Não há nada pior, nem mais chocante, que o mau humor — do homem ou da mulher; expõe o que se pensa e o que se quer, na estultice sombria de um instante!
O rosto natural, seja qualquer, se entorta na feiura acachapante; a alma, na frieza mais cortante, congela o seu amor, se ainda o tiver!
Quando a ternura cede ao amargor, a aura que o envolve é luz perdida, pois só circunda o entorno do rancor!
É treva que escurece a alma em vida, provando que a beleza é sem vigor, se a paz da mansidão for esquecida!
O sol, em azul-rubi, a tarde finda em céu de luz que lento desvanece; a dor do mundo o bardo agora esquece e busca o que é de bom na Terra ainda!
Sua chama inspiradora se engrandece: olhando então a musa, ele se inclina e, ao ouvido, lhe diz quase em surdina: — O teu rosto é o céu da minha prece!
Ela, fitando a tarde que morria num tom de azul e fogo, matizada, envolvida na divina aquarela,
indaga: — “Acaso fazes poesia?” — Não — diz o bardo à musa deslumbrada — ao contrário, eu que sou feito por ela!
O bardo, tomando a liberdade de falar em nome de todos, deseja aos poetas e poetisas da Casa dos Poetas e da Poesia um 2026 pleno de inspirações, sopradas generosamente pelo Mundo Maior, onde a sensibilidade encontra o verbo e o verbo se transforma em luz. Cada poeta e cada poetisa, com o dom que Deus lhe concedeu, alegrou, inspirou e elevou a todos nós. São vozes distintas, mas unidas pelo mesmo fio invisível da poesia, que nos irmana e nos engrandece. Mas é justo — e necessário — estender também nossos votos de saúde, prosperidade e paz àqueles que, muitas vezes de forma quase anônima, sustentam o funcionamento contínuo desta Casa que abriga a veia poética e os sonhos coletivos. Com a devida vênia dos amigos, nomeamos esses baluartes cujo trabalho silencioso mantém acesa a chama da poesia:
Era o tempo dos Beatles, quando as canções pareciam capazes de reorganizar o mundo e a juventude aprendia a sonhar ao som de um refrão. As músicas atravessavam as janelas abertas, misturavam-se ao calor do verão e davam a impressão de que algo importante estava sempre prestes a acontecer. Era também o tempo do cinema como rito — salas escuras, filas nas calçadas, vidas suspensas por duas horas, enquanto o mundo lá fora aguardava em silêncio.
Adamastor vivia esse tempo sem saber que ele passaria. Já se afastava da infância, mas ainda não alcançara a adolescência. Havia nele uma expectativa difusa, uma curiosidade sem nome. Gostava das músicas que tocavam no rádio, das matinês barulhentas e das férias longas, intermináveis, que começavam em dezembro e só terminavam quando o verão já se despedia.
A cidade, com seus pouco mais de sessenta mil habitantes, parecia maior naquela época: as ruas cheias, o comércio em festa, o Natal anunciando promessas que ninguém sabia explicar, mas que todos sentiam.
Naquele dia, entrou no Cine Arte para assistir a A Noviça Rebelde. A sessão já havia começado. O escuro o acolheu como um segredo antigo. Sentou-se sem olhar, guiado apenas pelo tato, pelo farfalhar dos corpos e pela pressa juvenil de não perder nada do que estava na tela. Pouco a pouco, à medida que os olhos se habituaram à penumbra, percebeu quem estava ao seu lado. Maria Isabel.
Estudavam no mesmo colégio. Moravam no mesmo bairro. Cruzavam-se havia anos sem jamais se deterem um no outro — rostos familiares, porém anônimos, como tantos que fazem parte da paisagem cotidiana. Ainda assim, ali, lado a lado, era como se se reconhecessem pela primeira vez, arrancados da rotina por uma coincidência que não foge de qualquer explicação.
Ela tinha olhos claros, quase luminosos na sombra, e um silêncio delicado, atento. Ele trazia um romantismo tímido, trazido dos livros e dos filmes, mas nunca exercitado na vida real. Ambos carregavam sentimentos que ainda não sabiam usar. Talvez por isso se entendessem tão bem sem palavras.
Enquanto a música ecoava na tela e as imagens se sucediam, Adamastor deixou a mão deslizar lentamente pelo braço da poltrona. Tocou a de Isabel com a cautela de quem toca algo sagrado ou proibido. Os dedos se entrelaçaram — inseguros no início, depois firmes, como se soubessem exatamente onde estar, como se aquele gesto tivesse sido ensaiado em silêncio por muito tempo.
Não trocaram olhares.
Não disseram nada.
Mas, sem saber quem se inclinou primeiro, rolou um beijo — breve, hesitante, como se o gesto tivesse nascido antes deles. Um toque de lábios quase por engano, quase por necessidade.
O mundo pareceu suspender a respiração. A sala desapareceu, o filme tornou-se distante, e restou apenas aquele contato mínimo, absoluto. Uma corrente quente percorreu os dois. Isabel suspirou fundo, quase sem ar, como se o corpo precisasse reaprender a respirar. Adamastor sentiu o coração bater num lugar novo, desconhecido, como se aquele instante inaugurasse algo que não teria continuidade — e, ainda assim, fosse suficiente.
Quando a sessão terminou, levantaram-se devagar, ainda atordoados, como quem desperta de um sonho curto demais. Saíram por lados diferentes da sala, carregando consigo algo que não sabiam nomear e que não ousariam comentar com ninguém. Nunca mais se encontraram — nem no bairro, nem no colégio, nem nas ruas cheias de outros Natais, nem em qualquer outra matinê do Cine Arte.
O tempo passou, silencioso e inexorável.
Hoje, mais de quarenta anos depois, Adamastor já não saberia reconhecer Maria Isabel, se a visse. Não saberia o som de sua voz, nem a cor exata de seus olhos, nem se ainda existiria algo em comum entre eles.
Mas sabe que houve um instante em que tudo fez sentido. Um instante sem nome, sem promessa e sem futuro, mas pleno de uma verdade inexplicável.
Desde então, carrega a estranha certeza de que algumas histórias não acontecem para durar — acontecem apenas para existir.
Todas as tardes, Mário Lino acomodava-se em sua cadeira especial e deixava o olhar repousar na paisagem que se abria diante da ampla janela. Ao longe, erguia-se a colina coberta por um verde intenso, quase luminoso. Desde que passara a viver em Krypton — pequena cidade aninhada num vale cercado de montanhas — aquela elevação o intrigava. Os moradores sussurravam a mesma advertência:” ninguém que se aventurara por entre suas árvores voltara a ser visto”. Diziam que era um portal maligno, mas Mário Lino, porém, não se conformava com isso. Com o tempo, ele notou algo inquietante: em certos fins de tarde, ele juraria ter visto um brilho rosado, fugaz, entre as árvores, seguido de uma silhueta que parecia acenar para ele. E, em dias de neblina, ele escutava um zumbido grave, que parecia vir de lá. Certa noite, ele teve um sonho: caminhava em direção à colina, e no topo, esperava por ele uma mulher de cabelos ruivos, com os olhos de um tom de esmeralda. — Eu estou te esperando, Mário — ela sussurrava. — Seu lugar é ao meu lado. Ele acordou sobressaltado. Olhou pela janela e viu a mesma luz cintilando no alto da elevação. Foi então que decidiu que iria, no dia seguinte, descobrir o que realmente havia além daquele verde impossível. Era quase um chamado o que sentia. Na manhã seguinte, o céu amanheceu de um azul impassível. Mário Lino calçou suas botas e saiu. A descida da rua foi silenciosa; ninguém mais estava acordado. Ao chegar à base da colina, o ar cheirava a eletricidade e o zumbido aumentava enquanto ele avançava. Mário Lino deu o primeiro passo na trilha, sentindo-se estranhamente leve. Ele subiu por vinte minutos. Finalmente, a trilha se abriu em uma clareira no topo. Não havia portal ou máquina, apenas uma formação rochosa e um bosque florido. No centro ele viu a mulher do sonho: cabelos ruivos, olhos verdes. Ela sorriu com uma familiaridade que acalmou seu coração. — Luna — ele murmurou, o nome vindo de um lugar que não existia em sua memória. — Mário Lino — ela respondeu, estendendo a mão. — Você demorou. Ele segurou a mão dela. O toque era quente, familiar. — O que é este lugar? Por que você está aqui? Os moradores dizem que ninguém volta. Luna o conduziu até ao centro da clareira. — Este não é um lugar. É um Tempo. Uma bolha que parou a passagem dos anos. Eu vim de um futuro distante, Mário. Tão distante que o seu tempo é a minha história. Eu encontrei essa "bolha" na linha do tempo e usei para escapar de um mundo que não tinha cores, nem amor. Ela apontou para um painel de pedra polida, que projetava uma imagem nítida do quarto de Mário Lino, incluindo a cadeira especial. — Eu te vi. Todas as tardes. Eu te observava, e o mundo simples em que tu vivias, através dessa tela. Teu quarto, tua cidade… tudo o que me restou da beleza. Eu te observava e me apaixonei por tua paz, por seu jeito de olhar a colina... a mim. Eu estava acenando para ti, Mário. — Eu estava te vendo! — ele exclamou. — Eu via o brilho rosado... — Era o reflexo do meu vestido! — Luna riu, as lágrimas esmeraldas cintilando. — Eu ansiava tanto que você me visse, que meu sentimento abriu o portal para você. Você é o único que consegue me ver, porque você é o único que eu amo no seu tempo. Mário Lino levou as mãos ao rosto dela. — Eu não quero voltar. Eu não aguento mais a lenda. Eu quero a realidade. A nossa realidade. — Se você não voltar, a história de Krypton a muda. Você desaparece. Sua vida para por aqui — alertou Luna. — Mas você viverá comigo, fora do tempo. Não há como voltarmos ao passado, Mário. A bolha se fecha. Mário Lino olhou para o vale, pensativo. A neblina ainda cobria as casas. A solidão de observar a colina todos os dias já não lhe fazia sentido. — Eles dizem que ninguém que veio aqui voltou a ser visto. Que a realidade se dissolve. — A lenda estava certa — Luna sussurrou, acariciando o rosto dele. — Mas ela se dissolveu para dar lugar à nossa. Mário Lino sorriu, a leveza que sentiu ao acordar transformando-se em paz. — Que se dissolva, Luna. Meu tempo acabou. Meu lugar é aqui. Com você. Ele a beijou com a certeza de quem finalmente encontra seu lar. No mesmo momento, o zumbido cessou. O chão tremeu. A luz azulada se intensificou, engolindo a clareira. A tela que mostrava o quarto de Mário Lino estalou e se apagou, tornando-se preta. Lá embaixo, na ampla janela do quarto arejado e silencioso, a poltrona estava vazia. Mas, na mesinha de cabeceira, a página de um livro estava aberta, marcada com um pedaço de tecido de cor rosada. Em Krypton, o sol finalmente rompeu a neblina. As pessoas nunca mais mencionaram Mário Lino; era como se ele tivesse se mudado no dia em que chegou. Mas, de vez em quando, ao entardecer, as pessoas juravam ver uma luz azul e um fugaz brilho rosado no topo da colina. E elas evitavam mencioná-lo, para não perturbar o casal que havia escolhido o tempo como lar. E assim, a lenda se tornou verdade, provando que o amor é a única viagem que não tem volta. É a prova de que, para os corações que amam de verdade, a eternidade não é fantasia, é destino. Miniconto de Nelson de Medeiros
Tua amizade? - Me perdoa, é quase ofensa a tanto amor que te devoto em grau supremo! Não quero — prefiro até mesmo a indiferença, pois, sentindo este amor, da amizade blasfemo!
Que desproposito! Que enorme diferença; é que meu corpo, ao ver teu corpo, vibra e treme, e, se em tua alma esta amizade se condensa ela, em Minh! Alma, se desmancha, chora e geme!
Portanto não quero este céu de noite escura! Antes, a dor desta verdade, desta agrura, do que este fogo enganador de negro lume!
Não! Jamais de ti vou querer esta amizade; antes, condenado a viver de uma saudade, a sofrer no braseiro infernal do ciúme!