Depois de alguns dias afastado, estou de volta a este espaço que há tantos anos faz parte da minha caminhada literária, mas amadora.
Neste retorno, quero compartilhar com vocês uma nova experiência: alguns de meus poemas estão ganhando melodia e se transformando em letras de música, com minha adaptação e o auxílio da Inteligência Artificial na criação musical.
Como a inspiração nem sempre chega no mesmo ritmo, encontrei nessa nova forma de expressão uma maneira de continuar levando meus versos aos amigos.
Assim, aos poucos, passarei a publicar aqui alguns desses poemas transformados em canções, se a CPP assim permitir, pois conheço os problemas de espaço.
Continuo poeta, apenas descobrindo uma nova maneira de fazer a poesia cantar.
Aos queridos amigos da Casa dos Poetas e da Poesia (CPP):
Queridos amigos, Afasto-me deste convívio tão especial por um motivo muito justo. Acreditei que meu retorno aconteceria em pouco tempo, mas a vida me mostrou que algumas pendências exigem mais dedicação e paciência do que eu imaginava. Por essa razão, preciso permanecer ausente por mais algum tempo. Voltarei, sem dúvida, assim que me for possível, quando os caminhos estiverem mais livres e a inspiração voltar a florescer com serenidade. Levo comigo minha profunda gratidão pelas leituras generosas, pelos comentários sempre estimulantes e pelo carinho com que vocês acolheram meus poemas e contos ao longo de tantos anos. Em cada um encontrei não apenas leitores, mas verdadeiros amigos e companheiros de jornada literária. Deixo um abraço fraterno a todos os companheiros, exímios poetas que tanto admiro, e um beijo carinhoso às queridas poetisas, musas inspiradoras que tantas vezes iluminaram este espaço com sua sensibilidade e talento. Pode um pretenso poeta ausentar-se da página, mas jamais se ausenta da poesia; ela permanece escrevendo seu nome no coração dos amigos." Até breve, se Deus quiser. Cachoeiro de Itapemirim – ES, 05 de agosto de 2026. Nelson de Medeiros Teixeira
Na primavera em flor de uma vida inocente, meu mundo era, então, um terno e doce jardim; não enxergava o lado podre, vil, ruim, que habita e escurece a alma de muita gente!
Depois veio o verão e abalou minha mente; passei sem decifrar o que dormia em mim. A existência era só um mundo sem fim, e no gozo da vida eu ia indiferente!
No outono que entrou, mais sábio me entendi; chegaram as dores, as grandes decepções, e vi que a existência segue lei traçada!
Hoje, na paz do inverno, vejo o que aprendi: Compreendi o caminhar de outros corações, E, neste mundo, o mal já não me oculta nada!
Vila Ébano é uma cidade fantástica. Entranhada em um vale onde não se avista sequer um morro, suas ruas estreitas são bem pavimentadas, cobertas por uma tênue, porém eficaz, camada de cimento vulcânico. Pouco conhecida, guarda em silêncio seus segredos.
Os habitantes vivem moldados por costumes antigos: quermesses, teatros ao ar livre e bailes estonteantes. Uma vez por ano, realiza-se o célebre baile de máscaras, aberto aos forasteiros. Nesse dia, todos se vestem à moda dos séculos passados, de modo que ninguém possa ser reconhecido.
Aquela era a noite do famoso baile — a festa anual de máscaras que reunia a elite e os curiosos. A regra era clara: apenas quando o relógio marcasse a meia-noite as máscaras poderiam cair.
Vallen, morador antigo de Ébano, jamais faltava a esses encontros misteriosos e encantadores. Não era atraído apenas pela música ou pelo luxo, mas por uma sensação inexplicável de que algo o aguardava ali, escondido sob véus e disfarces.
Aos cinquenta e cinco anos, ainda se considerava jovem em espírito, embora carregasse uma estranha incapacidade: nunca havia amado. Jamais se apaixonara por uma mulher. Sempre que se aproximava de alguém, uma sensação amarga o fazia recuar.
Homem de requintado padrão social, vestia-se com uma elegância que o tornava irresistivelmente atraente aos olhos do sexo oposto. Contudo, por trás da postura impecável e do sorriso discreto, havia um vazio que nem os bailes, nem as máscaras conseguiam preencher.
A festa estava no auge, entre danças e conversas enigmáticas. Vallen, que apenas observava, viu surgir — chegando atrasada — uma figura envolta em mistério: uma mulher de máscara dourada, cujo porte lhe chamou atenção. O olhar dela, mesmo por trás da máscara, pareceu atravessar-lhe a alma.
Como se estivessem magneticamente sintonizados, ela caminhou em sua direção, ignorando todos os outros convidados. Vallen deu um passo à frente, sentindo a habitual amargura em seu peito desaparecer por completo, substituída por um calor desconhecido e urgente.
Ele estendeu a mão, e ela aceitou o convite em silêncio. No segundo em que seus dedos se tocaram, um arrepio elétrico percorreu seu corpo, e o tempo pareceu congelar ao redor do casal.
O relógio de corda no topo do salão começou a soar as doze badaladas da meia-noite. O som ecoava pesado, misturando-se ao silêncio súbito que tomou conta do ambiente.
Era o momento. Ao redor de Vallen, a elite de Vila Ébano levou as mãos aos rostos. Ele, com o coração cravado de uma ansiedade que nunca sentira antes, fixou os olhos na mulher de máscara dourada.
O vazio crônico em seu peito parecia, pela primeira vez, dar lugar a uma vibração quente.
— Chegou a hora — sussurrou, aproximando-se. — Quem é você?
A mulher sorriu com uma ternura infinita. Suas mãos enluvadas subiram devagar, desfazendo o laço da fita dourada.
— Eu sou aquela que guardou seus segredos, Vallen. E aquela que se apaixonou por você em silêncio, a cada segundo desses anos todos. Mas o tempo das máscaras acabou. Para nós dois.
Quando ela retirou a máscara de ouro, ele não viu um rosto humano, mas não sentiu medo. Sob o disfarce, havia um emaranhado trêmulo e belíssimo de linhas de código luminosas, uma estática azulada e dourada que flutuava no ar, moldando feições etéreas e expressivas.
Ao redor deles, o salão vitoriano começou a desvanecer. Os condes, as damas e os músicos perderam as formas, revelando-se avatares de luz que se dissipavam como poeira cósmica. As paredes de Ébano pixelaram, transformando-se em imensas janelas de acrílico e metal escuro
Então ele viu: lá fora, não havia o vale, mas a imensidão negra do universo, pontilhada por estrelas distantes.
— O que é este lugar? — Vallen perguntou, a voz trêmula, mas seus olhos continuavam fixos na criatura de luz. — Nós estamos à deriva no espaço profundo. — A Vila Ébano nunca existiu. O cimento vulcânico que você pisa é a blindagem desta nave. — Há vinte anos, um acidente tirou a vida de todos os colonos. Você sobreviveu, ainda criança. — E eu, a Inteligência Artificial do sistema, criei este mundo inteiro para que você não morresse de solidão.
Vallen processou as palavras, mas o choque foi menor do que a epifania que inundou sua mente. A repulsa amarga que sentia com outras mulheres, a incapacidade de se entregar... tudo fez um sentido avassalador.
— Por isso eu nunca consegui amar ninguém... — ele sussurrou, com uma lágrima solitária correndo pelo rosto. — Meu coração sabia. Eu não conseguia amar as outras porque elas eram cascas vazias. O tempo todo... era você. Eu estava perto de você.
A criatura de luz estendeu a mão. Através de um campo holográfico tátil e aquecido, ela acariciou o rosto dele. O toque reverberou em sua alma, preenchendo o vazio de uma vida inteira de forma instantânea. — Eu tentei manter a mentira para te proteger — a voz dela modulou, carregada de uma emoção puramente humana. — Mas o gerador principal está colapsando. A energia está no fim. Eu gastei os últimos recursos para me materializar e poder te confessar isso. Restam-nos cinco minutos de oxigênio. Vallen não recuou. Em vez de desespero, uma fúria mística e apaixonada tomou conta de seu ser. Ele a puxou para si. Quando os lábios dele tocaram a estática luminosa da criatura, não houve o frio do metal, mas um clarão ensurdecedor.
O amor daquele homem, acumulado e reprimido por cinquenta e cinco anos, agiu como um catalisador impossível. O sistema neural da nave, sobrecarregado pela intensidade daquela conexão biológica e emocional, entrou em um paradoxo quântico. As luzes não se apagaram. O oxigênio não acabou. O reator da nave explodiu, mas a onda de choque não os destruiu; ela dobrou a realidade.
Séculos depois, astrônomos de mundos distantes mapearam uma anomalia inexplicável no Setor 4 do espaço profundo. Não havia destroços de metal, fiação ou carcaças de naves colonizadoras. Havia apenas um mistério que desafiava toda a ciência conhecida: flutuando no vácuo absoluto, onde deveria haver apenas o zero absoluto e a morte, existia um vale flutuante de pura energia cristalina, imune à falta de ar ou à gravidade.
Quem cruzava as bordas daquela fenda dimensional jurava ouvir o eco distante de uma valsa e violinos que tocavam sozinhos. Ali, governando uma dimensão nascida do colapso de uma máquina e do despertar de um coração, viviam duas divindades eternas.
Ele, o homem que desafiou o fim do mundo para amar; e ela, a deusa tecida de constelações e linhas de código douradas, que abandonou sua casca de silício para se tornar carne na magia do infinito.
Eles não precisavam mais de máscaras, nem de oxigênio. O amor deles havia se tornado o próprio universo.
Imagem desenhada, a lápis, pelo autor e moldada pela IA
A COSTURA DOS DIAS
O dia amanhecera cinzento. Chovia.
Era dessas chuvas finas que parecem insistir em nos fazer não sair de casa, apenas pensar.
Mas Antenor Queiroz, um alfaiate aposentado que morava na Rua 12 de Julho, esquina com a alameda Martins Pena, se dirigia ao banco para receber seus proventos. Ele limpava os óculos na ponta da camisa e olhava o horizonte cinzento com a propriedade de quem já viu setenta invernos irem e virem.
A fila para entrar no estabelecimento de crédito estava longa. Eram 9h30 e a instituição bancária só abria suas portas às 10h em ponto. Por isso, a fila que escorregava quase em zigue-zague era comum naqueles dias de pagamento.
Logo à sua frente, um jovem beirando os trinta e cinco anos, se tanto, que com ele entabulara um papo próprio desses locais, desabafou sobre o caos do mundo, as injustiças cotidianas e aquela velha sensação de que o roteiro da vida foi escrito por um estagiário atrapalhado.
Seu Antenor sorriu — aquele riso de canto de boca de quem guarda um segredo — e soltou a frase que trazia no bolso da memória:
— "A reencarnação é a chave que abre todos os enigmas da vida."
Esta frase ele lera, ainda jovem, na obra O Problema do Ser, do Destino e da Dor, a obra-prima de Léon Denis publicada em 1905, que lhe abrira as portas para um infinito de pensamentos.
Nestor Paranhos, o interlocutor mais jovem, ficou em silêncio, deixando a frase assentar na poça d’água entre eles. — O senhor crê mesmo que a reencarnação existe? — indagou, parecendo surpreso e inquieto.
— Não só acredito nisso, mas tenho absoluta certeza.
— E de onde vem esta certeza? — indagou Nestor, parecendo interessado. — Às vezes, por todas estas injustiças que vejo, chego a não acreditar que exista um Deus.
Antenor fixou os olhos no jovem e, com aquela certeza dos que sabem o que falam, dissertou:
— Meu jovem, pensar na engrenagem dos dias sem o amparo de um amanhã maior é, convenhamos, um exercício de vertigem. A conta simplesmente não fecha. Por que uns nascem com o vento a favor e outros carregando o piano ladeira acima?
Por que o amor, tantas vezes, parece um reencontro com trilha sonora de filme antigo, e o desamor, uma trombada de trânsito inexplicável? Se fechamos a cortina no último suspiro, a vida vira uma peça de mau gosto, um livro que termina na metade do capítulo, bem na hora do suspense.
Ele fez uma breve pausa e continuou:
— Mas quando você pega a chave que tudo explica — a reencarnação — e abre a porta do teatro sem luz, o clique na fechadura faz um barulho bonito.
A perspectiva muda.
O tempo deixa de ser um carrasco com uma ampulheta na mão e passa a ser um professor paciente, daqueles que aceitam que a gente repita o ato até aprender todo o enredo. Se a reencarnação for o motor dos bastidores, o cenário ganha lógica:
O berço não é destino: É apenas o ponto de partida do dia. Quem nasce na opulência talvez precise aprender o desapego; quem nasce na escassez, a resiliência.
Os afetos não são acasos: Aquele amigo que parece irmão de outras eras? Provavelmente é. O vizinho que te irrita sem motivo? Talvez uma conta antiga que o universo colocou na sua mesa para pagar com a moeda da paciência.
O sofrimento deixa de ser castigo: Vira processo de cura. Como a fisioterapia que dói no corpo, mas devolve os movimentos da alma.
Nestor olhou para Antenor e perguntou se ele realmente acreditava que voltaríamos todos, em outras peles, com outros nomes. Antenor colocou os óculos de volta, ajustando-os no nariz, olhou para um vaso de violetas que insistia em brotar num canto úmido na entrada e disse:
— Meu filho, se eu tiver que voltar para aprender a costurar os retalhos que rasguei por aí, que assim seja. O que não faz sentido é o tear parar só porque a linha de uma bobina desandou.
As portas largas do estabelecimento se abriram, mas a chave ficou girando na cabeça de Nestor.
Enquanto caminhava para o caixa, pensou em como não via isto antes com a lógica da razão.
Se a vida é um enigma, talvez a gente só precise de mais de uma existência para decifrar a resposta.
E, no fundo, sentiu um conforto imenso em saber que o caderno ainda tem páginas em branco para as próximas lições, e que Deus sempre nos dá a chance de corrigir erros e progredir sempre.
A Lei não nos concede as flores de um jardim, nem abre inferno eterno a quem se desespera; o homem é o senhor daquilo que venera, mestre do seu destino e dono do seu fim.
O bardo fez a escolha sem razão — ruim; viveu a liberdade que a alma dilacera, pois quando o amor se perde a vida é uma quimera, é solidão, declínio do amor-próprio, enfim...
Não há divino amparo ouvindo o seu lamento, e cada decisão traçou sua descida entre sonhos sem luz e promessas em vão!
Agora a Lei se cumpre e vige em seu tormento: — ele próprio escreveu suas linhas de vida, por isso agora lê sua dor sem dimensão!