Alba

Alba

J. A. Medeiros da Luz

 

Iara, saudando a aurora, canta.

Por que haveria de o jaguar com fome

Abortar, do galho folhoso onde se esconde,

O salto sobre o lombo dessa capivara?

 

Iara, saudando a aurora, canta.

Por que a preá do brejo, farejando

Os tenros rebentos da orla de argila,

Iria estacar na trilha, num espanto,

Olvidando o roer do estômago vazio?

 

Iara, a saudar a aurora, canta.

Possível seria, meus senhores, que desalçassem

Seu planar na atmosfera e — corcundas, pensabundos —

Os urubus viessem a pousar

Nessas forquilhas ressecadas desse  angico

Depenado de raios, a casca tostada de sol,

Quase nas fímbrias refrescante do ribeiro?

 

Não obstante,

O jaguar estaca o salto sobre a presa;

A preá, boquiaberta, alça o crânio, a farejar as notas;

Os urubus assuntam, filosóficos, em deleite;

Tudo porque essa musa úmida das águas,

De tranças aromadas com óleo de copaíba,

Orvalhada dos respingos d’água no lajedo

Onde, tão perfumosa e hipnótica, se acama

— tudo porque, leitora minha, ela

(Emulando Israfel, o decantado arcanjo

De coração trançado com cordas de alaúde),

Ela, Iara, se pôs a cantar, divinamente

Saudando a epifania de mais uma aurora....

 

Ouro Preto, 2025 — março, 20.

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J. A. M. da Luz

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Comentários

  • Gestores

    Que belo poema. DESTACADO.

    Iara enquanto canta, encanta e leva os homens para o fundo do rio.

    Você descreve a natureza transformadora ao redor dela.

    A precisão da escrita é tão fascinante quanto o canto de Iara.

     

    • Cara amiga M. M. M.:

      Gratificado fico com seu dadivoso comentário. Em sinsericídio, a velho amigo — desses que perduram desde quando éramos embarcadiços na briosa nau "Juventude" — disse há pouco que já me dou por feliz em considerar o poema em tela como "um tantinho somente mais que mais-ou-menos".

      Abraço, cara Margarida; j. a.

  • Lindo!! Aplausos,Poeta!

     

    • Obrigado, cara Ciducha!

      Para tocar no embrião poético em tela, o poema de Poe que li ("Israfel"), era a bela versão vernácula do valadarense Milton Amado (1913–1974), que, aliás, também traduziu o "Engenhoso fidalgo de La Mancha", o romance do Cavaleiro da Triste Figura, nosso herói que se materializou da pena de Cervantes...

      A outra vertente motivacional acha âncora no velho indianismo romântico a la Alencar, com pitadas de José Cândido de Carvalho e seu "O coronel e o lobisomem" (de que[m] Deus nos livre e guarde!).

      Abraço deste tropeiro virtual, que, sendo da meiuca do século passado, já estampa no couro escorreguento, barbelas sensitivas e umas belas manchas de bagre velho!

      j. a.

       

  • Ave, Mestre Medeiros! Iara, a musa da manha te saúda e te envia um canto sublime de transformação nesta tarde poética! Quando o poeta, através da inversão de comportamento dos animais suspende o andar do tempo na eternidade para modificar a ordem natural faz de seu poema um hino de reverencia â natureza que nos abriga. O nascimento de uma nova era representado, penso eu modestamente, pelo verso “epifania de mais uma aurora”, traduz um elo que une o mistério e o real a um só tempo. Meu abraço e a admiração.

    • Caríssimo Nelson:

      Tem razão você, com o nascimento de nova era: todo amanhecer é o recomeço de nossa caminhada, carretando nossa carga imorredoura de esperanças. É o concerto universal dos seres animados (que estampam solarmente alma, ânima) e dos outros companheiros de cosmo, que só são "inanimados" numa primeira mirada. Se pusermos reparo, todos estamos insuflados pela diafaneidade soprada da trombeta etérea de Israfel (dizem comentadores que louvava (quero crer) em 400 línguas, ou mais).

      Abraço de Medeiros para Medeiros!

       

  • Meu caríssimo amigo J.A.

    Uma bem-aventurada tarde ao som do canto de Iara!

    Com perspicácia e uma percepção aguçada

    (se é que tenho), posso contextualizar o impacto do canto de Iara,

    uma musa que transforma o ambiente ao seu redor.

    Em um nimbo de inspiração,

    simplesmente seu voo simbólico atinge o ápice de um momento auspicioso.

    Mesmo na presença de elementos recorrentes como o jaguar,

    a preá e os urubus,

    ela voa sobre o limbo da monotonia, escamoteando qualquer banalidade.

    Suas notas, poderosas, fazem até o vento tartamudear,

    voejar com delicadeza e ecoar,

    como se o amanhecer fosse uma nova promessa em cada aurora.

    Achei simplesmente belo!

    Saudações do bem e um forte abraço!

    #JoaoCarreiraPoeta.

    • Meu prezado Poeta Carreira:

      Obrigado pela visita e poema-elucidário! É como bem diz: A melodia de nossas musas, em "suas notas, poderosas, fazem o vento tartamudear (...)". É o sortilégio do sonho e do amar.

      Abraço. j. a.

  • Que Belo texto poético.

    Extremamente expressivo com um vocabulário culto de quem é muito culto.

    Uma viagem pela natureza onde a personagem Iara é cantada no Poema com deferência...

    Iara seria uma Sereia? 

    De fato a nossa Iara cantar saudando a epifania naquela aurora é um ponto alto de impacto poético. Amém.

    O leitor tem esta dúvida.

    De fato a relação dos animais nos versos é uma reflexão de que todos tem sua significância..O urubu tem uma função importante que é de limpar de cadáveres a natureza.

    Gostei demais do seu texto Infelizmente estou agora no médico e não consigo traduzir algumas palavras que não conheço o significado.

    Abraços fraternos prezado Poeta JAM da Luz 

    Antonio Domingos 

    • Prezado Poeta J A Medeiros da Luz.

      Pesquisei e descobri que a Iara é uma sereia e consta nas lendas indígenas folclóricas do Norte Brasil.

      Agora o texto ficou mais claro 

      A metáfora da Iara cantando é um encanto 

      O seu passeio poético acerca dos outros animais jaguar, preás, urubus é muito lindo e delicado.

      Agradeço pela oportunidade de ler-te.

      Uma honra.para mim ter sua Poesia Aqui.

      Abraços fraternos.

      Antonio Domingos 

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