sem sequer festejar o aniversário, mudando-se, de forma definitiva, para o quarto onde já vivia no dia-a-dia, lá na grande cidade.

Assim que tal foi possível, marcou casamento com o pai da futura filha e foi convidar a mãe, e os irmãos, para o casamento, mas Ana Emília, que ainda não esquecera, nem perdoara, aquilo que considerava uma ofensa para a sua honra e para a memória do marido, nem sequer lhe permitiu a entrada em casa. Lourdes, acompanhada do futuro marido, regressou à cidade, prometendo nunca mais ali voltar:

- Olha mana, eu estou com a mãe, se cá não vieres, também cá não fazes falta nenhuma.

Foi assim que Lourdes cortou laços com a pouca família que lhe restava, pois na vez seguinte em se deslocou à aldeia, com o intuito de dar a conhecer a filha à mãe e aos irmãos, voltaria a ser escorraçada por todos eles:

- Ana Emília, bem que podias dar uma oportunidade à moça e conheceres o teu genro e o teu neto.

- Eu não tenho neto nenhum. Somente tenho dois filhos e nenhum deles, que eu saiba, é pai.

Os anos foram passando, Emília nunca perdoou à filha, nem nunca quis saber nada da sua vida, pelo que nunca soube se fora um rapaz ou uma rapariga que nascera daquela aventura, como ela sempre se referia à gravidez da filha.

Os filhos casaram, tiveram um filho cada, sendo ela quem os ajudou a criar com todo o amor e carinho, o mesmo carinho que sempre recusou dar à outra neta. Ao mesmo tempo que os netos iam crescendo, as visitas dos mesmos à avó começavam a escassear, enquanto seus pais, há muito que ninguém os via pela aldeia. Ao que se dizia, tudo se devia ao facto de as noras não suportarem o que diziam ser o mau feitio da sogra.

Foi assim que Emília se viu a ter de enfrentar a velhice na solidão, valendo-lhe a ajuda das meninas da Santa Casa da Misericórdia, como ela as tratava, já que as suas relações sociais na aldeia também não primavam por ser de grande empatia para com os restantes moradores.

Foi no dia em que completava 80 anos que, Emília, resolveu desabafar com uma das meninas:

- Sabes, minha menina, hoje faço 80 anos e a única visita que vou ter és tu.

A rapariga olhou-a nos olhos, agarrou-lhe nas mãos e perguntou-lhe:

- A ti Emília não tem família?

A velha senhora baixou os olhos:

- Tenho. Tenho 2 filhos e dois netos, um de cada um dos meus filhos.

As lágrimas caíam-lhe pelas faces. A menina da Santa Casa não se deu por vencida e tornou:

- Só. Não tem mais família nenhuma?

Emília engoliu em seco, encheu o peito de ar e disse:

- Vou contar-te um segredo. Se calhar até já ouviste a minha história, mas eu vou contar-ta na mesma. Eu tenho uma filha, e um outro neto, bem, se é neto ou neta, nem o sei. Um dia, a minha filha engravidou do namorado e eu pu-la na rua. Nunca mais soube nada dela. A verdade é que nunca mais quis saber dela.

A rapariga voltou a pegar-lhe nas mãos:

 - Ti Emília, vamos imaginar que eu sou essa sua neta. Espere aqui um bocadinho que eu já volto.

A rapariga saiu, voltando daí a pouco, com as colegas, e trazendo um bolo de anos. Cantaram os parabéns a Emília e proporcionaram-lhe um dos dias mais felizes dos seus últimos aniversários.

Emília nunca chegou a saber que aquela menina da Santa Casa da Misericórdia era mesmo a sua verdadeira neta.

 

Moral: “O amor não escolhe horta para nascer.”

 

Francis D’Homem Martinho

03/01/2019

Enviar-me um e-mail quando as pessoas deixarem os seus comentários –

Para adicionar comentários, você deve ser membro de Casa dos Poetas e da Poesia.

Join Casa dos Poetas e da Poesia

Comentários

  • Emocioonante a história. Um belo conto. Parabéns!

  • O amor desabrocha sem menos esperarmos. Amei a história. Um grande abraço Francisco.

    • Amigo Matheus Ernesto dos Santos, é verdade, o amor não escolhe vaso para florescer. Grande abraço.

       

  • Gestores

    Muito interessante. Uma história muito comum no passado.

    Meus pais eram da mesma opinião.

    • Amiga Margarida Maria Madruga, não era só antigamente, ainda hoje, por aqui e por ali, se vão conhecendo histórias destas. Beijinho.

       

  • "...o amor não escolhe horta para nascer..."

    Mas seu nascimento é inconfundível e sincero.  Amei teu conto!

    Obrigada por nos proporcionar esse prazer!

    Beijos!

    Nina Costa

    • Amiga Nina Costa, é isso mesmo, o amor quando nasce não engana ninguém, o que há, muitas vezes, é gente a tentar enganar o amor. Beijinho.

  • Gestores

    14384656?profile=RESIZE_710x

This reply was deleted.
CPP