Posts de Nelson de Medeiros (378)

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NADA MAIS...

 

 

 

 

 

 

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NADA MAIS...


No templo azul das ilusões mortais,
Guardei teu nome em caixa de presente;
Eras meu sonho, casto e paciente,
Bem longe do rumor dos vendavais.

Calei no peito os ímpetos e os ais
Do meu afeto, tímido e fervente;
Amei-te assim, secreto e reverente,
Como quem ama os dons celestiais.

Se desse amor colhi febril ardor,
O doce mal que em sonho me enleava,
Fez do meu peito um templo de ideais...

E, até mesmo com tudo em desfavor,
A fé bendita em sombra me amparava:
Eu quis te amar somente — nada mais...

Nelson de Medeiros,

14/03/2026

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BOLHAS DE SABÃO

 

 

 

BOLHAS DE SABÃO

No sono turvo de nossa existência,
Erguemos frágeis sonhos sobre o chão;
A mente os guardam em dúbia sedução,
Qual névoa a dourar a consciência.

Mas vem o tempo, austero, sem clemência,
E rasga o véu da nossa construção.
A alma se mostra em súbita visão,
E a vida ri da nossa incoerência.

Assim se elevam estas tolas escolhas,
Que o egoísmo traz, em breves instantes,
Antes da fantasia desabar!

Na vida, as ilusões são como bolhas
De sabão, que sobem flutuantes,
Mas se desfazem ao encontro do ar!

Nelson de Medeiros
15/03/2026

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MENINA POETA

MENINA POETA:

Se a voz da brisa é doce e peregrina,
A tua excede em graça e harmonia;
E, quando a sinto, ao longe, em melodia,
No peito meu a paz chega e reclina!


Jamais ouvi um timbre igual, menina,
Nem que poder é este que arrepia;
Só sei que em mim, qual lâmpada tardia,
Clareia a solidão desta rotina!


Um canto de secreta raridade,
Que, sem ferir, acende ardor sereno
E ao coração infunde doce calma!


Por isso, ao escutar tal suavidade,
Guardo esse som — tão brando quanto pleno —
Como quem guarda música na alma!

Nelson de Medeiros, 11/03/2026

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FADO/RESPOSTA: NELSON MEDEIROS & MARCIA MANCEBO

 

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FADO


Quando escolhi viver por teu encanto,
Até pensei que fosse desatino;
Eu pressenti o preço do destino,
Mas me entreguei ao risco, no entanto.


Qualquer encontro pode ser quebranto,
Ou de olhar mais puro e peregrino;
Se a sombra da desdita é vaticínio,
O sol do altruísmo é sacrossanto.


Toda escolha prende a alma ardente
À lei secreta do que foi traçado,
seja em ventura ou mágoa persistente!

Amar é só render-se ao que se sente;
Pensamos escolher o nosso fado,
Mas nosso fado é que escolhe a gente!

Nelson de Medeiros
11/03/2026

 

RESPOSTA


Ao escolher viver por meu encanto,
mesmo pensando ser um desatino;
sentiste fundo o peso do destino,
mas rendeste a essa entrega, ah! e quanto!

Talvez não seja o amor puro quebranto,
nem mero risco oculto em tal desígnio;
há luz guardada em forma de fascínio
que o coração transforma em doce canto.

Se o fado conduz o rumo vivido,
e deixa ao coração todo o cuidado,
o ardor livre de amar sem ser medido.

Pois mesmo que o destino seja dado,
há sempre um querer fundo e destemido,
um sim da alma escolhendo o próprio fado.

Márcia Aparecida Mancebo
12/03/26

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SONETO DA PRUDÊNCIA

 

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SONETO DA PRUDÊNCIA

 

Se a fala não constrói, guarda a mudez;
Não soltes verbo vão, que nada ensina.
A língua que propaga a voz ferina
Espalha horror, vazio e mesquinhez.

Quem fala sem pensar, do amor declina
E espalha pelo ar sua rudez;
A frase, quando vem sem lucidez,
Traz sombra que na alma predomina.

Mas, quando a voz desperta o entendimento,
Erguendo no convívio alguma luz,
Fecunda o solo fértil do argumento.

Porém, se o verbo estéril nada diz,
Convém, então, calar o que seduz
— Pois maldade, no estulto, é diretriz!

                                                                                   Nelson de Medeiros, 03/2026

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MULHER

 

MULHER 

 

Ah! Como são formosas todas as mulheres,
e que prendadas elas são em seus misteres!
Ela foi, em toda a criação, a obra-prima,
dádiva maior que nos deu a mão Divina!


E se alguém disser que nem todas são formosas,
que existem feias, magras, gordas ou idosas,
direi que, por certo, este alguém não teve a sina
de ter mãe, esposa, uma filha pequenina!


Mulher é paz, é sacrifício, é singeleza,
é destemor, é humildade e até pureza,
poder inato de outro ser dar acolhida!


E, assim pensando e vendo tudo neste mundo,
tenho a certeza de que este ser de amor profundo
é benção de luz que nos deu o Céu na vida!

 

Nelson de Medeiros

Republicando desde 2005

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NUM DIA DE SOL ASSIM...

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NUM DIA DE SOL ASSIM...


A voz do tempo trouxe teu chamado
e fez brotar antiga euforia;
ouvi, de novo, a doce melodia
daquele dia alegre e ensolarado.

Ele voltou agora, despertado
pelo clarão que a luz da aurora envia;
o mesmo instante que a alma revivia,
varando o espaço em raro sonho alado.

Uma lembrança flui, qual manso lume
e volto àquele beijo e aquele abraço,
que me lançavam, então, ao paraíso!

Mas, se a saudade traz seu perfume
— E quase para o tempo no espaço —
a vida vou seguindo, de improviso!

                                                                                                    Nelson de Medeiros

                                                                                           05/03/2026

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QUEM SOMOS?

 

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QUEM SOMOS?

 

Quando atingimos a fronteira do bom senso;
quando a nossa inteligência comum desperta
e percebe que a vida não é só oferta
de indisciplina, de gozo e de contrassenso;

quando começamos a sentir o descenso
dos sentimentos que o coração nos alerta,
e o corpo, que não pensa e que tudo acoberta,
a nossa alma se enche dum vazio imenso!

E a dúvida, surgindo em mórbida premissa,
se assenhora da mente, cansada e enfermiça,
e a deixa prostrada entre abalos e reclamos!

É quando, então, já de tudo desencantados,
nós nos questionamos, quais párias dementados:
— Quem somos? Donde viemos? Pra onde vamos?

                                                                                   Nelson de Medeiros

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MEU "EU" ETERNO

 

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MEU “EU” ETERNO

                                                                                                                  “Penso, logo existo...” (René Descartes)

No ato de pensar me reconheço,
pois sinto o ser que eterno em mim existe;
sou chama viva, luz que não desiste
e, quanto mais eu vivo, mais eu cresço.

Minha razão jamais perdeu o apreço
da vida ardente que em meu ser persiste;
seja no alegre ou no momento triste,
o eterno eu, na alma sempre teço.

Difícil imaginar a vida ausente,
que o ser se apague em súbita mudez;
— Há sempre um pulso vivo a existir!

Pensar é ato eterno e permanente:
ser luz ainda mesmo na aridez,
viver — ainda que doa — e prosseguir!

Nelson de Medeiros
16/02/2026

 

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CHOVE, APENAS

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CHOVE, APENAS...

 

A chuva cai na tarde gris, silente;
da janela, o vate mira a amplidão;
na paisagem sem cor, busca razão
de um amor que dorme em sua mente.

Onde estará? Até quando, paciente,
suportará da vida a provação?
Chove na tarde gris, e o coração
dói no peito, em vigília persistente.

A chuva é confidente da saudade,
revela sonhos presos na lembrança
e embala o ser na calma da esperança!

A água que cai dissolve a ansiedade,
e cada gota acende a confiança
de que o amor virá, na eternidade!

                                                                          Nelson de Medeiros

                                                            02/2026

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O TEMPO É MINHA ESPERANÇA

 

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O TEMPO É MINHA ESPERANÇA

Pensei-te aqui, acordando ao meu lado
e, com um beijo, dando-me bom-dia!
Voltei ao passado e, sereno, eu via
que nada entre nós havia mudado!

No café, imaginei-me a teu cuidado;
era apenas, outra vez, um novo dia,
e que tudo entre nós se repetia
como se o mundo houvesse parado!

Quis tantas vezes ter-te aqui comigo,
que cheguei a ver-te em meu abrigo,
como se nunca estivesse ausente!

Mas o tempo é real, vai rumo ao norte,
não para, segue muito além da morte
e vai me levar a ver-te novamente!

Nelson de Medeiros

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DUETO: LILIAN FERRAZ & NELSON DE MEDEIROS

 

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A + B

Juntando A + B entendemos o enigma
Fazemos um poema com novas rimas
Eu e você unindo o A + B podemos fazer
Mundo de enredos diversos, controversos

Surreais, misteriosos e também comum
Juntando A + B podemos fazer acontecer
Eu assumo o navegador, com minha calma
Tu assumes o leme com sua perspicácia

Vamos chamar outros do elenco para animar
Então eu e você saberemos o valor de A + B
Numa equação matemática são favas contadas
Na poesia são destaques com suas máscaras.

Lilian Ferraz

O NAVEGADOR E O LEME

Aceito o leme e sigo meu caminho
com elegância, com amor e paz;
pois, no mistério que teu canto traz,
acerto o prumo e logo me alinho!

Se o mundo é surreal, se é falaz,
nosso enredo não pode andar sozinho;
por isso é que fazemos com carinho
a poesia que esta vida traz!

Não é somente rima de um momento,
já que a razão entrega o que é normal
em poemas de puro sentimento!

Mas entre todos — sei — não há nenhum,
assim, que tenha o brilho e o ideal
de sermos dois, num laço que é só um!

Nelson de Medeiros

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NOS LENCÓIS

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NOS LENÇÓIS

Teu corpo acorda cedo e me abraça,
entre os lençóis azuis de raro linho;
o dia vem nascendo de mansinho,
e a lembrança do ontem me enlaça!

Em teu rosto, a tristeza que esvoaça
faz a mente girar em torvelinho;
à mesa, nosso olhar em desalinho
pressente que a ventura se esfumaça!

Lá fora, segue a vida traiçoeira;
o sol ensaia entrar pela janela,
e o vento traz o adeus que não reclama!

O peito cede à dor que é verdadeira,
a sombra se projeta em torno dela
e sufoca o gemido em nossa cama!

                                                                                                                  Nelson de Medeiros.

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PALÁCIO DE PAPEL

 

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 PALÁCIO DE PAPEL

 

Um dia eu tive um sonho iluminado,
de luzes que brilhavam num salão;
dançava alucinado, sem noção,
num mundo só por mim arquitetado!

Mas o tempo passou como um clarão,
e logo despertei, desencantado;
dos sonhos onde estava enraizado,
restou desdém, deserto e solidão!

A glória que existiu virou derrota,
e o palácio caiu pelo avesso
num mundo hostil, deserto e em desvairio!

Quis encher de afeto a minha rota,
mas a vida, severa, cobra o preço:
— Hoje minha alma é cheia de vazio!

 

Nelson de Medeiros, 27/01/2026 – Terça-feira – 01h00

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BRINCADEIRA DE RODA

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BRINCADEIRA DE RODA
                                                                                                                                              (Miniconto de Nelson de Medeiros)

♪ Terezinha de Jesus de uma queda efoi ao chão... Acudiram três cavalheiros, todos três chapéu na mão... O primeiro foi seu pai, o segundo, teu irmão... O terceiro foi aquele que Amelinha deu a mão! ♪

  Era o refrão que a turma cantarolava entusiasmada, como se fosse uma ária de Mozart.

  A rua do bairro, na pequena cidade do interior, parecia encantada pela presença daquelas crianças que viviam a vida inocentemente — alheias às guerras, aos vilipêndios e à desinteligência dos adultos.

  Viviam ali, todas as noites, em um mundo que parecia pertencer a outra dimensão; uma fenda na estrada da mentira, da arrogância e da maldade.

  Plínio tinha somente treze anos, mas já carregava em seu íntimo a alma romântica, galante e o discernimento de quem pressente a beleza do amor. Amélia, a seu turno, não ficava atrás; embora partilhasse a mesma idade, guardava no olhar uma maturidade doce.

  Naquela noite, Plínio estava quase desmaiando. A cantiga ganhava vida enquanto Amélia — uma linda garota de olhos pretos, trajando um encantador vestidinho amarelo — caminhava tímida em direção à fila de meninos.

  Ela inclinou-se para Plínio que, imediatamente e quase sem fôlego, apertou suas mãos. O toque foi um choque de pureza.

Você quase errou o passo — sussurrou ela, com um sorriso que iluminava mais que os lampiões da rua.

É que o seu vestido... — ele baixou os olhos para o amarelo vibrante — ele brilha muito. Achei que você fosse uma estrela que caiu na roda.

  Se eles entendessem de reencarnações, diriam que já tinham vivido uma história de amor em outras vidas; e a cena ali se repetia, face às palavras que lhes saíram das bocas.

  Muitas luas depois, na mesma rua que outrora fora o palco de suas rodas, o silêncio da noite parecia guardar um segredo. Quem passasse por ali, sob o clarão de luzes, agora de led, poderia jurar ouvir o eco de um riso infantil e o rastro de um vestido amarelo sumindo na bruma.

  Plínio e Amélia já não eram mais os meninos de treze anos, nem os jovens da galeria. Eram, agora, a prova viva de que certas mãos, uma vez entrelaçadas em uma fenda do universo, jamais se soltam.      O destino, aquele mestre compositor, havia finalmente terminado de escrever a sua melodia. E, desta vez, não havia mais quedas ao chão; apenas o repouso de quem, após muitas vidas, finalmente chegara em casa.

  Talvez seja isso o amor puro, aquele amor que transcende: uma memória que jamais se apaga da alma. Ela não está no tempo, nem nas ruas que mudam de nome, nem nas luzes que se modernizam. Ele mora nas mãos que se reconhecem antes mesmo de se tocarem.

  Se almas gêmeas existem, talvez sejam apenas isso: duas vontades antigas atravessando o mundo, como se obedecessem a um destino maior — traçado, quem sabe, por Deus.

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TRANSPARÊNCIA DA ALMA

 

 

 

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TRANSPARÊNCIA DA ALMA

Não minto, não! Meu riso é claridade,
pois a minha alma é sempre transparente;
não luto contra o mundo, sigo em frente,
sem carregar comigo ódio ou maldade!

Não mascaro jamais minha vontade,
não posso iludir a própria mente;
a minha vida é verso que se sente
em rimas ricas de sinceridade!

Em teu abraço, em meio ao que fruímos,
desvendei, numa tarde, o teu segredo,
ao te beijar sem pejo e sem vacilo.

Sim! Guardarei, pra sempre, o que sentimos
num poema de raro e grande estilo:
— Serei teu livro e tu o meu enredo!

                                                                                                                                                             Nelson de Medeiros, 26/01/2026

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EMPREGO GARANTIDO

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EMPREGO GARANTIDO
Miniconto de Nelson de Medeiros


— Poxa vida! Você, quando levantar primeiro, faça menos barulho para não me acordar.
Pedro Lino era um sujeito pacato; gostava do silêncio. Incomodava-lhe o barulho de um foguete estourando ou de uma porta batendo. Por isso, quando se levantava antes de Carolina, tirava até o chinelo para não fazer ruído. Ainda assim, foi dessa forma que, naquela manhã de verão, foi saudado por ela.


Reclamação. Esse era o cotidiano de Pedro Lino e Carolina. De tudo ela reclamava; tudo e todos criticava, quase sempre sem motivo.
O filho, Pedro Jr., que estava quase concluindo o curso de parapsicologia, vivia lhe dizendo:
— Pare com isso, mãe. Reclamar só gera doença. Nosso corpo está intimamente ligado à nossa mente.
Betânia, a filha mais nova, nascida com o dom de ouvir vozes e ver pessoas já falecidas, costumava alertá-la:
— Cuidado, mãe. A palavra e o pensamento atraem aquilo que foi dito e pensado.
Carolina pouco se incomodava. Respondia sempre:
— Mas é verdade, eu sei disso. Estou vendo.


No fundo, acreditava saber tudo. Achava que sempre tinha razão, que apenas ela estava certa.
Não havia nada que lhe escapasse à crítica; vez ou outra, maldosa, preconceituosa e, no fundo, sempre voltada a destacar sua pseudo-superioridade. Carolina fazia questão de exibir seu suposto conhecimento sobre tudo, sua experiência de vida, como se tivesse vivido mais do que os outros — embora contasse apenas quarenta e oito anos de idade.


Falava com a segurança de quem nunca duvida de si mesma. Suas opiniões vinham carregadas de certezas absolutas, e qualquer discordância era recebida como afronta pessoal. Para ela, errados estavam sempre os outros: o marido excessivamente calado, o filho com suas ideias estranhas, a filha com seus dons “inventados”. Carolina não ouvia; apenas tolerava, certa de que, no fim, o mundo acabaria por lhe dar razão.
Talvez por isso jamais percebesse o peso das próprias palavras. Ignorava que cada reclamação parecia deixar um rastro invisível pela casa, como se algo se acumulasse no ar, silencioso e atento. As advertências dos filhos soavam como exageros, crendices sem fundamento. Ainda não sabia — ou fingia não saber — que nem tudo que se diz desaparece depois de dito, e que algumas coisas, quando chamadas, realmente escutam.


Naquela mesma tarde, enquanto Carolina passava pela casa resmungando — ora sobre o calor excessivo, ora sobre o silêncio “incômodo” do marido — algo começou a se modificar no ambiente. Não era visível, ao menos não para ela. O ar parecia mais denso, como se a casa respirasse com dificuldade. Pedro Lino sentiu um arrepio súbito ao atravessar o corredor, uma sensação estranha, semelhante à de estar sendo observado.


Foi então que um ruído seco ecoou da cozinha. Não era uma porta, nem um objeto caindo. Era um som oco, profundo, como se viesse de muito longe. Betânia foi a primeira a perceber. Parou subitamente, o olhar fixo no nada, e murmurou, quase sem voz:
— Eles estão escutando…


— Escutando o quê, menina? — retrucou Carolina, impaciente. — Pare com essas bobagens.
Mas a filha já não parecia ouvir. Seus olhos acompanhavam algo invisível, que atravessava lentamente a parede e se dissipava no ar. Um frio inexplicável percorreu o ambiente, e por um instante as luzes piscaram, fracas, como se a casa estivesse à beira de um apagão.
Pedro Jr. sentiu um aperto no peito. Reconhecia aquela sensação dos estudos e das experiências relatadas nos livros: a fronteira tênue entre os mundos se afinava. O Umbral, lugar de ecos, de consciências presas às próprias sombras, parecia reagir ao excesso de palavras carregadas de negatividade.


Carolina, no entanto, apenas cruzou os braços.
— Essa casa está cheia de problemas — resmungou. — Tudo aqui dá errado. Ninguém me escuta.
No mesmo instante, um silêncio pesado caiu sobre todos. Um silêncio que não era ausência de som, mas presença. Como se algo tivesse acabado de aceitar um convite.


Betania recolheu-se ao quarto e preocupada fez uma prece pedindo com fé e sinceridade ajuda da vó materna, já falecida, para que intercedesse para que sua mãe caísse na realidade.
Naquela noite, Carolina teve um sonho estranho, um sonho com características que nunca tivera antes. Parecia tão real que ela chegava a sentir na pele e na alma o clima.


Viu-se, de repente, num lugar que não era a terra e não era o céu. Ela, então aterrorizada sentiu que havia morrido e fora enviada àquele lugar sombrio.
Ao seu lado postava-se um sujeito meio carrancudo, meio aborrecido, em silencio, só a observando.
— Onde estou? O que aconteceu? Falou dirigindo-se estarrecida ao sujeito parado.
Então, saindo de seu mutismo homem lhe apontou uma mesa preta, cravejada de tomos roxos e apontando-lhe a cadeira lhe disse:
— Aqui todos tem o que merecem. — E você ganhou um emprego. Vai ser ouvidora, pois quem reclama de tudo e de todos, será empossado com ouvidor mor no balcão de reclamações, depois da morte, em outra dimensão da vida, por longos séculos.


Pela manhã, Carolina acordou com aquelas palavras na mente e encontrando Pedro Lino, que acabar de passar o café, falou: — Tive um pesadelo horrível, culpa de Betania que fica inventando bobagem e sua que não fala nada, que droga!

Pedro Lino apenas a olhou em silêncio.
E, por um instante breve, quase imperceptível, Carolina teve a estranha sensação de que alguém, em algum lugar, estava anotando aquela reclamação.

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O BARDO E A ETERNIDADE

 

 

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O BARDO E A ETERNIDADE

O bardo traz certeza inata e plena
que a dor que o acompanha, na existência,
com certeza provém doutra vivência,
e, nesta, justa lei as reencena!

Do grau intenso à forma mais amena,
ela mora na sua consciência,
nesse mundo que sobe na ciência,
mas na moral só desce e se apequena!

Por isso é que a justiça lhe fascina,
e ele busca, na densa escuridão,
a luz serena que a alma enobrece!

Então, fiel à ordem que o destina,
segue o bem numa reta direção,
no rastro do amor que não fenece!

                                                                                                                                                                     Nelson de Medeiros, 2hs/45m do dia 24/01/2026

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QUANDO EU DIGO QUE OLVIDO

 

 

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QUANDO EU DIGO QUE OLVIDO


Quando eu digo: “Te esqueci”, é só defesa,
palavra que se ergue ante a verdade;
quem finge indiferença, em realidade,
protege a dor que na alma é chama acesa!

Esquecimento é surto de frieza,
silêncio sem memória ou ansiedade;
não é este lutar contra a saudade,
com a razão ferida, com certeza!

Embora diga eu que nada aceito,
que o tempo já rompeu laços contigo,
e nada mais restou dentro do peito,

eu nego em cada verso o que inda sinto,
pois sigo preso ao que renego e digo,
apenas pra esconder o meu despeito!

                                                                                               Nelson de Medeiros, 23/01/2026

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A REDE SOCIAL

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A REDE SOCIAL

    A luz azul do smartphone era a única lanterna de Morgana. No café da manhã, o leite esfriava enquanto ela “aquecia” suas postagens. O mundo físico tornara-se um borrão incômodo; a vida real acontecia em pixels, curtidas e comentários.


    No almoço, o garfo parava suspenso antes de chegar à boca, e mais uma vez tudo esfriava. À noite, abraçava o celular como quem busca conforto e dormia com ele ao seu lado.


— Mamãe, olha o meu desenho! — pediu Pedro, estendendo a folha com um sol torto, pintado às pressas.


— Lindo, filho… — respondeu ela, sem tirar os olhos da tela. — Deixa eu só postar isso aqui.


    Amélia, a filha mais velha, já nem insistia. Aprendera cedo que competir com a tela era perder antes de começar.


    No jantar, o silêncio se acomodava à mesa, quebrado apenas pelo estalo seco das notificações. Plínio Lino, o marido, já não escondia o mal-estar. Os olhos cansados denunciavam noites de espera inútil.


    Certa noite, bateu a mão com força no sofá. O som ecoou pela sala. O rosto, tenso, estava rubro de frustração.


Morgana, chega! Se você não sair desse mundo paralelo, eu vou embora com as crianças. Você está sentada aqui, mas não habita mais esta casa. Você sumiu, Morgana! Sumiu!


    Ela não respondeu. Não ouvia. Os olhos permaneciam grudados à telinha, imóveis, como se o resto do mundo tivesse sido silenciado.


    Naquela noite, Plínio foi dormir no sofá.


    Acordou de madrugada com um vazio estranho na sala. A casa respirava um silêncio pesado demais. Morgana não estava ali.
    No tapete, apenas o celular, aceso. A câmera aberta enquadrava o nada.


    Ela havia desaparecido sem levar roupas, chaves ou documentos.


    Os dias que se seguiram foram de agonia. A polícia não encontrou rastros. Plínio vasculhava o aparelho de Morgana em busca de pistas: um amante, um encontro marcado. Mas encontrava apenas o de sempre — milhares de seguidores reagindo a fotos antigas e fofocas de todo gênero.


   Na terceira noite, surgiu um vídeo novo no perfil dela. Sem legenda.
Plínio sentiu um calafrio. Ela está postando? De onde?


    No vídeo, uma figura pequena, muito parecida com Morgana, corria por um espaço branco e infinito, chocando-se contra algo que pareciam paredes de vidro invisíveis.


— Que tipo de brincadeira é essa? — rosnou. — Ela some e agora posta essas imagens para nos assustar?


    Os comentários subiam em cascata: “Que efeito surreal!”, “Parece real demais”, “Como ela fez isso?”. O contador já ultrapassava dois milhões de visualizações.


    O ódio de Plínio transbordou. Aquilo era a prova final do deboche. Morgana escolhera o palco digital. Escolhera não voltar.


Chega. Se você quer viver nesse mundo, viva sozinha. Eu vou apagar você da minha vida.


    Com os dedos trêmulos, selecionou o arquivo. Na tela, o rosto de Morgana parecia se contorcer. As mãos espalmadas contra o vidro invisível. A boca aberta num grito sem som.


    Plínio respirou fundo.


    “Deseja excluir permanentemente este arquivo?”


    Ele pressionou "Sim".


    No mesmo instante, o celular emitiu um estalo seco. A tela brilhou por um segundo e ficou preta.


    Lá dentro, no último milissegundo de sua existência, Morgana viu o dedo do marido descer como um veredito, apagando a luz, o espaço e o tempo. Ela não foi embora; apenas deixou de ser processada.


    Plínio largou o aparelho na gaveta, sentindo um alívio amargo. No quarto ao lado, as crianças choravam. Ele acreditava ter apagado um vídeo. Tinha acabado de desligar a esposa.


    O verdadeiro perigo não é a máquina se tornar humana, mas o ser humano se tornar tão descartável quanto ela.

                                                                                                                                                                                                 Miniconto de Nelson de Medeiros.

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