
EMPREGO GARANTIDO
Miniconto de Nelson de Medeiros
— Poxa vida! Você, quando levantar primeiro, faça menos barulho para não me acordar.
Pedro Lino era um sujeito pacato; gostava do silêncio. Incomodava-lhe o barulho de um foguete estourando ou de uma porta batendo. Por isso, quando se levantava antes de Carolina, tirava até o chinelo para não fazer ruído. Ainda assim, foi dessa forma que, naquela manhã de verão, foi saudado por ela.
Reclamação. Esse era o cotidiano de Pedro Lino e Carolina. De tudo ela reclamava; tudo e todos criticava, quase sempre sem motivo.
O filho, Pedro Jr., que estava quase concluindo o curso de parapsicologia, vivia lhe dizendo:
— Pare com isso, mãe. Reclamar só gera doença. Nosso corpo está intimamente ligado à nossa mente.
Betânia, a filha mais nova, nascida com o dom de ouvir vozes e ver pessoas já falecidas, costumava alertá-la:
— Cuidado, mãe. A palavra e o pensamento atraem aquilo que foi dito e pensado.
Carolina pouco se incomodava. Respondia sempre:
— Mas é verdade, eu sei disso. Estou vendo.
No fundo, acreditava saber tudo. Achava que sempre tinha razão, que apenas ela estava certa.
Não havia nada que lhe escapasse à crítica; vez ou outra, maldosa, preconceituosa e, no fundo, sempre voltada a destacar sua pseudo-superioridade. Carolina fazia questão de exibir seu suposto conhecimento sobre tudo, sua experiência de vida, como se tivesse vivido mais do que os outros — embora contasse apenas quarenta e oito anos de idade.
Falava com a segurança de quem nunca duvida de si mesma. Suas opiniões vinham carregadas de certezas absolutas, e qualquer discordância era recebida como afronta pessoal. Para ela, errados estavam sempre os outros: o marido excessivamente calado, o filho com suas ideias estranhas, a filha com seus dons “inventados”. Carolina não ouvia; apenas tolerava, certa de que, no fim, o mundo acabaria por lhe dar razão.
Talvez por isso jamais percebesse o peso das próprias palavras. Ignorava que cada reclamação parecia deixar um rastro invisível pela casa, como se algo se acumulasse no ar, silencioso e atento. As advertências dos filhos soavam como exageros, crendices sem fundamento. Ainda não sabia — ou fingia não saber — que nem tudo que se diz desaparece depois de dito, e que algumas coisas, quando chamadas, realmente escutam.
Naquela mesma tarde, enquanto Carolina passava pela casa resmungando — ora sobre o calor excessivo, ora sobre o silêncio “incômodo” do marido — algo começou a se modificar no ambiente. Não era visível, ao menos não para ela. O ar parecia mais denso, como se a casa respirasse com dificuldade. Pedro Lino sentiu um arrepio súbito ao atravessar o corredor, uma sensação estranha, semelhante à de estar sendo observado.
Foi então que um ruído seco ecoou da cozinha. Não era uma porta, nem um objeto caindo. Era um som oco, profundo, como se viesse de muito longe. Betânia foi a primeira a perceber. Parou subitamente, o olhar fixo no nada, e murmurou, quase sem voz:
— Eles estão escutando…
— Escutando o quê, menina? — retrucou Carolina, impaciente. — Pare com essas bobagens.
Mas a filha já não parecia ouvir. Seus olhos acompanhavam algo invisível, que atravessava lentamente a parede e se dissipava no ar. Um frio inexplicável percorreu o ambiente, e por um instante as luzes piscaram, fracas, como se a casa estivesse à beira de um apagão.
Pedro Jr. sentiu um aperto no peito. Reconhecia aquela sensação dos estudos e das experiências relatadas nos livros: a fronteira tênue entre os mundos se afinava. O Umbral, lugar de ecos, de consciências presas às próprias sombras, parecia reagir ao excesso de palavras carregadas de negatividade.
Carolina, no entanto, apenas cruzou os braços.
— Essa casa está cheia de problemas — resmungou. — Tudo aqui dá errado. Ninguém me escuta.
No mesmo instante, um silêncio pesado caiu sobre todos. Um silêncio que não era ausência de som, mas presença. Como se algo tivesse acabado de aceitar um convite.
Betania recolheu-se ao quarto e preocupada fez uma prece pedindo com fé e sinceridade ajuda da vó materna, já falecida, para que intercedesse para que sua mãe caísse na realidade.
Naquela noite, Carolina teve um sonho estranho, um sonho com características que nunca tivera antes. Parecia tão real que ela chegava a sentir na pele e na alma o clima.
Viu-se, de repente, num lugar que não era a terra e não era o céu. Ela, então aterrorizada sentiu que havia morrido e fora enviada àquele lugar sombrio.
Ao seu lado postava-se um sujeito meio carrancudo, meio aborrecido, em silencio, só a observando.
— Onde estou? O que aconteceu? Falou dirigindo-se estarrecida ao sujeito parado.
Então, saindo de seu mutismo homem lhe apontou uma mesa preta, cravejada de tomos roxos e apontando-lhe a cadeira lhe disse:
— Aqui todos tem o que merecem. — E você ganhou um emprego. Vai ser ouvidora, pois quem reclama de tudo e de todos, será empossado com ouvidor mor no balcão de reclamações, depois da morte, em outra dimensão da vida, por longos séculos.
Pela manhã, Carolina acordou com aquelas palavras na mente e encontrando Pedro Lino, que acabar de passar o café, falou: — Tive um pesadelo horrível, culpa de Betania que fica inventando bobagem e sua que não fala nada, que droga!
Pedro Lino apenas a olhou em silêncio.
E, por um instante breve, quase imperceptível, Carolina teve a estranha sensação de que alguém, em algum lugar, estava anotando aquela reclamação.