
O GUARDIÃO DO AMOR E A PRINCESA DO TEMPO.
Miniconto inspirado num poema de Davi Simas Couto, intitulado: TRADUÇÃO.
O sol do Egito derramava fogo sobre a areia havia dias. O deserto respirava silêncio, e cada grão parecia guardar um segredo antigo demais para ser dito em voz alta. Três arqueólogos cavavam, Davi, Layla e eu.
— Nada outra vez… — murmurou Davi, limpando o suor da testa. — Talvez essa pulseira prefira continuar sendo lenda.
— As lendas também esperam — respondi. — E nós aprendemos a escutar.
Meu nome é Elias. Sou arqueólogo na terra dos faraós, cavando não apenas a areia, mas o tempo. Davi fazia parte da equipe, embora parecesse pertencer a outra era. Nas horas vagas escrevia versos como quem reza. Falava de amor com a sabedoria de quem já o perdeu. Por isso o chamávamos de Guardião do Amor.
— Um poeta no deserto — provoquei certa vez.
Ele sorriu, distante.
— Até as pirâmides sabem das coisas do amor, Elias. Só precisamos aprender a ouvi-las.
Cavamos por horas, até que o sol, mancomunado com o destino, bateu em algo escondido e feriu meus olhos com um brilho inesperado.
— Esperem… — sussurrei.
Ajoelhei-me e afastei a areia com cuidado, como quem desperta um sonho. O metal antigo surgiu, simples e eterno.
— Uma pulseira… — disse Layla, em reverência. — Primitiva como o primeiro juramento.
Davi aproximou-se em silêncio. Seu olhar reconhecia antes que a mente ousasse compreender. À sombra da tenda, deciframos os sinais gravados, letras desconhecidas que pareciam bem antigas.
Layla, que era epigrafista, inclinou-se sobre a pulseira como quem escuta uma voz antiga e leu:
— “O poeta, guardião do amor, esteve aqui. Amou a princesa. E foi amado.”
O vento atravessou o acampamento como um suspiro antigo. Davi empalideceu.
— São os meus versos… — murmurou. — Sempre foram.
Ele segurou a pulseira. Ela aqueceu, como se lembrasse de suas mãos.
— Desde criança — disse ele — sonho com este deserto. Com um palácio branco… e com ela.
A areia moveu-se ao nosso redor. Por um instante, o tempo cedeu. Vi colunas erguidas do nada, tochas acesas, e uma princesa de olhar triste observando Davi através dos séculos.
— Em outra vida — continuou ele — fui poeta. Morri com o nome dela nos lábios. Prometi voltar.
— E voltou — sussurrei.
A pulseira brilhou uma última vez, depois se apagou, satisfeita. Davi sorriu entre lágrimas.
— O amor não morre — disse. — Apenas adormece.
E ali, sob o céu eterno do Egito, compreendi: algumas histórias não são descobertas. Elas despertam… quando o coração certo toca a alma certa.
Naquela noite, o deserto não dormiu.
O vento soprava baixo, como se repetisse nomes esquecidos. A lua desenhava sombras longas sobre a areia, e a pulseira repousava sobre a mesa da tenda, silenciosa, como se estivesse a descansar de séculos já vividos.
Layla permanecia acordada.
Ela não sabia dizer quando começara. Talvez ao tocar o metal. Talvez ao decifrar aquelas palavras. O fato é que seu peito ardia com uma saudade que não lhe pertencia… e, ainda assim, era profundamente sua.
Aproximou-se da pulseira.
No instante em que seus dedos a tocaram, o mundo se partiu.
O deserto desapareceu. Em seu lugar, ergueu-se um palácio branco. Tochas acesas. Incenso no ar. Ela viu a si mesma — não como Layla, mas como Amunet, princesa do Egito Antigo — correndo por corredores proibidos. Viu um poeta esperando na sombra, olhos cheios de amor e condenação.
— Você voltou… — sussurrou uma voz antiga dentro dela.
Layla caiu de joelhos, ofegante. As lágrimas vieram antes que pudesse entender por quê.
Davi entrou na tenda, alarmado.
— Layla?
Ela ergueu o olhar. Não era mais apenas o presente que o encarava, mas séculos inteiros.
— Elias está errado — disse ela, com a voz embargada. — Não foi só você quem prometeu voltar.
O silêncio entre eles era denso, absoluto.
— Eu fui Amunet — continuou. — A princesa que te amou quando amar era proibido… e que atravessou o tempo esperando por ti.
Davi aproximou-se lentamente, como quem teme acordar um sonho.
— Então… você se lembra de mim?
Layla sorriu entre lágrimas, o mesmo sorriso que desafiara os séculos.
— Eu nunca te esqueci, meu poeta.
A pulseira, sobre a mesa, reacendeu o brilho… e se desfez em pó dourado, libertando aquilo que mantivera preso por eras.
No deserto do Egito, duas promessas antigas enfim se cumpriram.
E o tempo, derrotado, aprendeu que o amor não conhece morte, nem esquecimento, nem fim, pois que é eterno.
Nelson de Medeiros- 18/01/2026