Posts de Nelson de Medeiros (367)

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DUETO: LILIAN FERRAZ & NELSON DE MEDEIROS

 

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A + B

Juntando A + B entendemos o enigma
Fazemos um poema com novas rimas
Eu e você unindo o A + B podemos fazer
Mundo de enredos diversos, controversos

Surreais, misteriosos e também comum
Juntando A + B podemos fazer acontecer
Eu assumo o navegador, com minha calma
Tu assumes o leme com sua perspicácia

Vamos chamar outros do elenco para animar
Então eu e você saberemos o valor de A + B
Numa equação matemática são favas contadas
Na poesia são destaques com suas máscaras.

Lilian Ferraz

O NAVEGADOR E O LEME

Aceito o leme e sigo meu caminho
com elegância, com amor e paz;
pois, no mistério que teu canto traz,
acerto o prumo e logo me alinho!

Se o mundo é surreal, se é falaz,
nosso enredo não pode andar sozinho;
por isso é que fazemos com carinho
a poesia que esta vida traz!

Não é somente rima de um momento,
já que a razão entrega o que é normal
em poemas de puro sentimento!

Mas entre todos — sei — não há nenhum,
assim, que tenha o brilho e o ideal
de sermos dois, num laço que é só um!

Nelson de Medeiros

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NOS LENCÓIS

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NOS LENÇÓIS

Teu corpo acorda cedo e me abraça,
entre os lençóis azuis de raro linho;
o dia vem nascendo de mansinho,
e a lembrança do ontem me enlaça!

Em teu rosto, a tristeza que esvoaça
faz a mente girar em torvelinho;
à mesa, nosso olhar em desalinho
pressente que a ventura se esfumaça!

Lá fora, segue a vida traiçoeira;
o sol ensaia entrar pela janela,
e o vento traz o adeus que não reclama!

O peito cede à dor que é verdadeira,
a sombra se projeta em torno dela
e sufoca o gemido em nossa cama!

                                                                                                                  Nelson de Medeiros.

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PALÁCIO DE PAPEL

 

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 PALÁCIO DE PAPEL

 

Um dia eu tive um sonho iluminado,
de luzes que brilhavam num salão;
dançava alucinado, sem noção,
num mundo só por mim arquitetado!

Mas o tempo passou como um clarão,
e logo despertei, desencantado;
dos sonhos onde estava enraizado,
restou desdém, deserto e solidão!

A glória que existiu virou derrota,
e o palácio caiu pelo avesso
num mundo hostil, deserto e em desvairio!

Quis encher de afeto a minha rota,
mas a vida, severa, cobra o preço:
— Hoje minha alma é cheia de vazio!

 

Nelson de Medeiros, 27/01/2026 – Terça-feira – 01h00

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BRINCADEIRA DE RODA

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BRINCADEIRA DE RODA
                                                                                                                                              (Miniconto de Nelson de Medeiros)

♪ Terezinha de Jesus de uma queda efoi ao chão... Acudiram três cavalheiros, todos três chapéu na mão... O primeiro foi seu pai, o segundo, teu irmão... O terceiro foi aquele que Amelinha deu a mão! ♪

  Era o refrão que a turma cantarolava entusiasmada, como se fosse uma ária de Mozart.

  A rua do bairro, na pequena cidade do interior, parecia encantada pela presença daquelas crianças que viviam a vida inocentemente — alheias às guerras, aos vilipêndios e à desinteligência dos adultos.

  Viviam ali, todas as noites, em um mundo que parecia pertencer a outra dimensão; uma fenda na estrada da mentira, da arrogância e da maldade.

  Plínio tinha somente treze anos, mas já carregava em seu íntimo a alma romântica, galante e o discernimento de quem pressente a beleza do amor. Amélia, a seu turno, não ficava atrás; embora partilhasse a mesma idade, guardava no olhar uma maturidade doce.

  Naquela noite, Plínio estava quase desmaiando. A cantiga ganhava vida enquanto Amélia — uma linda garota de olhos pretos, trajando um encantador vestidinho amarelo — caminhava tímida em direção à fila de meninos.

  Ela inclinou-se para Plínio que, imediatamente e quase sem fôlego, apertou suas mãos. O toque foi um choque de pureza.

Você quase errou o passo — sussurrou ela, com um sorriso que iluminava mais que os lampiões da rua.

É que o seu vestido... — ele baixou os olhos para o amarelo vibrante — ele brilha muito. Achei que você fosse uma estrela que caiu na roda.

  Se eles entendessem de reencarnações, diriam que já tinham vivido uma história de amor em outras vidas; e a cena ali se repetia, face às palavras que lhes saíram das bocas.

  Muitas luas depois, na mesma rua que outrora fora o palco de suas rodas, o silêncio da noite parecia guardar um segredo. Quem passasse por ali, sob o clarão de luzes, agora de led, poderia jurar ouvir o eco de um riso infantil e o rastro de um vestido amarelo sumindo na bruma.

  Plínio e Amélia já não eram mais os meninos de treze anos, nem os jovens da galeria. Eram, agora, a prova viva de que certas mãos, uma vez entrelaçadas em uma fenda do universo, jamais se soltam.      O destino, aquele mestre compositor, havia finalmente terminado de escrever a sua melodia. E, desta vez, não havia mais quedas ao chão; apenas o repouso de quem, após muitas vidas, finalmente chegara em casa.

  Talvez seja isso o amor puro, aquele amor que transcende: uma memória que jamais se apaga da alma. Ela não está no tempo, nem nas ruas que mudam de nome, nem nas luzes que se modernizam. Ele mora nas mãos que se reconhecem antes mesmo de se tocarem.

  Se almas gêmeas existem, talvez sejam apenas isso: duas vontades antigas atravessando o mundo, como se obedecessem a um destino maior — traçado, quem sabe, por Deus.

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TRANSPARÊNCIA DA ALMA

 

 

 

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TRANSPARÊNCIA DA ALMA

Não minto, não! Meu riso é claridade,
pois a minha alma é sempre transparente;
não luto contra o mundo, sigo em frente,
sem carregar comigo ódio ou maldade!

Não mascaro jamais minha vontade,
não posso iludir a própria mente;
a minha vida é verso que se sente
em rimas ricas de sinceridade!

Em teu abraço, em meio ao que fruímos,
desvendei, numa tarde, o teu segredo,
ao te beijar sem pejo e sem vacilo.

Sim! Guardarei, pra sempre, o que sentimos
num poema de raro e grande estilo:
— Serei teu livro e tu o meu enredo!

                                                                                                                                                             Nelson de Medeiros, 26/01/2026

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EMPREGO GARANTIDO

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EMPREGO GARANTIDO
Miniconto de Nelson de Medeiros


— Poxa vida! Você, quando levantar primeiro, faça menos barulho para não me acordar.
Pedro Lino era um sujeito pacato; gostava do silêncio. Incomodava-lhe o barulho de um foguete estourando ou de uma porta batendo. Por isso, quando se levantava antes de Carolina, tirava até o chinelo para não fazer ruído. Ainda assim, foi dessa forma que, naquela manhã de verão, foi saudado por ela.


Reclamação. Esse era o cotidiano de Pedro Lino e Carolina. De tudo ela reclamava; tudo e todos criticava, quase sempre sem motivo.
O filho, Pedro Jr., que estava quase concluindo o curso de parapsicologia, vivia lhe dizendo:
— Pare com isso, mãe. Reclamar só gera doença. Nosso corpo está intimamente ligado à nossa mente.
Betânia, a filha mais nova, nascida com o dom de ouvir vozes e ver pessoas já falecidas, costumava alertá-la:
— Cuidado, mãe. A palavra e o pensamento atraem aquilo que foi dito e pensado.
Carolina pouco se incomodava. Respondia sempre:
— Mas é verdade, eu sei disso. Estou vendo.


No fundo, acreditava saber tudo. Achava que sempre tinha razão, que apenas ela estava certa.
Não havia nada que lhe escapasse à crítica; vez ou outra, maldosa, preconceituosa e, no fundo, sempre voltada a destacar sua pseudo-superioridade. Carolina fazia questão de exibir seu suposto conhecimento sobre tudo, sua experiência de vida, como se tivesse vivido mais do que os outros — embora contasse apenas quarenta e oito anos de idade.


Falava com a segurança de quem nunca duvida de si mesma. Suas opiniões vinham carregadas de certezas absolutas, e qualquer discordância era recebida como afronta pessoal. Para ela, errados estavam sempre os outros: o marido excessivamente calado, o filho com suas ideias estranhas, a filha com seus dons “inventados”. Carolina não ouvia; apenas tolerava, certa de que, no fim, o mundo acabaria por lhe dar razão.
Talvez por isso jamais percebesse o peso das próprias palavras. Ignorava que cada reclamação parecia deixar um rastro invisível pela casa, como se algo se acumulasse no ar, silencioso e atento. As advertências dos filhos soavam como exageros, crendices sem fundamento. Ainda não sabia — ou fingia não saber — que nem tudo que se diz desaparece depois de dito, e que algumas coisas, quando chamadas, realmente escutam.


Naquela mesma tarde, enquanto Carolina passava pela casa resmungando — ora sobre o calor excessivo, ora sobre o silêncio “incômodo” do marido — algo começou a se modificar no ambiente. Não era visível, ao menos não para ela. O ar parecia mais denso, como se a casa respirasse com dificuldade. Pedro Lino sentiu um arrepio súbito ao atravessar o corredor, uma sensação estranha, semelhante à de estar sendo observado.


Foi então que um ruído seco ecoou da cozinha. Não era uma porta, nem um objeto caindo. Era um som oco, profundo, como se viesse de muito longe. Betânia foi a primeira a perceber. Parou subitamente, o olhar fixo no nada, e murmurou, quase sem voz:
— Eles estão escutando…


— Escutando o quê, menina? — retrucou Carolina, impaciente. — Pare com essas bobagens.
Mas a filha já não parecia ouvir. Seus olhos acompanhavam algo invisível, que atravessava lentamente a parede e se dissipava no ar. Um frio inexplicável percorreu o ambiente, e por um instante as luzes piscaram, fracas, como se a casa estivesse à beira de um apagão.
Pedro Jr. sentiu um aperto no peito. Reconhecia aquela sensação dos estudos e das experiências relatadas nos livros: a fronteira tênue entre os mundos se afinava. O Umbral, lugar de ecos, de consciências presas às próprias sombras, parecia reagir ao excesso de palavras carregadas de negatividade.


Carolina, no entanto, apenas cruzou os braços.
— Essa casa está cheia de problemas — resmungou. — Tudo aqui dá errado. Ninguém me escuta.
No mesmo instante, um silêncio pesado caiu sobre todos. Um silêncio que não era ausência de som, mas presença. Como se algo tivesse acabado de aceitar um convite.


Betania recolheu-se ao quarto e preocupada fez uma prece pedindo com fé e sinceridade ajuda da vó materna, já falecida, para que intercedesse para que sua mãe caísse na realidade.
Naquela noite, Carolina teve um sonho estranho, um sonho com características que nunca tivera antes. Parecia tão real que ela chegava a sentir na pele e na alma o clima.


Viu-se, de repente, num lugar que não era a terra e não era o céu. Ela, então aterrorizada sentiu que havia morrido e fora enviada àquele lugar sombrio.
Ao seu lado postava-se um sujeito meio carrancudo, meio aborrecido, em silencio, só a observando.
— Onde estou? O que aconteceu? Falou dirigindo-se estarrecida ao sujeito parado.
Então, saindo de seu mutismo homem lhe apontou uma mesa preta, cravejada de tomos roxos e apontando-lhe a cadeira lhe disse:
— Aqui todos tem o que merecem. — E você ganhou um emprego. Vai ser ouvidora, pois quem reclama de tudo e de todos, será empossado com ouvidor mor no balcão de reclamações, depois da morte, em outra dimensão da vida, por longos séculos.


Pela manhã, Carolina acordou com aquelas palavras na mente e encontrando Pedro Lino, que acabar de passar o café, falou: — Tive um pesadelo horrível, culpa de Betania que fica inventando bobagem e sua que não fala nada, que droga!

Pedro Lino apenas a olhou em silêncio.
E, por um instante breve, quase imperceptível, Carolina teve a estranha sensação de que alguém, em algum lugar, estava anotando aquela reclamação.

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O BARDO E A ETERNIDADE

 

 

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O BARDO E A ETERNIDADE

O bardo traz certeza inata e plena
que a dor que o acompanha, na existência,
com certeza provém doutra vivência,
e, nesta, justa lei as reencena!

Do grau intenso à forma mais amena,
ela mora na sua consciência,
nesse mundo que sobe na ciência,
mas na moral só desce e se apequena!

Por isso é que a justiça lhe fascina,
e ele busca, na densa escuridão,
a luz serena que a alma enobrece!

Então, fiel à ordem que o destina,
segue o bem numa reta direção,
no rastro do amor que não fenece!

                                                                                                                                                                     Nelson de Medeiros, 2hs/45m do dia 24/01/2026

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QUANDO EU DIGO QUE OLVIDO

 

 

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QUANDO EU DIGO QUE OLVIDO


Quando eu digo: “Te esqueci”, é só defesa,
palavra que se ergue ante a verdade;
quem finge indiferença, em realidade,
protege a dor que na alma é chama acesa!

Esquecimento é surto de frieza,
silêncio sem memória ou ansiedade;
não é este lutar contra a saudade,
com a razão ferida, com certeza!

Embora diga eu que nada aceito,
que o tempo já rompeu laços contigo,
e nada mais restou dentro do peito,

eu nego em cada verso o que inda sinto,
pois sigo preso ao que renego e digo,
apenas pra esconder o meu despeito!

                                                                                               Nelson de Medeiros, 23/01/2026

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A REDE SOCIAL

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A REDE SOCIAL

    A luz azul do smartphone era a única lanterna de Morgana. No café da manhã, o leite esfriava enquanto ela “aquecia” suas postagens. O mundo físico tornara-se um borrão incômodo; a vida real acontecia em pixels, curtidas e comentários.


    No almoço, o garfo parava suspenso antes de chegar à boca, e mais uma vez tudo esfriava. À noite, abraçava o celular como quem busca conforto e dormia com ele ao seu lado.


— Mamãe, olha o meu desenho! — pediu Pedro, estendendo a folha com um sol torto, pintado às pressas.


— Lindo, filho… — respondeu ela, sem tirar os olhos da tela. — Deixa eu só postar isso aqui.


    Amélia, a filha mais velha, já nem insistia. Aprendera cedo que competir com a tela era perder antes de começar.


    No jantar, o silêncio se acomodava à mesa, quebrado apenas pelo estalo seco das notificações. Plínio Lino, o marido, já não escondia o mal-estar. Os olhos cansados denunciavam noites de espera inútil.


    Certa noite, bateu a mão com força no sofá. O som ecoou pela sala. O rosto, tenso, estava rubro de frustração.


Morgana, chega! Se você não sair desse mundo paralelo, eu vou embora com as crianças. Você está sentada aqui, mas não habita mais esta casa. Você sumiu, Morgana! Sumiu!


    Ela não respondeu. Não ouvia. Os olhos permaneciam grudados à telinha, imóveis, como se o resto do mundo tivesse sido silenciado.


    Naquela noite, Plínio foi dormir no sofá.


    Acordou de madrugada com um vazio estranho na sala. A casa respirava um silêncio pesado demais. Morgana não estava ali.
    No tapete, apenas o celular, aceso. A câmera aberta enquadrava o nada.


    Ela havia desaparecido sem levar roupas, chaves ou documentos.


    Os dias que se seguiram foram de agonia. A polícia não encontrou rastros. Plínio vasculhava o aparelho de Morgana em busca de pistas: um amante, um encontro marcado. Mas encontrava apenas o de sempre — milhares de seguidores reagindo a fotos antigas e fofocas de todo gênero.


   Na terceira noite, surgiu um vídeo novo no perfil dela. Sem legenda.
Plínio sentiu um calafrio. Ela está postando? De onde?


    No vídeo, uma figura pequena, muito parecida com Morgana, corria por um espaço branco e infinito, chocando-se contra algo que pareciam paredes de vidro invisíveis.


— Que tipo de brincadeira é essa? — rosnou. — Ela some e agora posta essas imagens para nos assustar?


    Os comentários subiam em cascata: “Que efeito surreal!”, “Parece real demais”, “Como ela fez isso?”. O contador já ultrapassava dois milhões de visualizações.


    O ódio de Plínio transbordou. Aquilo era a prova final do deboche. Morgana escolhera o palco digital. Escolhera não voltar.


Chega. Se você quer viver nesse mundo, viva sozinha. Eu vou apagar você da minha vida.


    Com os dedos trêmulos, selecionou o arquivo. Na tela, o rosto de Morgana parecia se contorcer. As mãos espalmadas contra o vidro invisível. A boca aberta num grito sem som.


    Plínio respirou fundo.


    “Deseja excluir permanentemente este arquivo?”


    Ele pressionou "Sim".


    No mesmo instante, o celular emitiu um estalo seco. A tela brilhou por um segundo e ficou preta.


    Lá dentro, no último milissegundo de sua existência, Morgana viu o dedo do marido descer como um veredito, apagando a luz, o espaço e o tempo. Ela não foi embora; apenas deixou de ser processada.


    Plínio largou o aparelho na gaveta, sentindo um alívio amargo. No quarto ao lado, as crianças choravam. Ele acreditava ter apagado um vídeo. Tinha acabado de desligar a esposa.


    O verdadeiro perigo não é a máquina se tornar humana, mas o ser humano se tornar tão descartável quanto ela.

                                                                                                                                                                                                 Miniconto de Nelson de Medeiros.

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O CHAMADO

 

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O CHAMADO

 

Quis desvendar, um dia, o teu segredo;
por isso naveguei os sete mares,
cruzei imensidões, voei aos ares,
e o deserto varei até sem medo!

Vi novos credos, raças milenares;
na fé eu vi verdade e arremedo,
e, na procura vã por um bruxedo,
vi povos de costumes seculares!

Andei entre florestas, sem receio,
na busca dessa luz que me atraía,
e vi, do mundo exposto, o lado feio!

A mente, enfim, desperta em nostalgia,
pois tudo o que busquei no meu enleio,
era ilusão da alma, e eu não sabia!

                                                                                                                                                                     Nelson de Medeiros, 20/01/2026

 

 

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DOR


O brilho falso que mostra em teu rosto,
Não é disfarce sequer a maquiagem;
Tampouco pra mudar a tua imagem;
Atrás do brilho, esconde algum desgosto.


Não é reflexo do último sol posto,
Que, quando deita, embeleza a paisagem,
Dourando o prado, o chão, toda paragem,
Mostrando o belo que existe no oposto.


Teu olhar mostra claro todo o tédio,
Que te assola nas noites sem sentido,
Em que vela o desejo: ser querido.


Este brilho é um mal que não tem remédio,
Que corrói o teu peito, tão doido,
Por amar e não ser correspondido.
                                                                                   

Márcia Aparecida Mancebo  

 

 

RESPOSTA


Se chamas falso o brilho que em mim arde,
com certeza não viste a chama inteira;
não vês que a luz, embora verdadeira,
também fere quem ama e se guarde?


Não trago no meu rosto qualquer fraude,
nem máscara emprestada ou passageira;
é mesmo dor que, funda e certeira,
reluz na minha face, com alarde!


O tédio que tu vês em meu olhar
não nasce do amor que não manteve
mas do excesso cruel de tanto amar!


Pois quem viveu na vida a acolher
aprende que é difícil suportar
a dor do grande amor que nunca teve!


Nelson de Medeiros

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O CINZEL DA EXISTÊNCIA

  

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O CINZEL DA EXISTÊNCIA

Não vem do acaso o rumo do viver,
que se constrói por nossa decisão;
entre o pensar e o ardor da sensação,
damos sentido ao nosso próprio ser.

O amor, matéria viva em consciência,
é pedra bruta dada em nossa mão;
exige escolha, risco e atenção,
para atingir a sua transparência.

O pensamento é o nosso guia e Norte
que nos conduz, ao caos ou ao louvor,
na queda ou na subida para o alto!

Quando a razão se une ao pulso forte
e o ser humano cumpre o seu labor,
a luz da vida é paz sem sobressalto!

                                                                                                                                                         Nelson de Medeiros, 18/01/2026

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O GUARDIÃO DO AMOR E A PRINCESA DO TEMPO

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O GUARDIÃO DO AMOR E A PRINCESA DO TEMPO.


                                                                                                                                                                                                                       Miniconto inspirado num poema de Davi Simas Couto, intitulado: TRADUÇÃO.

 

         O sol do Egito derramava fogo sobre a areia havia dias. O deserto respirava silêncio, e cada grão parecia guardar um segredo antigo demais para ser dito em voz alta. Três arqueólogos cavavam, Davi, Layla e eu.

—      Nada outra vez… — murmurou Davi, limpando o suor da testa. — Talvez essa pulseira prefira continuar sendo lenda.

—      As lendas também esperam — respondi. — E nós aprendemos a escutar.

         Meu nome é Elias. Sou arqueólogo na terra dos faraós, cavando não apenas a areia, mas o tempo. Davi fazia parte da equipe, embora parecesse pertencer a outra era. Nas horas vagas escrevia versos como quem reza. Falava de amor com a sabedoria de quem já o perdeu. Por isso o chamávamos de Guardião do Amor.

—      Um poeta no deserto — provoquei certa vez.

         Ele sorriu, distante.

—      Até as pirâmides sabem das coisas do amor, Elias. Só precisamos aprender a ouvi-las.

         Cavamos por horas, até que o sol, mancomunado com  o destino, bateu em algo escondido e feriu meus olhos com um brilho inesperado.

—      Esperem… — sussurrei.

         Ajoelhei-me e afastei a areia com cuidado, como quem desperta um sonho. O metal antigo surgiu, simples e eterno.

—      Uma pulseira… — disse Layla, em reverência. — Primitiva como o primeiro juramento.

         Davi aproximou-se em silêncio. Seu olhar reconhecia antes que a mente ousasse compreender. À sombra da tenda, deciframos os sinais gravados, letras desconhecidas que pareciam bem antigas.

         Layla, que era epigrafista, inclinou-se sobre a pulseira como quem escuta uma voz antiga e leu:

—      “O poeta, guardião do amor, esteve aqui. Amou a princesa. E foi amado.”

         O vento atravessou o acampamento como um suspiro antigo. Davi empalideceu.

—      São os meus versos… — murmurou. — Sempre foram.

         Ele segurou a pulseira. Ela aqueceu, como se lembrasse de suas mãos.

—      Desde criança — disse ele — sonho com este deserto. Com um palácio branco… e com ela.

         A areia moveu-se ao nosso redor. Por um instante, o tempo cedeu. Vi colunas erguidas do nada, tochas acesas, e uma princesa de olhar triste observando Davi através dos séculos.

—      Em outra vida — continuou ele — fui poeta. Morri com o nome dela nos lábios. Prometi voltar.

—      E voltou — sussurrei.

         A pulseira brilhou uma última vez, depois se apagou, satisfeita. Davi sorriu entre lágrimas.

—      O amor não morre — disse. — Apenas adormece.

         E ali, sob o céu eterno do Egito, compreendi: algumas histórias não são descobertas. Elas despertam… quando o coração certo toca a alma certa.

         Naquela noite, o deserto não dormiu.

         O vento soprava baixo, como se repetisse nomes esquecidos. A lua desenhava sombras longas sobre a areia, e a pulseira repousava sobre a mesa da tenda, silenciosa, como se estivesse a descansar de séculos já vividos.

         Layla permanecia acordada.

         Ela não sabia dizer quando começara. Talvez ao tocar o metal. Talvez ao decifrar aquelas palavras. O fato é que seu peito ardia com uma saudade que não lhe pertencia… e, ainda assim, era profundamente sua.

         Aproximou-se da pulseira.

         No instante em que seus dedos a tocaram, o mundo se partiu.

         O deserto desapareceu. Em seu lugar, ergueu-se um palácio branco. Tochas acesas. Incenso no ar. Ela viu a si mesma — não como Layla, mas como Amunet, princesa do Egito Antigo — correndo por corredores proibidos. Viu um poeta esperando na sombra, olhos cheios de amor e condenação.

—      Você voltou… — sussurrou uma voz antiga dentro dela.

         Layla caiu de joelhos, ofegante. As lágrimas vieram antes que pudesse entender por quê.

         Davi entrou na tenda, alarmado.

—      Layla?

         Ela ergueu o olhar. Não era mais apenas o presente que o encarava, mas séculos inteiros.

—      Elias está errado — disse ela, com a voz embargada. — Não foi só você quem prometeu voltar.

         O silêncio entre eles era denso, absoluto.

—      Eu fui Amunet — continuou. — A princesa que te amou quando amar era proibido… e que atravessou o tempo esperando por ti.

         Davi aproximou-se lentamente, como quem teme acordar um sonho.

—      Então… você se lembra de mim?

         Layla sorriu entre lágrimas, o mesmo sorriso que desafiara os séculos.

—      Eu nunca te esqueci, meu poeta.

         A pulseira, sobre a mesa, reacendeu o  brilho… e se desfez em pó dourado, libertando aquilo que mantivera preso por eras.

         No deserto do Egito, duas promessas antigas enfim se cumpriram.

         E o tempo, derrotado, aprendeu que o amor não conhece morte, nem esquecimento, nem fim, pois que é eterno.

 

                                                                                      Nelson de Medeiros- 18/01/2026

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SONETO DO POETA ERRANTE

 

 

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SONETO DO POETA ERRANTE


Fui poeta e cantava com alegria
nas madrugadas claras, sob a lua;
fazia versos vendo a face sua
e viajava em doce fantasia!


Embora jovem, eu já pressentia
que a paixão, quando na alma se insinua,
carrega uma verdade simples, nua:
—pelo desejo é que o amor se inicia!


Por isso me transporto a outra era,
ao tempo em que queria os beijos seus,
pertinho do seu corpo que eu amava;

e, despindo sua alma, os olhos meus
buscavam, sob o véu da primavera,
o beijo lento que você me dava!

                                                                                                                                 Nelson de Medeiros, 17/01/2026

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CARTA NÃO ENVIADA

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CARTA NÃO ENVIADA


A paixão, com o tempo, sempre passa,
pois que o tempo é senhor do esquecimento;
é remédio que cura o sofrimento
deste mal que a cabeça nos embaça!

Quando ela dentro d! alma se entrelaça,
a dor parece eterna e sem alento;
mas tudo cessa; a vida não nos traça
nenhum determinismo num tormento!

Livre arbítrio não é um desalinho,
por isso escolhe e segue teu caminho
no rumo que te mostra o coração!

Lágrima presa é água de liberdade,
solta-a e, sem remorso, sem saudade
siga em frente e pra trás não olhes não!

                                                                                                                                                              Nelson de Medeiros

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O FALSO BRILHO

 

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O FALSO BRILHO

O orgulho e o ciúme, em par mofino,
na mente humana espalham vil tormento;
quando a soberba sobe ao pensamento,
marca seu ego e traça seu destino.

Atrás de falso brilho adamantino,
busca o poder sem ter merecimento;
destrói a Lei do Amor em cada intento
e se sente maior que o Ser Divino.

Já o ciúme é posse sem razão:
instinto baixo, feio, irracional,
que leva o ser à beira da loucura;

pois, se o amor não serve de padrão,
perde a noção do bem e da ventura
— Volta a ser bicho do reino animal!

                                                                                                                                                   Nelson de Medeiros, 15/01/2026

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O SUB CONTRACHEFE           

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O SUB CONTRACHEFE

          

      

Houve um tempo — e não faz tanto assim — em que era possível trabalhar numa repartição pública e, ao mesmo tempo, tocar a vida fora dela. Bastava cumprir o horário. Simples. Civilizado.
Eu fazia exatamente isso. Das sete da manhã à uma da tarde, batia ponto numa repartição pública, concursado antigo, daqueles que estudaram quando concurso ainda exigia livro. À tarde, vestia outra pele: advogado, profissão que sempre foi, de fato, a minha principal.
Claro que isso incomodava. Sempre incomodou.
Há quem jure que servidor público deveria viver exclusivamente para o cargo, como se o salário fosse suficiente para pagar aluguel, supermercado, escola e dignidade. Essas pessoas geralmente nunca trabalharam no serviço público — ou trabalham pouco.
Servidor público de verdade, diga-se, é quem segura o rojão diário. Não confundir com os “servidos pelo serviço público”, especialistas em nada fazer, mas mestres em receber.
Trabalhei duro por muitos anos. Reconhecimento? Zero. Em compensação, perseguição não faltou. O problema era simples: eu era advogado. E, pior, entendia de leis. Isso costuma causar certo desconforto, especialmente em chefias pouco afeitas ao estudo, algumas delas com formação que parou no antigo segundo grau — e olhe lá.
Na prática, eu precisava da advocacia para respirar. Era ali, no fórum, entre petições, audiências e debates jurídicos, que me sentia livre. Livre dos regulamentos criados não para organizar, mas para negar direitos. Livre dos sistemas que tratam como favor aquilo que é direito de gente simples, que depois de uma vida inteira de trabalho acaba disputando migalhas.
E, como toda repartição que se preze, havia o personagem obrigatório: o dedo-duro.
Logo fica famoso.
Aquele sujeito sempre solícito, sempre sorridente, sempre “por dentro” de tudo. Servia a todos — menos aos colegas. Tentava servir a dois senhores, ainda que nunca tenha lido a Bíblia para saber que isso não costuma dar certo.
Nunca ganhou nada relevante com isso. Tornou-se apenas conhecido. Conhecido e irrelevante. Um zero à esquerda, ignorado até pelos próprios chefes que tanto tentava agradar.
É verdade que, às vezes, eu precisava sair mais cedo ou chegar um pouco depois do horário. O escritório crescia, os compromissos se acumulavam. Nada fora do razoável. Mas o suficiente para despertar o radar do nosso vigilante informal.
Até que, certa manhã, por volta das onze horas, saí apressado. Tinha uma audiência complicada em outra cidade, a trinta quilômetros dali, marcada para as treze horas. Todos sabemos: na Justiça, horário é sugestão — exceto para advogados.
Na porta de saída, como se fosse roteiro, lá estava ele. O sub Contrachefe.
Com aquele ar de quem fiscaliza o mundo, lançou a frase clássica:
— Bom dia, doutor. Saindo cedinho, hein?
Respirei fundo. Sorri. E respondi com a objetividade que a situação merecia:
Estou saindo cedo hoje. Mas você não percebeu que, em compensação, chego tarde todos os dias?
E fui embora.
Ficou parado. Pensou. Seguiu andando.
Há frases que não se explicam apensas se atravessam, por isso tenho a impressão de que, até hoje, ele tenta entender onde estava a irregularidade.

                                                                                                                                          Nelson de Medeiros

                                                                                                                                                                            (Cronica publicada em revista local em 1999)

 

 

 

 

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O AMOR SEMPRE TRAMA

 

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O AMOR SEMPRE TRAMA

A visão é lucerna que o chama;
então o vate acorda, e a noite para.
A ausência dói quando a alma se depara
só, no leito onde a dor é panorama!

Sente o perfume que o tempo apara;
no quarto surge a luz — quase holograma —
e a mensagem então se torna clara:
— O seu destino? — O amor ainda trama!

Então a alvura, em veste de orvalho,
traz a certeza, pura e constante,
de que esta vida é atalho na escalada

e como nada nela e ato falho,
mesmo na noite fria e isolada,
o amor permanece… eterno, vibrante!

                                                                                                                                                    Nelson de Medeiros, 14/01/2026

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O MILAGRE DO OBRIGADO

 

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O MILAGRE DO OBRIGADO

 

Não é só gratidão que a voz revela,
quando nos diz — feliz — muito obrigado:
é muito mais que isso, é um legado
que a alma acolhe, escuta e reverbera!


É chama viva, luz que se desvela
num gesto simples, nobre e abençoado;
é dom que surge, puro, desarmado,
prece que sobe ao céu e lá se anela!


Quem ouve tal palavra, assim, não sabe
que recebeu além de um som terreno:
— colheu benção celeste que lhe cabe!


Dizer “obrigado” é laço que perdura,
ponte de afeto, erguida em voo pleno,
que liga a luz sombria à luz mais pura!
                                                                                                                                                                 Nelson de Medeiros, 13/01/2026

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A CRISÁLIDA DO SER

 

 

 

 

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A CRISÁLIDA DO SER


Não creio em trilho exato no existir,
pois tudo cede ao pulso da vontade;
nada pode tolher a liberdade
que temos de negar ou permitir!


Não há voz que imponha insanidade,
nem nada que por nós, vá decidir;
trazemos força interna a resistir
contra o fardo sombrio da maldade!


Só a morte nos foge à decisão,
não por destino cego ou tirania,
mas por ser Lei ditada à criação!


Ela não mata a vida: é travessia;
crisálida do ser em mutação,
onde a sombra finda e a luz principia!

                                                                                                                                                               Nelson de Medeiros, 09/01/2026

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